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Beleza

A bióloga que estudou algas marinhas no laboratório e criou uma marca de cosméticos que já faturou R$ 1 milhão

Vanessa Geraldes é doutora pela USP, fundou a Khor Cosmetics com R$ 90 mil do próprio bolso e transformou bioativos de algas marinhas em cosméticos orgânicos premiados internacionalmente. A história vale cada detalhe.

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biologa bioativos - A bióloga que estudou algas marinhas no laboratório e criou uma marca de cosméticos que já faturou R$ 1 milhão

Enquanto a maioria das marcas de beleza copia fórmula de fornecedor e cola um nome bonito na embalagem, a bióloga marinha portuguesa Vanessa Geraldes foi para o lado oposto. Ela passou anos cultivando algas em laboratório antes de concluir que aquela biomassa podia fazer muito mais do que sequestrar carbono de chaminés industriais.

Podia, na verdade, cuidar da pele. Assim nasceu a Khor Cosmetics, marca paulistana de cosméticos orgânicos e naturais com bioativos marinhos que hoje fatura R$ 1,2 milhão por ano e acumula prêmios internacionais de clean beauty.

O nome que já conta tudo

Khor vem da geografia árabe e significa “rio sazonal”. A escolha não é aleatória: representa um fluxo que acompanha os ciclos da natureza, se transforma com o tempo e sempre retorna com mais força. A identidade da marca carrega exatamente essa filosofia de beleza limpa, cíclica e conectada ao que o planeta oferece.

Vanessa, hoje com 43 anos, é doutora em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de São Paulo (USP). Antes de vir ao Brasil em 2015 para iniciar seu doutorado, ela trabalhou em Portugal em uma empresa de biotecnologia voltada para o sequestro de carbono por meio do cultivo de algas em laboratório. “Usávamos a fotossíntese das algas para fixar os gases emitidos pelas chaminés de indústrias poluentes, como cimenteiras e petrolíferas”, contou a cientista.

Ao mergulhar no doutorado brasileiro, Vanessa começou a investigar o aproveitamento cosmético dessa mesma biomassa e conseguiu isolar compostos com potente efeito fotoprotetor natural. A ciência e o empreendedorismo se encontraram ali. A frustração por não encontrar opções seguras no mercado nacional fez o resto.

R$ 90 mil do próprio bolso para começar pelo produto mais difícil

Em 2018, Vanessa fundou a Khor Cosmetics em São Paulo com R$ 90 mil investidos do próprio bolso. A proposta inicial foi audaciosa: lançar um protetor solar brasileiro com certificação orgânica pelo IBD (Instituto Biodinâmico), que garante matérias-primas livres de agrotóxicos. Começar pelo produto mais complexo do portfólio foi uma decisão deliberada.

“Se a gente quer fazer algo diferenciado, precisamos usar o conhecimento adquirido na pesquisa e já avançar no mais difícil. Acho mais fácil fazer isso quando ainda não existe nada do que tentar travar a roda para desenvolver um produto desses com a empresa já girando”, explicou a fundadora.

O Protetor Solar FPS 30 levou quase três anos para chegar ao mercado, sendo lançado apenas em 2021. O processo exigiu conformidade com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para produtos de Grau 2, atendimento rigoroso às exigências do IBD e resistência aos impactos da pandemia de Covid-19. Durante todo esse período, Vanessa gerenciou o fluxo de caixa pessoal com uma bolsa de pós-doutorado da Fapesp. O investimento inicial se pagou em apenas um ano e meio após o início das vendas.

Como os bioativos do mar funcionam na pele

Aqui está o coração técnico da Khor. Cada produto da linha usa extratos de algas marinhas adaptados à função específica daquele item. “No sérum firmador, usamos um extrato que dá elasticidade para a alga resistir às correntes marinhas. Trouxemos essa propriedade para atuar na regeneração de rugas e linhas finas”, explicou Vanessa.

O protetor facial foi além: entrega proteção de amplo espectro contra radiações UVB, UVA, luz visível, incluindo luz azul, e radiação infravermelha, responsável pela degradação do colágeno. Essa amplitude de proteção ainda é rara no mercado nacional, especialmente em produtos com certificação clean beauty e fórmulas desenvolvidas de forma autoral.

Hoje, o portfólio conta com cerca de 25 produtos. Os preços vão do mini protetor de 5g por R$ 12 até a versão de 140g por R$ 220. A linha inclui protetores FPS 15 e FPS 30, versões com cor e em bastão, spray capilar, hidratantes, pós-sol e uma linha sólida com xampu e condicionador. O lançamento mais recente é o Desodorante Natural Nuvem Floral Khor By Jaci, com foco em ativos da biodiversidade brasileira.

Os prêmios que colocaram a Khor no mapa internacional

Em 2025, a Khor Cosmetics conquistou dois prêmios no Clean Beauty Awards, realizado durante a Bio Brazil Fair em São Paulo: “Melhor Produto do Ano” e “Melhor Produto de Mercado”. Reconhecimento técnico desse nível, num setor dominado por grandes grupos cosméticos internacionais, diz muito sobre o que a marca construiu ao longo de sete anos.

Em 2026, a Khor está entre as finalistas novamente, dessa vez na categoria “Impacto Social e Biodiversidade Brasileira”, com o desodorante natural. A trajetória de premiação consecutiva confirma que o rigor científico aplicado às fórmulas tem visibilidade real fora da bolha.

Sustentabilidade que vai além do rótulo

A sustentabilidade da Khor não é pauta de marketing. A marca possui certificação B Corp e o selo de Carbono Neutro. As embalagens seguem o conceito minimalista: a maioria dos frascos é feita de plástico 100% reutilizado, a linha sólida é plastic-free com papel certificado FSC e os protetores dispensam caixas secundárias de papelão.

O compromisso social aparece com a mesma força. Em dezembro de 2025, a marca firmou parceria com o A.C. Camargo Cancer Center, distribuindo versões de 5g do protetor para pacientes em acompanhamento de câncer de pele. O produto acabou incorporado de forma permanente ao site para novos clientes testarem antes de comprar, democratizando o acesso a quem mais precisa de fotoproteção de qualidade.

Os números de uma operação que cresce com consistência

A Khor Cosmetics registra uma média de 500 pedidos mensais, com tíquete médio de R$ 250. O e-commerce direto responde por 65% do faturamento. O restante vem de marketplaces, incluindo a Amazon, que passou a comprar diretamente da marca após a premiação no Clean Beauty Awards, e de pontos físicos como a perfumaria Soneda e lojas de produtos naturais.

O Instagram saltou de 3 mil para mais de 50 mil seguidores, impulsionado pelo alcance orgânico gerado por influenciadores durante a pandemia. Vanessa reconhece que o maior desafio na transição da bancada do laboratório para a cadeira de CEO tem sido o marketing, num mercado onde muitas marcas aceleram lançamentos com fórmulas prontas de terceiros. A Khor mantém o desenvolvimento terceirizado, porém com fórmulas 100% exclusivas e autorais. O processo é mais demorado e rigoroso. É também o que diferencia a marca de tudo o que existe no mercado nacional de cosméticos orgânicos.

O que vem por aí

Para os próximos meses, a Khor planeja lançar duas novidades na área de fotoproteção. O mercado europeu atrai Vanessa pela afinidade com a origem portuguesa, porém o foco estratégico permanece total na consolidação da operação brasileira. O plano para os próximos cinco anos é claro: sair do nicho sustentável e democratizar o acesso, levando a marca para públicos cada vez mais diversos.

Fonte: revistapegn

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