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Taxa das Blusinhas Pode Acabar — e Isso Vai Mexer Direto no Seu Bolso (e nos Empregos de Milhões)

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Parece só uma discussão chata de política econômica. Mas não é. O que está sendo decidido agora, nos bastidores do Congresso Nacional e nos almoços de entidades empresariais em Brasília, vai impactar o preço daquela blusinha que você compra na Shein, o emprego da sua vizinha que trabalha numa confecção, e até quanto o Brasil arrecada para pagar saúde pública. Ficou mais interessante, né?

A famosa “taxa das blusinhas” — tecnicamente o imposto de importação de 20% cobrado sobre compras internacionais de até US$ 50 em plataformas como Shopee, Shein, AliExpress e Amazon — voltou ao centro do debate político. Um novo levantamento, conduzido pela consultoria GO Associados e apresentado durante reunião da Frente Parlamentar Mista do Ambiente de Negócios, jogou números pesados na mesa para defender que a taxação precisa não só ser mantida, mas ampliada.

O título do estudo já diz tudo: “Impactos econômicos da competição desigual com as plataformas cross-border”. Traduzindo do economês: as gigantes asiáticas jogam com regras completamente diferentes das empresas brasileiras, e quem está pagando a conta são os trabalhadores nacionais. Vale notar que os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, foram convidados para a apresentação do estudo — e não compareceram. Detalhe que não passou despercebido.

Como essa bagunça tributária toda começou

Para entender o tamanho do problema, é preciso voltar um pouco. Durante a pandemia, as compras online explodiram. Em 2021, o volume de remessas internacionais cresceu 54%, e a maioria dos produtos entrava no Brasil como se fossem encomendas entre pessoas físicas — uma brecha que garantia isenção de imposto de importação. Só que por trás dessas “pessoas físicas” havia, na prática, grandes varejistas asiáticos operando no limite da legalidade. A Receita Federal chegou a identificar uma única pessoa que havia enviado mais de 16 milhões de pacotes ao Brasil.

Em 2023, o governo Lula criou o Programa de Remessa Conforme (PRC), que zerou o imposto para compras de até US$ 50 nas plataformas cadastradas. A ideia era regularizar o setor e trazer mais controle fiscal. Funcionou pela metade. Em agosto de 2024, o Congresso aprovou a alíquota de 20% de imposto de importação para todos os produtos nessa faixa de preço, independente do programa. Aí as coisas começaram a mudar de verdade.

A conta que o Brasil nunca cobrou

Os números do estudo da GO Associados são para deixar qualquer pessoa com queixo caído. Entre 2017 e 2025, o Brasil deixou de arrecadar R$ 51,4 bilhões entre esferas federal e estadual por conta do tratamento tributário favorecido às plataformas internacionais. Para ter dimensão: esse valor equivale ao orçamento inteiro do estado de Pernambuco em 2025. Só a perda federal, de R$ 23,6 bilhões, corresponde ao orçamento do Ministério das Cidades. Já a perda estadual de R$ 27,8 bilhões representa o dobro do orçamento de saúde do Rio de Janeiro no mesmo período.

E não é só arrecadação. O setor de vestuário gerou R$ 1,977 trilhão ao país em 2024 e sustenta hoje 3,7 milhões de empregos diretos, movimentando R$ 59,8 bilhões em massa salarial. Cada R$ 1 adicionado nesse setor gera um efeito cascata que chega a R$ 8,13 na economia como um todo, considerando o impacto direto nas empresas, os fornecedores acionados e o consumo das famílias. É muita coisa para ser colocada em risco.

O jogo tributário injusto que ninguém quer explicar direito

Aqui mora o coração da questão, e ela é mais complexa do que “imposto encarece a Shein”. A realidade é que hoje no Brasil coexistem dois sistemas de importação completamente diferentes para um mesmo produto. Uma camiseta de R$ 50 importada pela via tradicional chega ao consumidor por R$ 92,09, após a incidência de 35% de imposto de importação, 12,35% de PIS/Cofins e 20% de ICMS. A mesma camiseta comprada via Remessa Conforme chega a R$ 72,29. Uma diferença de 27% no preço final — e o produto é literalmente o mesmo.

