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Midia

Por que a ficção ainda invisibiliza mulheres 40+?

A invisibilidade da mulher madura na ficção é sintoma de um imaginário que ainda
teme o envelhecimento feminino

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Mulher triste proximo ao aniversario

“Não importa onde e nem em que tempo estejamos. Se você nasce mulher, já nasce
fadada ao combate, ao embate, ao confronto, à resistência.”
Essa frase, de minha
autoria, presente no prefácio de Amor de Manjericão, reflete perfeitamente a
trajetória feminina e seus desafios.

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No âmbito da literatura, ela também faz todo o sentido se nos ativermos às
dificuldades enfrentadas pelas escritoras para se firmarem no mercado editorial e
serem lidas. E também se aplica quando constatamos que mulheres 40+ raramente
ocupam o centro das narrativas de ficção. É uma batalha para desbravar caminhos,
pois para a mulher nada vem de graça, nem no mundo da ficção.

O mundo literário sempre foi masculino. No passado, as mulheres se valiam de
pseudônimos para escreverem e não serem reconhecidas. A literatura não era, com
toda certeza, um espaço para elas. E hoje, é? Depende. Pode-se dizer que é e não é. É
notória a quantidade de mulheres produzindo boas narrativas e de como esse número
cresceu. Elas vieram para se posicionar definitivamente no mercado e fincar a sua
bandeira nesse chão outrora pisado somente por homens. No entanto, há muito que
se caminhar, considerando a ainda existente e expressiva disparidade entre escritores
e escritoras, com os homens liderando o ranking de mais publicados.

Se mulheres leem mais, por que ainda são menos publicadas e menos centrais nas
narrativas?

Mulheres leem mais do que homens, fato constatado por pesquisas, mas, os escritores
são mais lidos do que as mulheres. Árdua trilha para as escritoras: encarar esse front e
essa triste realidade! Basta dar um breve olhar para a Academia Brasileira de Letras
que demorou 80 anos para nomear a primeira mulher, a talentosíssima Rachel de
Queiroz. Esse padrão ainda é perpetuado com pouca representatividade feminina
ocupando as cadeiras da instituição.

A realidade da mulher sob a tutela do patriarcado persiste, em todas as áreas em que
ela atua, respingando e borrando as narrativas de ficção que pouco a representam. As
personagens femininas acabam por revelar e refletir o que a sociedade delas espera.
Por isso, as mocinhas são mais bem vistas como protagonistas interessantes do que as
personagens mais velhas.

Mercado editorial, patriarcado e etarismo ajudam a explicar o apagamento das
protagonistas maduras

Autores acabam por ceder às expectativas do mercado e escrevem para serem
vendáveis. Surge aí a invisibilidade da mulher 40+ nas narrativas de ficção. Vê-se a
perda do valor feminino e o evidente etarismo prevalecerem nas histórias que buscam
personagens jovens, repletas de colágeno e formas perfeitas, em detrimento à mulher
real que envelhece ornando suas brancas madeixas e sua vulnerabilidade latente.
Os papéis da mulher na maturidade se restringem a tipos caricatos e estereotipados ou
desinteressantes, mostrando-a apagada e sem desejo. As mulheres 40+ costumam ser
colocadas em um lugar colateral e sem protagonismo ou brilho próprios. Isso é
lamentável, mas é fruto de uma sociedade machista e etarista.

É frustrante para a mulher envelhecer e não se reconhecer nas narrativas e ter seus
desejos e anseios invalidados. A literatura mostra a sociedade tal e qual ela é, mas, por
ser arte, pode e deve recriá-la, mudá-la, ou melhor, chacoalhá-la, de preferência, e
virá-la de ponta cabeça, se possível.

Precisamos dar luz a essa mulher que quer ser vista, que tem o que mostrar e dizer. Ela
continua a ser quem era quando jovem, mas agora, mais vivida, torna-se uma versão
melhorada de si mesma, agregando a maturidade ao desejo pulsante de vida.

O envelhecer está mudando e cabe a nós, escritoras e leitoras, fazer a nossa parte
trazendo à tona personagens mais velhas e cheias de potência, pois a invisibilidade da
mulher 40+ vem de um ranço cultural e não é uma fatalidade da qual devemos nos
conformar e aceitar.

Essa é só mais uma batalha que, entre as tantas travadas diariamente, temos que
enfrentar. Queremos ver mulheres mais velhas nos enredos de ficção, pois elas têm
muito a dizer, a encantar e a seduzir.

Relembrando a frase inicial do meu primeiro romance, em que a protagonista é uma
recém-divorciada 40+, somos talhadas para o combate, para o embate e para a
resistência. Pois bem, resistam! E leiam mais mulheres, para ontem!

Sobre Ana Paula Couto

Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de
língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela
escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo
com “Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Este ano, lançou “Amor de Alecrim”,
continuação da obra, com a personagem aos 50 anos.