Comportamento
Exame preventivo do câncer de colo do útero é ignorado por 6 em cada 10 brasileiras, aponta pesquisa; entenda os motivos e os riscos

A rotina de exames dos filhos costuma estar em dia. A das próprias mulheres, nem sempre. Um levantamento recente mostra que a prevenção ao câncer de colo do útero segue distante da realidade de grande parte das brasileiras, mesmo com mais informação circulando sobre o assunto. Seis em cada dez mulheres não realizaram o exame Papanicolau no último ano, e uma parcela significativa nem sequer se reconhece dentro do grupo de risco para a doença.
A pesquisa entrevistou 800 mulheres de 18 a 45 anos, das classes A, B, C e D, em todas as regiões do país. O objetivo era medir a evolução do conhecimento sobre o câncer de colo do útero e identificar o quanto essa informação realmente se converte em prevenção, com atenção especial à vacinação contra o HPV e aos exames de rastreamento.
Os números da falta de cuidado
O retrato é preocupante. Do total de entrevistadas, 67% já fez o Papanicolau alguma vez na vida. Porém, apenas 61% passou pelo exame no último ano, e o teste de DNA-HPV, considerado mais preciso, foi realizado por só 22% das mulheres nesse mesmo período.
Ainda assim, houve avanço. Na edição anterior da pesquisa, em 2025, os índices eram bem menores: 37% das participantes tinham feito o Papanicolau e apenas 13% haviam realizado o teste de DNA-HPV. O crescimento existe, mas o ritmo continua lento diante da urgência do problema.
Além dos exames, 34% das mulheres afirmaram não se considerar parte do grupo de risco para o câncer de colo do útero. Essa percepção equivocada ajuda a explicar por que tantas adiam ou simplesmente ignoram a prevenção.
Por que as mulheres deixam a prevenção de lado
Os motivos para a ausência de exames variam, mas revelam falhas que vão do sistema de saúde ao comportamento individual. Quase um terço das entrevistadas, 31%, disse que o médico simplesmente não solicitou o exame preventivo. Outras 15% afirmaram não saber que precisavam realizá-lo.
O constrangimento também pesa. Oito por cento das mulheres relataram não fazer o exame por vergonha, enquanto 7% evitam o procedimento por medo de sentir dor. Há ainda quem prefira não saber: 3% disseram não realizar o exame com receio do resultado.
Chama atenção também o desconhecimento básico sobre a função do próprio exame. Entre as entrevistadas de 18 a 45 anos, 26% afirmaram não saber para que serve o Papanicolau, um dado que expõe uma lacuna importante na comunicação sobre saúde da mulher.
A vacinação contra o HPV ainda enfrenta resistência
O cenário da imunização segue parecido. Quatro em cada dez mulheres, ou 39% das entrevistadas, não tomaram a vacina contra o HPV ou não se lembram de ter recebido o imunizante.
Entre as que não se vacinaram, o motivo mais citado foi a crença equivocada de que a vacina não é indicada para a faixa etária adulta. Esse mito é um dos principais obstáculos à ampliação da cobertura vacinal no país, já que a imunização contra o HPV está disponível também para adultos, e não apenas para crianças e adolescentes.
O levantamento mostra ainda um contraste relevante entre discurso e prática. Enquanto 44% das entrevistadas afirmam conhecer bem a vacina contra o HPV, um avanço em relação aos 38% registrados na pesquisa anterior, esse conhecimento não se traduz automaticamente em adesão à imunização. Reconhecer a importância da prevenção é um passo. Colocá-la em prática é outro, e é justamente aí que a maioria das mulheres trava.
O peso do medo e do julgamento
A associação do HPV a uma infecção sexualmente transmissível carrega um estigma que afasta muitas mulheres da prevenção. A infecção é extremamente comum: cerca de 80% das mulheres sexualmente ativas serão infectadas pelo vírus em algum momento da vida. A maioria dos casos é eliminada pelo próprio organismo, sem consequências.
O julgamento em torno do diagnóstico é desproporcional à realidade médica. O HPV pode ser contraído em uma única relação sexual e permanecer inativo por anos, sendo reativado em períodos de queda de imunidade ou estresse. Associar a infecção a promiscuidade é um erro comum que ainda afasta mulheres dos exames e do próprio diagnóstico.
