Comportamento
Elas existem, pesquisam e resistem — mas a ciência brasileira ainda faz questão de ignorá-las
O “Podcast 2,5%” transforma invisibilidade em pauta e apresenta as trajetórias de mulheres negras que chegaram onde o sistema nunca esperou que chegassem

Você para um segundo e deixa esse dado pousar. Apenas 2,5%. Num país onde mais da metade da população se declara preta ou parda, as mulheres negras e indígenas somam uma fatia irrisória do campo científico brasileiro. Não é acaso. É estrutura. É história. E é exatamente por isso que o Podcast 2,5%, lançado pelo Observatório Mulheres UFSCar, chega com uma proposta que vai muito além de dar visibilidade: a iniciativa registra trajetórias, preserva memória e, na prática, recusa o apagamento.
O levantamento que dá nome ao projeto foi publicado em 2023 pelo Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (Gemaa/IESP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). O dado é recente, verificável e profundamente desconfortável. Mas é justamente desse desconforto que nasce a potência do podcast.
Quando a ciência encontra a ancestralidade
O formato da série é uma escolha narrativa muito inteligente. São quatro episódios, cada um conduzido por Gleidylucy Oliveira e Virgínia Custódia, que reúnem uma pesquisadora experiente e uma estudante numa conversa que atravessa gerações. A proposta não é só contar o que essas mulheres fazem dentro da academia. É entender como chegaram lá, o que carregam consigo e de que forma suas ancestralidades atravessam suas escolhas científicas.
Isso muda tudo. Porque a representatividade feminina negra na ciência não é só uma questão de número de vagas. É sobre quais perguntas são feitas, quais problemas são considerados urgentes, quais comunidades se sentem enxergadas nas pesquisas produzidas. Quando uma mulher negra chega à academia, ela não entra sozinha: ela leva consigo uma visão de mundo que, por décadas, foi sistematicamente excluída do debate científico.
O episódio de estreia: duas histórias que chegam de longe
O primeiro episódio, intitulado “Encontro de Gerações: A luta de quem abre caminhos e de quem segue a trilha”, reúne dois perfis que, à primeira vista, parecem pertencer a mundos distintos. Mas que, ao se encontrarem, revelam continuidades impressionantes.
De um lado, a professora Vera Lúcia Damasceno Tomazella, única Professora Titular negra do Departamento de Estatística da UFSCar, com uma trajetória que começa na zona rural do Maranhão e chega a um pós-doutorado na Europa. Não existe outra forma de descrever isso que não seja: extraordinário. Do outro lado, Ester Fernandes, estudante de Linguística, moradora da periferia de São Carlos, a primeira de sua família a entrar no Ensino Superior.
A professora Tomazella não poupa palavras sobre o que significa existir nesse espaço. “A gente começa a lutar desde a hora que entra na universidade”, afirma ela no episódio, com uma clareza que dispensa qualquer análise adicional. A frase vale como retrato de uma geração inteira.
Por que esse podcast importa agora
A pesquisadora Djamila Ribeiro, filósofa e ativista do pensamento feminista negro no Brasil, já defendeu em sua obra que ocupar espaços é, em si, um ato político. O podcast 2,5% opera exatamente nessa lógica: ao colocar essas vozes em circulação, o Observatório Mulheres UFSCar transforma visibilidade em ferramenta de resistência. Não é conteúdo de nicho. É registro histórico.
A professora Nilma Lino Gomes, educadora, ex-ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e referência nos estudos sobre relações raciais na educação, sempre defendeu que a presença negra nas universidades precisa ser acompanhada de mudanças nas estruturas institucionais. Sem isso, o acesso se torna solitário e extenuante. É justamente o que Tomazella descreve, e o que Ester Fernandes começa a viver.
O que vem por aí
A série conta com mais três episódios, todos seguindo o mesmo modelo de diálogo intergeracional. A estrutura reforça algo que a diversidade racial na academia raramente consegue mostrar com tanta clareza: não se trata de histórias isoladas de superação individual. São trajetórias que se conectam, que se reconhecem, que se apoiam.
O episódio de estreia foi gravado em 2024 e publicado em 15 de abril de 2026. Já está disponível no Spotify. Os próximos episódios e mais informações sobre o projeto podem ser acompanhados pelo site do Observatório Mulheres UFSCar e pelo perfil oficial no Instagram.
Enquanto o número for 2,5%, haverá histórias urgentes para contar. E um podcast que escolheu exatamente esse dado como nome tem consciência muito clara do que está fazendo. Vale ouvir. Vale compartilhar. E vale perguntar, depois de cada episódio: quantas outras Veras e Esters o sistema ainda não deixou chegar até aqui?

Social Midia e crítica de cultura pop, Renata domina o mundo das fofocas e novelas como ninguém. Com uma trajetória em grandes portais de entretenimento, ela traz uma visão divertida e crítica sobre os bastidores do universo das celebridades e das tramas de novelas. Renata é conhecida pelo seu tom bem-humorado e envolvente, que leva os leitores a se sentirem parte dos acontecimentos, discutindo os detalhes de suas novelas favoritas e compartilhando curiosidades imperdíveis das estrelas.


