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Pesquisa revela o custo real de ser mãe de filho com ansiedade ou depressão — e o número assusta

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mae cansada 1 - Pesquisa revela o custo real de ser mãe de filho com ansiedade ou depressão — e o número assusta

Tem uma conta que a maioria das mães nunca viu escrita em lugar nenhum. Não está no extrato bancário, não aparece nos relatórios médicos e raramente é mencionada nas consultas. Mas ela existe, ela é pesada e um estudo brasileiro acaba de colocá-la em números: cuidar de um filho jovem com transtorno mental custa, em média, o equivalente a 50% da renda mensal familiar. Isso vale para famílias ricas, pobres e para todo mundo no meio.

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A pesquisa ouviu 1.158 cuidadores de jovens entre 14 e 23 anos com transtornos mentais diagnosticados. Dos participantes, 94,2% eram mães. O dado já diz muito antes mesmo de qualquer análise.

Ansiedade e depressão também cobram o seu preço

A grande virada desse estudo está no que ele escolheu observar. A maioria das pesquisas sobre custo do cuidado em saúde mental costuma mirar nos casos mais complexos, como o transtorno do espectro autista (TEA). Carolina Ziebold, doutora em psiquiatria pela Unifesp e primeira autora do estudo, aponta exatamente essa lacuna: “A pouca literatura existente costuma concentrar-se no transtorno do espectro autista ou em outras condições de maior complexidade e impacto para as famílias. Nosso estudo demonstra que, mesmo em casos de transtornos mais frequentes, os cuidadores, especialmente as mães, enfrentam um impacto no desenvolvimento ocupacional, na própria saúde e no bolso equivalente à metade dos seus salários.”

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Transtornos “comuns” como ansiedade, depressão e transtornos do comportamento raramente ganham esse tipo de atenção. A narrativa social ainda minimiza essas condições, como se elas fossem menos reais ou menos exigentes. Os números provam o contrário.

O que entra nessa conta invisível

Quando os pesquisadores falam em custo indireto, eles não estão contando só o que sai do bolso para pagar consulta ou medicamento. A análise vai muito além disso. Entram na equação as horas que a mãe deixa de trabalhar para levar o filho ao médico, a perda de produtividade no emprego, os gastos com transporte para acessar serviços de saúde, o impacto na própria saúde física e mental dessa cuidadora e o desequilíbrio nas tarefas domésticas ao longo de seis meses.

Quase 40% das famílias participantes, ou seja, 458 delas, relataram sentir esses impactos de forma direta e mensurável. Não é sensação. É dado.

Ziebold reforça a abrangência do problema: “Os custos vão muito além dos cuidados médicos diretos, atingindo a capacidade de trabalho, o equilíbrio doméstico e as finanças pessoais, independentemente da classe social.” Essa última parte merece destaque: não importa o nível socioeconômico. O peso é proporcional e universal.

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A classe social não protege ninguém

Esse é um dos pontos mais reveladores da pesquisa. A ideia de que famílias com maior poder aquisitivo conseguem absorver melhor esses custos não se sustenta nos dados. O impacto proporcional à renda é semelhante em todos os extratos sociais. Uma família que ganha mais, gasta mais. Uma família que ganha menos, compromete o mesmo percentual do orçamento. A matemática é cruel e igualitária nesse sentido.

Os participantes integram a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais, projeto também chamado de “Conexão Mentes do Futuro”, vinculado ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) e desenvolvido com sede na Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Unifesp e a UFRGS. Os resultados foram publicados no periódico científico Value in Health.

O que precisa mudar — e o que os pesquisadores pedem

A pesquisa não termina no diagnóstico do problema. Os autores apontam caminhos concretos: políticas públicas que ofereçam apoio financeiro e logístico aos cuidadores, com foco especial nas mulheres, que são as mais afetadas. A criação de programas que enxerguem a família como um todo, e não só o jovem com o diagnóstico, está entre as principais recomendações.

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Faz sentido. Tratar o filho sem olhar para quem cuida dele é resolver metade do problema. A mãe esgotada, endividada e com a saúde comprometida não tem como oferecer o cuidado de qualidade que qualquer tratamento exige. O sistema precisa enxergar essa equação completa.

Uma conversa que está atrasada

Falar sobre saúde mental infantojuvenil virou pauta. Falar sobre o impacto financeiro e emocional em quem cuida ainda é tabu. Esse estudo abre uma janela importante para uma conversa que a sociedade brasileira deve muito às mães que aparecem nas estatísticas como 94,2% dos cuidadores.

Você já parou para pensar no custo real que uma mãe carrega em silêncio? Às vezes, o número mais honesto não está na nota fiscal. Ele está no sono perdido, na reunião que ela saiu mais cedo, no almoço que ela pulou para levar o filho ao psiquiatra. Agora, finalmente, esse número tem nome e um lugar na ciência.

Fonte: Agencia FAPESP  * Com informações de Mainary Nascimento, do CISM.