O ponto de atenção real está nos tipos de HPV considerados de alto risco e na persistência da infecção ao longo do tempo. É justamente esse cenário que os exames de rotina conseguem identificar antes que evolua para uma lesão mais grave.
O que os dados do INCA mostram sobre a urgência do tema
As projeções reforçam a gravidade da situação. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer, o Brasil deve registrar mais de 19 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano entre 2026 e 2028, um crescimento de cerca de 14% em relação ao período de 2023 a 2025.
A doença segue entre as principais causas de morte por câncer entre mulheres no país. Atualmente, cerca de 20 mulheres morrem por dia em decorrência do câncer de colo do útero no Brasil. É o tipo de câncer que mais mata mulheres com até 35 anos e o segundo mais letal entre aquelas com até 60 anos. Em praticamente 99% dos casos, a doença está associada à infecção pelo HPV.
O impacto ultrapassa a estatística médica. Quase um milhão de crianças no país ficaram órfãs por mães que morreram de câncer, e 20% desses casos têm relação direta com o câncer de colo do útero. A doença também compromete a fertilidade de muitas pacientes, já que o tratamento de tumores mais avançados pode inviabilizar uma futura gravidez.
Quais exames previnem o câncer causado pelo HPV
Existem diferentes exames voltados à prevenção do câncer de colo do útero, cada um com uma função específica dentro do rastreamento.
O Papanicolau detecta alterações nas células do colo do útero que possam indicar lesões precursoras da doença. A coleta é feita com o auxílio de um espéculo, e o material é enviado para análise laboratorial. O exame é recomendado a partir do início da vida sexual, é rápido e não deve ser feito durante o período menstrual.
O teste de DNA-HPV vem ganhando espaço como método primário de rastreamento e tem começado a substituir o Papanicolau em parte dos protocolos. Em vez de identificar alterações celulares, ele detecta diretamente o material genético dos tipos de HPV de alto risco, responsáveis por praticamente todos os casos de câncer de colo do útero. Isso permite identificar a infecção antes mesmo do surgimento de qualquer lesão. No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda esse teste para mulheres de 25 a 64 anos, a cada cinco anos, desde que o resultado seja negativo e não existam fatores de risco que exijam acompanhamento mais próximo.
A colposcopia é indicada quando o Papanicolau aponta alguma alteração. O exame utiliza um aparelho chamado colposcópio para observar o colo do útero, a vagina e a vulva com mais detalhes, localizando a lesão sugerida no exame anterior. Substâncias químicas são aplicadas para tornar a região mais visível, e o médico pode retirar uma amostra de tecido para biópsia quando necessário.
A vulvoscopia segue lógica semelhante, mas concentra a avaliação na vulva. É indicada para mulheres com sintomas na região genital externa ou alterações identificadas em exames de rotina, podendo também envolver biópsia quando há suspeita de lesão.
Quem pode e deve se vacinar contra o HPV
A vacinação contra o HPV não se limita à infância e à adolescência. No Sistema Único de Saúde, o imunizante está disponível para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de pessoas de 15 a 45 anos que vivem com condições que comprometem a imunidade, como HIV, transplante ou tratamento oncológico, conforme os critérios definidos pelo Ministério da Saúde.
Na rede privada, a vacina nonavalente, que protege contra nove tipos do vírus, está disponível para homens e mulheres de 9 a 45 anos. Essa ampliação é fundamental, já que o HPV está relacionado não apenas ao câncer de colo do útero, mas também a tumores de vagina, vulva, ânus, orofaringe e pênis.
Ampliar o acesso à informação sobre a vacina e reduzir o estigma em torno do vírus são passos essenciais para reverter os números apontados pela pesquisa. A prevenção do câncer de colo do útero depende diretamente da combinação entre vacinação, exames de rotina e diagnóstico precoce, um caminho que ainda precisa avançar entre as mulheres brasileiras.

Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por animais. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, à proteção animal e comanda sua própria loja (MF Feminina). No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets e dicas de beleza.






