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O maior mistério do brasileiro: para onde vai o chinelo depois que ele é jogado fora?

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Levanta a mão quem já jogou um chinelo velho no lixo sem pensar duas vezes. Pois é, eu também. Havaianas virou tão parte da vida do brasileiro quanto pão de queijo no café da manhã, mas ninguém para pra pensar no que acontece depois que o chinelo “morre”. E olha, a resposta pra essa pergunta é bem mais complicada (e mais interessante) do que parece.

São 200 milhões de pares vendidos por ano. Pra você ter noção do tamanho disso: dá pra encher sete Maracanãs, todo mundo de Havaianas no pé. Um produto tão democrático que virou item de mala de qualquer brasileiro, de norte a sul. Só que produto popular também é sinônimo de resíduo em escala industrial, e aí a coisa complica.

Borracha não é igual alumínio, gente

A reciclagem de borracha não segue o manual que a gente já conhece de outros materiais. Alumínio recicla numa boa, papelão nem se fala. Borracha expandida? Trabalhosa. Exige tecnologia específica, parceria industrial pesada e um processo que, até pouco tempo atrás, simplesmente não existia por aqui. Ou seja: não bastava boa vontade de separar o lixo certinho.

Durante anos, seu chinelo velho não valia nada

Aqui é onde a fofoca da sustentabilidade fica boa. Por muito tempo, chinelo usado era zero de valor comercial. Nada. Maria Augusta Bottino, diretora de Sustentabilidade da Alpargatas, entregou tudo numa entrevista ao Um Só Planeta: “Os chinelos coletados não tinham valor técnico para outras cadeias e, consequentemente, não tinham valor comercial para cooperativas”. Traduzindo: mesmo quem separava o chinelo certinho para reciclagem via ele voltar pro lixão de qualquer forma. Frustrante, né?

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Foi esse buraco que o programa Havaianas reCICLO tentou tapar a partir de 2020. E aqui vai meu pitaco: parece simples no papel, criar ponto de coleta e dar destino pra borracha, mas bastidor nenhum é fácil quando você tá inventando uma cadeia industrial do zero.

Os números que provam que rolou um glow up de verdade

Hoje o reCICLO já tem mais de 650 pontos de coleta, sendo mais de 500 só no Brasil. Já foram recolhidos mais de 560 mil pares, o equivalente a quase 200 toneladas de resíduo virando matéria-prima nova, que depois some transformada em piso, tapete, rodado industrial, acessório e até móvel.

E o crescimento nos últimos dois anos é do tipo que chama atenção: coleta em loja subiu 130%, cooperativas parceiras cresceram 163%, e o Ecoparque (a central mecanizada de triagem da marca) avançou impressionantes 520%. Isso aqui é prova de que, quando existe estrutura, o brasileiro participa sim.

Só que Bottino não deixa a gente comemorar cedo demais: “A coleta é só a ponta do iceberg”. A dificuldade real está em transformar isso numa cadeia que se sustente técnica e financeiramente no longo prazo. Spoiler: não é tão simples quanto parece nas redes sociais da marca.

As cooperativas são o verdadeiro plot twist dessa história

E aqui entra a parte que mais me emocionou nessa pauta toda: as cooperativas de reciclagem, historicamente ignoradas nesse tipo de cadeia produtiva, finalmente entraram no jogo. Hoje são mais de 50 cooperativas espalhadas por 13 estados, envolvendo cerca de 3,5 mil famílias.

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“O desenvolvimento da cadeia circular da borracha abre uma nova porta para a geração de receita de milhares de cooperados”, avalia Bottino. A empresa também bancou capacitação em parceria com Sesi e Senai, com treinamento de gestão financeira e comunicação pra essas famílias. Isso sim é impacto social de verdade, não é só marketing verde bonitinho.

Será que um dia seu chinelo velho vira chinelo novo?

Aqui mora a pergunta que fica martelando: será que rola um chinelo virar outro chinelo? Por enquanto, ninguém sabe. A Alpargatas ainda estuda se essa circularidade vai rolar em ciclo aberto (virando outros produtos, tipo a linha Resola, feita em parceria com a marca de móveis Desmobilia) ou também em ciclo fechado, com o chinelo voltando a ser chinelo de fato.

O que isso revela sobre reciclagem no Brasil (e não é coisa boa)

O caso do chinelo mais brasileiro que existe escancara um problema bem maior. Embalagem, eletrônico e alumínio já têm logística reversa relativamente resolvida, mas produto feito de mistura de material ainda trava feio na tecnologia e no dinheiro necessários pra virar cadeia produtiva em escala real.

“Logística reversa é um desafio coletivo”, pontua Bottino. “Ela exige a articulação de toda uma cadeia produtiva, da indústria ao consumidor”. Essa frase resume tudo: reciclar não depende só de você separar o lixo certinho. Depende de indústria, mercado e infraestrutura remando junto, e isso é o que trava a maioria das iniciativas no país.

A Alpargatas tem meta pra 2030: reciclar 100% dos resíduos de borracha vulcanizada gerados nas fábricas e reaproveitar integralmente os chinelos que voltam via logística reversa. Ambicioso? Com certeza. Vamos ver se entrega.

Bottino fecha a entrevista com a frase que resume o momento: “Todo processo é uma jornada e seguimos comprometidos com nosso caminho de evolução, de maneira estruturada e sistêmica, buscando atingir os resultados mais efetivos possíveis”.

Então, na próxima vez que aquele chinelo furado for parar no lixo, pensa duas vezes. Você sabia que rolava todo esse universo por trás de um simples par de Havaianas? Conta pra gente nos comentários se você separa seus chinelos velhos ou se eles simplesmente somem no fundo do guarda-roupa (tipo os meus).

Informações: UMSOPLANETA