Comparativo
A virada que ninguém esperava: brasileiros estão voltando a preferir carros a combustão, e os números provam

Havia uma narrativa muito bem construída nos últimos anos: o futuro era elétrico, o consumidor estava mudando de mentalidade e a combustão tinha prazo de validade. Então vieram os números de uma das maiores pesquisas do setor automotivo global, e essa narrativa precisou ser revisada. Com urgência.
O Índice de Mobilidade do Consumidor, estudo conduzido pela consultoria EY para mapear as tendências de compra no mercado automotivo, trouxe um dado que vai dar o que falar: a preferência por veículos a combustão no Brasil saltou de 35% para 49% em relação à edição anterior da pesquisa. Quase metade dos consumidores brasileiros, quando perguntados sobre sua próxima compra, aponta para um carro com motor a gasolina ou etanol.
O dado contrasta diretamente com o que acontece do lado elétrico. A preferência pelos carros totalmente elétricos permaneceu estagnada em apenas 9% das intenções de compra. Um número que não cresce, não avança e não anima os entusiastas da eletrificação.
O recuo dos eletrificados vai além dos elétricos puros
Quando o olhar se amplia para incluir todo o espectro de veículos com algum grau de eletrificação, como híbridos plug-in e híbridos convencionais, o cenário piora ainda mais. Segundo a EY, a preferência por esse grupo recuou 17 pontos percentuais em 2025 na comparação com o levantamento anterior, chegando a 40% das intenções.
Dentro desse grupo, os carros híbridos foram a única tecnologia que avançou, ainda que discretamente. A preferência por híbridos subiu um ponto percentual, alcançando 18% das intenções de compra. Um crescimento modesto, mas que indica que a transição gradual ainda tem alguma tração entre os consumidores brasileiros.
A infraestrutura de recarga segue sendo o principal obstáculo
A pesquisa foi fundo nos motivos pelo quais os brasileiros resistem aos veículos elétricos, e a resposta mais recorrente não tem nada a ver com preferência estética ou desempenho. O problema é prático, concreto e de difícil resolução no curto prazo: a infraestrutura de carregamento.
Entre os consumidores que afirmam não ter intenção de comprar um elétrico, 36% apontam a ausência de estrutura para recarga em casa ou no trabalho como principal barreira. Outros 33% citam a escassez de estações públicas de recarga pelo país. A soma dos dois grupos revela que mais de um terço dos consumidores está simplesmente impossibilitado de adotar essa tecnologia no estilo de vida que leva.
A lista de preocupações segue. A substituição de baterias aparece como obstáculo para 28% dos entrevistados, empatada com o preço de aquisição dos modelos elétricos. Outros 21% acreditam que os custos de manutenção podem surpreender negativamente, e 17% demonstram preocupação com a autonomia dos veículos elétricos e os gastos relacionados ao carregamento em estradas.
Tensões globais também empurram consumidores para o adiamento
A conjuntura internacional também pesou na decisão de compra dos brasileiros. Segundo a EY, 39% dos entrevistados afirmaram estar adiando ou repensando a compra de um carro elétrico por causa de gargalos logísticos e tarifas vinculadas às tensões geopolíticas globais. O cenário de incertezas econômicas, somado à instabilidade nas cadeias de suprimentos, cria um ambiente pouco favorável para decisões de compra de alto valor e tecnologia nova.
Ainda assim, 46% dos consumidores disseram que seus planos de compra permanecem inalterados. E 11% foram mais diretos: desistiram completamente da ideia de adquirir um elétrico.
O que ainda motiva quem pensa nos elétricos
Apesar do cenário adverso, existem fatores que sustentam o interesse por essa tecnologia entre uma parcela dos consumidores. O aumento no preço dos combustíveis aparece como principal razão para considerar um elétrico, citado por 38% dos entrevistados. A preocupação ambiental empata nesse mesmo percentual.
Na sequência surgem argumentos como maior autonomia dos veículos (30%), menor custo total de propriedade ao longo do tempo (29%), desempenho superior em relação aos modelos convencionais (28%), facilidade de manutenção (25%) e ampliação da oferta de modelos disponíveis no mercado brasileiro (16%).
Há, porém, um sinal que merece atenção. A preocupação ambiental vem perdendo força como motivador de compra ao longo dos anos. Segundo o estudo da EY, esse argumento era citado por 46,5% dos consumidores em edições anteriores. Agora aparece em 38,3% das respostas. A queda é consistente e revela que o apelo ecológico, sozinho, já não é suficiente para convencer o brasileiro médio a migrar para a tecnologia elétrica.
Eletrificação vai avançar, mas em etapas
A leitura da EY para esse cenário é de que a transição para a mobilidade elétrica no Brasil será mais lenta e mais seletiva do que muitos projetavam. A eletrificação deverá avançar primeiro nos segmentos onde o custo operacional faz diferença financeira real e imediata: frotas corporativas, logística urbana, transporte coletivo, operações de mineração, aeroportos e veículos de alta utilização diária.
Para o consumidor pessoa física, a mudança depende de uma equação que ainda não fecha: preço de aquisição mais acessível, rede de recarga capilarizada e confiável, e baterias com vida útil longa o suficiente para justificar o investimento. Enquanto esses três elementos não se alinharem, a combustão segue como a escolha dominante da maioria dos brasileiros. Os dados da pesquisa confirmam: pelo menos no curto prazo, essa preferência não tem sinal de recuo.


