Papo mãe
Ômega-3 na gestação pode fazer mal em excesso: pesquisa da UFPR revela limite seguro e riscos para mãe e bebê

O ômega-3 ganhou fama de aliado indispensável para quem está grávida. Médicos recomendam, farmácias vendem cápsulas em prateleiras inteiras, e boa parte das gestantes passou a consumir o suplemento como parte da rotina pré-natal, confiando que mais proteção para o bebê significa mais quantidade do nutriente. Essa lógica, porém, tem um limite claro, e ultrapassá-lo pode custar caro para a saúde da mãe e deixar marcas duradouras no desenvolvimento do filho.
Uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) colocou essa crença à prova. O estudo, conduzido em ratas da linhagem Wistar, testou diferentes doses de ômega-3 durante a gestação e identificou o momento exato em que o suplemento deixa de proteger e passa a prejudicar. O resultado é desconfortável para quem acredita que suplementação é sempre sinônimo de segurança: o excesso provoca alterações metabólicas na mãe e compromete o desenvolvimento dos filhotes a longo prazo.
O ômega-3 funciona, mas tem limite
O ômega-3 é uma gordura essencial para o organismo. Ele participa da formação do cérebro e da retina do feto, regula processos inflamatórios e contribui para a saúde cardiovascular. O corpo humano não produz sozinho os dois principais componentes dessa gordura, o EPA e o DHA, por isso a alimentação e a suplementação entram em cena para suprir essa demanda.
O problema começa quando a dose ultrapassa a necessidade real do organismo. Pesquisas anteriores já indicavam que valores acima de 3 gramas por dia de EPA e DHA exigem acompanhamento médico, já que o risco de efeitos adversos cresce a partir desse ponto. Quando a suplementação passa de 4 a 6 gramas diárias, os ganhos cardiovasculares param de evoluir e podem até se inverter.
Falta, porém, um consenso técnico sobre o limite seguro para uso na gestação. Diferente de nutrientes como ferro, zinco e algumas vitaminas, que possuem valores de referência bem estabelecidos, o ômega-3 ainda carece de normas rígidas sobre dose máxima. A regulamentação em torno do suplemento é fragmentada e varia conforme a agência sanitária de cada país.
A Organização Mundial da Saúde foca na proporção entre os tipos de gordura, recomendando um equilíbrio de 4 partes de ômega-6 para 1 parte de ômega-3. No Brasil, essa relação costuma ultrapassar 15 para 1, resultado do consumo elevado de óleos vegetais e alimentos ultraprocessados no dia a dia da população.
O que a pesquisa da UFPR descobriu sobre as doses
O estudo foi dividido em três etapas. A primeira testou diferentes quantidades de ômega-3 e ômega-6 para identificar o ponto de virada entre benefício e dano. Na segunda, os cientistas avaliaram o impacto de uma dose considerada insegura sobre a saúde das mães durante a gestação. Na terceira, acompanharam os filhotes do nascimento até a fase adulta para mapear consequências de longo prazo.
Os animais receberam os óleos por via oral, em dose única diária, calculada de acordo com o peso de cada um. As doses de 1 e 2 gramas por quilo mantiveram os efeitos protetores esperados. A partir de 3 e 4 gramas por quilo, o quadro mudou. As mães desenvolveram aumento de gordura abdominal e maior circunferência de cintura, mesmo sem ganho de peso corporal total.
Na dose de 4 gramas por quilo, o ômega-3 passou a induzir e agravar sinais de síndrome metabólica nas mães. A suplementação excessiva também gerou resistência à insulina, alterações nos níveis de glicemia e aumento da atividade dos macrófagos, células do sistema imunológico que, quando ficam ativadas por tempo prolongado, sustentam processos inflamatórios no corpo.
Os efeitos chegam até a placenta e ao bebê
O excesso de gordura circulante desequilibrou o ambiente dentro do útero e da placenta, elevando a produção de moléculas associadas a dano celular. A placenta reagiu alterando seu próprio funcionamento, mudando a forma como nutrientes essenciais, como açúcar e gorduras, chegavam da mãe ao feto.
Esse desequilíbrio atravessou o nascimento. Os filhotes de mães que receberam doses excessivas de ômega-3 tiveram maior mortalidade nos primeiros dias de vida. Eles também demoraram mais para desenvolver reflexos e movimentos esperados para a idade, apresentaram alterações na estrutura muscular e, apesar de nascerem menores que o esperado, acumularam mais gordura corporal ao longo do desenvolvimento.
Esses achados conversam diretamente com o campo do DOHaD, sigla para Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença. Essa área de pesquisa investiga como as condições vividas durante a gestação e os primeiros anos de vida moldam a saúde de uma pessoa para o resto da existência. O estudo da UFPR reforça que o ambiente intrauterino grava consequências duradouras no corpo do filho, muito além do período de gravidez.
Resultados em ratos exigem confirmação em humanos
Resultados obtidos em animais indicam caminhos relevantes para a ciência, mas exigem confirmação em estudos clínicos antes de qualquer aplicação prática em gestantes. A fisiologia de ratas e mulheres tem diferenças importantes, e a interação entre diferentes tipos de gordura com o estado metabólico individual de cada gestante soma complexidade ao tema.
O que o estudo deixa claro é que suplementação, de ômega-3 ou de qualquer outro nutriente, exige critério. A faixa entre benefício e dano é estreita, e ultrapassá-la tem consequências mensuráveis tanto para a mãe quanto para o bebê.
A ciência precisa de tempo, e a gestante precisa de orientação
A pesquisa escancara um problema maior: a ausência de parâmetros claros sobre consumo seguro de suplementos alimentares durante a gravidez. Entre 2012 e 2015, uma onda de desinformação ganhou força na Europa e nos Estados Unidos, impulsionada por discursos que incentivavam uso indiscriminado de suplementos sem orientação profissional. Esse tipo de narrativa segue circulando e exige combate direto com informação de qualidade.
Fortalecer institutos de pesquisa e universidades públicas é o caminho para produzir esse tipo de dado com rigor. A construção de conhecimento científico avança em etapas lentas, construídas ao longo de anos de teste e revisão. O caminho mais seguro, até que existam diretrizes consolidadas para humanos, segue sendo conversar com o médico responsável pelo pré-natal antes de iniciar, manter ou aumentar qualquer suplementação.
Informações: Livia Inacio, ciencia.ufpr.br

Suzana é mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por animais. Formada em Administração e Pedagogia, leciona e dedica parte de sua rotina à proteção animal, além de comandar sua própria loja, a MF Feminina. No Ellas Magazine, assina os conteúdos sobre moda, beleza, comportamento, maternidade, pets e os mais variados temas do universo feminino.






