Comportamento
74% das mulheres já sofreram assédio: o dado que para a internet e expõe o que toda brasileira já sabia

Três em cada quatro mulheres. Pensa nisso por um segundo. Você, sua mãe, sua melhor amiga, sua colega de trabalho. A probabilidade de que vocês quatro já tenham vivido uma situação de assédio é altíssima. E agora tem pesquisa provando o que a maioria das mulheres brasileiras carrega no corpo há anos como memória, como cicatriz, como história que preferia não ter para contar.
A Pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026, conduzida pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Ipsos-Ipec, com apoio do Sesc-SP e da Fundação Grupo Volkswagen, ouviu 3.500 pessoas com mais de 16 anos em dez capitais brasileiras: Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. O resultado é esse número que dói: 74% das mulheres disseram já ter sofrido assédio em algum momento da vida.
A rua não é segura. O ônibus também não. Nem o trabalho.
Os dados mostram onde esse assédio contra a mulher acontece com mais frequência, e a lista é uma sequência de lugares que toda mulher frequenta no dia a dia. 56% das entrevistadas relataram ter sido assediadas na rua ou em espaços públicos como praças, parques e praias. O transporte público aparece logo atrás, citado por 51% delas.
O ambiente de trabalho, que deveria ser um espaço de respeito e profissionalismo, foi apontado por 38% das mulheres. Bares e casas noturnas aparecem com 33%, e o transporte particular, incluindo táxis e carros por aplicativo, com 17%. O número que talvez seja o mais perturbador de todos: 28% das mulheres disseram ter sido assediadas dentro do próprio ambiente familiar.
Porto Alegre lidera, mas nenhuma cidade escapa
Quando o recorte é feito por cidade, Porto Alegre registrou o maior índice, com 79% das mulheres relatando alguma situação de assédio sexual ou moral. Recife e Rio de Janeiro aparecem empatadas logo atrás, com 77%. São Paulo marca 74%. Belo Horizonte e Fortaleza ficam com o menor percentual da lista, 68%, mas convenhamos: 68% ainda é um número que não deveria existir.
Não existe capital segura nesse mapa. A violência contra a mulher não tem endereço preferido.
“Pode ser que o número seja ainda maior”
Jennifer Caroline Luiz, supervisora da área de gestão da Fundação Volkswagen e uma das especialistas envolvidas na pesquisa, aponta para algo que os dados sozinhos não conseguem capturar totalmente. “Existe a dor, a vergonha em admitir ter sido vítima dessa situação. Então, pode ser que o número seja maior, mas o formato da pesquisa, com entrevistas online, pode diminuir esse risco.”
Ou seja: 74% é o que as mulheres conseguiram verbalizar. O número real pode ser ainda mais alto. Quantas histórias ficaram engolidas pela vergonha que nunca deveria ter sido delas?
Jennifer chama a atenção ainda para uma dado específico da pesquisa: o grupo etário com maior incidência de relatos foi o de mulheres entre 45 e 59 anos. Ela explica: “Mulheres mais jovens podem ter mais facilidade em reconhecer as situações de assédio e denunciá-las. Já as mulheres com mais idade vivem em um contexto em que o machismo é mais presente e foi mais naturalizado. Por isso, podem ter sofrido mais com esse tipo de situação.”
Duas gerações, dois contextos, a mesma dor com nomes diferentes.
O que as mulheres querem que mude
A pesquisa também perguntou quais medidas seriam mais eficazes para combater a violência doméstica e familiar. A resposta das mulheres foi direta: 59% pedem o aumento das penas para quem comete violência contra a mulher. A segunda medida mais citada, por 52% delas, foi ampliar os serviços de proteção às mulheres em situação de violência em todas as regiões das cidades.
Os homens entrevistados também apontaram essas duas como prioridade, mas com percentuais menores: 48% para aumento das penas e 45% para ampliação dos serviços. A diferença entre os números masculinos e femininos já diz algo sobre quem sente a urgência dessa pauta na pele.
A conta do lar que os homens não estão enxergando
Além do assédio, a pesquisa abriu outro debate que precisa de atenção: a divisão das tarefas domésticas. E aqui a diferença de percepção entre homens e mulheres é gritante.
51% dos homens acreditam que os afazeres domésticos são divididos igualmente em suas casas. Entre as mulheres, apenas 29% concordam com essa afirmação. 43% das mulheres dizem que fazem a maior parte das tarefas, enquanto somente 28% dos homens reconhecem essa realidade.
Jennifer resume com precisão: “Há uma tendência de alguns homens aumentarem a percepção de que o trabalho doméstico é uma responsabilidade compartilhada, mas eles acham que está sendo dividido igualmente, enquanto elas não percebem o mesmo. Isso traduz a desigualdade de gênero.”
Dois lares. Uma versão masculina e uma versão feminina da mesma casa. E são histórias completamente diferentes.
O número que ninguém deveria normalizar
74% não é estatística. São pessoas. São conversas que não aconteceram, denúncias que não foram feitas, histórias que ficaram guardadas por anos com a etiqueta errada de “isso é normal” ou “não foi nada demais”.
A pesquisa existe para que esse número pare de ser tratado como inevitável. Para que a pergunta deixe de ser “por que tantas mulheres sofrem assédio?” e passe a ser, de uma vez, “por que ainda permitimos que isso aconteça?”.
Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio, o Ligue 180 funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, de forma gratuita e confidencial.

Social Midia e crítica de cultura pop, Renata domina o mundo das fofocas e novelas como ninguém. Com uma trajetória em grandes portais de entretenimento, ela traz uma visão divertida e crítica sobre os bastidores do universo das celebridades e das tramas de novelas. Renata é conhecida pelo seu tom bem-humorado e envolvente, que leva os leitores a se sentirem parte dos acontecimentos, discutindo os detalhes de suas novelas favoritas e compartilhando curiosidades imperdíveis das estrelas.