Em categorias como perfumes e tênis, essa distorção é ainda mais brutal: os produtos nacionais chegam a ser 55% e 60% mais caros do que os equivalentes importados pelas plataformas digitais. A indústria brasileira, ao cumprir todas as regulações nacionais, pagar todos os tributos e passar pela fiscalização aduaneira completa, sai automaticamente em desvantagem competitiva. Não é reclamação de protecionismo. É matemática pura.

Edilson Urbano da Silva, coordenador-Geral de Desenvolvimento Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), é direto ao ponto: “Setor produtivo só quer igualdade, trabalhar, produzir, gerar renda e emprego. Antes de consumidor, o cidadão precisa ter um emprego. Porque se a empresa brasileira o demite, ele não vai ter dinheiro nem para comer ou consumir blusinha do exterior.”

O que os dados mostram sobre o impacto da taxação

O estudo aponta que o imposto de 20% gerou um ganho real ao varejo nacional entre 1,6% e 2,7% desde sua implementação. Pequeno? Pode parecer. Mas para um setor que estava sofrendo quedas expressivas de vendas, é o tipo de resultado que significa fábrica aberta e funcionário com carteira assinada.

As projeções para os próximos cinco anos reforçam o argumento das entidades: se a taxa for mantida, o vestuário nacional pode crescer mais de 20% até 2030. Se for revogada, o setor sofreria uma queda permanente superior a 10% no mesmo período. E se a isonomia tributária plena for alcançada, o varejo como um todo poderia avançar até 19%. São números que justificam toda a movimentação política em torno do tema.

A pressão política e o fantasma da revogação

O que torna essa história ainda mais interessante é o contexto político. Circulam em Brasília, segundo análises do BTG Pactual, informações de que o governo estaria medindo o apoio para revisar ou até revogar a taxa — num movimento que seria, ao mesmo tempo, um aceno à China e uma resposta ao tarifaço de Donald Trump nos Estados Unidos. Ano eleitoral como tempero extra nessa mistura toda.

O deputado Jorge Goetten (Republicanos-SC) defende que a discussão seja feita somente após as eleições: “Esses debates em ano eleitoral vêm contaminados para o Congresso e nós parlamentares temos que ter uma responsabilidade com o setor produtivo, com o emprego e com a renda das pessoas também.” Para ele, sacrificar a indústria nacional em nome de benesses eleitorais é um erro histórico que o Brasil repete toda vez que há reeleição em jogo.

Fernando Pimentel, presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Textil e da Confecção (Abit), vai na mesma direção com uma argumentação que não deixa muita margem para debate: “O país não pode abrir mão da sua indústria. Para ter consumo tem que ter emprego. Para ter emprego tem que ter progresso e desenvolvimento. E não vamos ter isto se prejudicarmos a produção nacional em favor da produção internacional. Nada contra o comércio, mas o comércio tem que ser justo e correto, tanto no aspecto tributário quanto no aspecto regulatório.”

Então, a taxa vai ficar ou vai embora?

A resposta honesta é: ninguém sabe ainda. O que se sabe é que as gigantes asiáticas não ficaram paradas esperando a decisão. A Shein já tem 55% das suas vendas no Brasil vindas de marketplace local. A Shopee afirma que 90% dos seus produtos são de vendedores brasileiros. O TikTok Shop, lançado no país em maio de 2025, já movimenta US$ 1 milhão por dia em volume de vendas. Elas se adaptaram, cresceram e seguem dominando o e-commerce brasileiro com ou sem taxação.

O debate real não é sobre blusinhas baratas ou caras. É sobre que tipo de economia o Brasil quer construir: uma que protege quem produz aqui dentro, paga impostos, cumpre regulações e gera emprego formal — ou uma que abre as portas para quem opera com regras completamente diferentes e leva os lucros para fora. Essa é a escolha que está sendo feita agora, com ou sem você prestando atenção.