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Midia

A peça que estreia em Curitiba e faz uma pergunta incômoda: um jornal mentiria?

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Um beijo. Só isso. Um gesto íntimo, dado a um desconhecido no momento de sua morte, num asfalto quente de cidade grande. E esse beijo vira manchete, vira escândalo, vira destruição de uma vida inteira. Nelson Rodrigues escreveu essa história em 1961 e, se você achar que ela envelheceu, prepare-se para ser surpreendida.

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“Beijo e Asfalto ou O Fato É” estreia no dia 11 de março no Auditório Glauco Flores de Sá, dentro do complexo do Teatro Guaíra, em Curitiba, com entrada gratuita. E o espetáculo não chega como mais uma montagem clássica empoeirada. Chega como um soco.

Quando o ensaio vira o próprio espetáculo

A proposta já começa diferente. Três atores decidem montar “O Beijo no Asfalto” e, durante o processo, percebem algo que muda tudo: aquele texto poderia se passar em 1943, em 2026 ou em 2052. A história não tem data. Ela é a estrutura. É o mecanismo. É o jeito como a sociedade transforma um gesto humano em munição.

A partir daí, o palco deixa de ser palco e passa a ser tudo ao mesmo tempo: sala de ensaio, redação de jornal, tribunal, delegacia, feed de notícias. A linguagem é híbrida, transita entre peça-ensaio, palestra performativa e investigação documental, com direção construída de forma colaborativa entre elenco e dramaturgo Vinicius Medeiros, sob orientação artística de Giordano Castro, do reconhecido grupo Magiluth.

Funciona? Pelo que o projeto entrega no papel, sim. Muito.

O que Nelson Rodrigues sabia sobre fake news antes do termo existir

Na obra original, o beijo de Arandir com um homem atropelado vira manchete. Mas a manchete não existe para contar a verdade. Ela existe para esconder um crime policial. A mídia, ali, é ferramenta de desvio. De manipulação. De espetáculo no lugar de informação.

Soa familiar? Deveria.

A montagem da Garalhufa puxa esse fio e pergunta o que acontece quando você coloca fake news, linchamento virtual, vazamento de dados e disputas narrativas em ano eleitoral dentro dessa mesma estrutura. A resposta está no palco, e não é confortável.

A pergunta que atravessa todo o espetáculo é direta e não pede licença: um jornal mentiria? Ou melhor, um algoritmo mentiria? Um perfil anônimo mentiria? Você já sabe a resposta, mas assistir alguém construir essa argumentação em cena, ao vivo, tem um peso diferente de qualquer thread no X.

A estreia de uma companhia que já chega com repertório crítico

“Beijo e Asfalto ou O Fato É” marca a primeira peça profissional da Garalhufa. Primeira, mas sem qualquer cara de primeira. O projeto tem consistência dramatúrgica, tem orientação artística experiente e tem algo que muita produção consagrada não tem: urgência real de dizer algo.

O espetáculo foi viabilizado pelo Mecenato da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba, com patrocínio de Centro Diagnóstico Água Verde, Florença Veículos e Serra Verde Express. Ou seja, chegou com estrutura para entregar o que promete.

Por que vale ir ao Teatro Guaíra em março

As apresentações acontecem nos dias 11, 12, 13 e 15 de março, e de 19 a 22 de março de 2026. De quarta a sábado, às 20h. Domingos, às 16h e às 19h. A duração é de 1h30, classificação etária de 16 anos e a entrada é gratuita, com retirada de ingressos 30 minutos antes de cada sessão direto no auditório.

Para quem precisa de acessibilidade, há sessões com tradução em Libras nos dias 15 de março, domingo às 19h, e 19 de março, quinta às 20h.

O endereço é Rua Amintas de Barros, 70, Centro, Curitiba.

Nelson Rodrigues ficaria curioso para ver o que fizeram com o texto dele. Ou talvez não ficaria surpreso com nada. Esse era o problema com ele: sabia demais sobre o ser humano para se chocar com qualquer coisa que a mídia fizesse.

Você vai?

Fonte: AEN