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Grávidas, escravizadas e invisíveis: o livro que devolve nome e história às mulheres do Rio Imperial
O Rio de Janeiro do século 19 foi a maior cidade escravista do mundo. Mas o que sabemos sobre as mulheres que carregaram esse sistema nas costas, literalmente?

Há histórias que o tempo tenta apagar. O Rio de Janeiro imperial foi a maior cidade escravista do mundo no século 19 — e, por décadas, as mulheres que sustentaram esse sistema com seu corpo, seu trabalho e sua maternidade permaneceram sem nome nos livros de história. Um livro brasileiro, agora traduzido para o inglês e publicado pela conceituada University of Georgia Press, começa a mudar isso.
A obra é da historiadora Lorena Féres da Silva Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e se chama Teresa Benguela and Felipa Crioula Were Pregnant: Motherhood and Slavery in Nineteenth-Century Rio de Janeiro. O título, direto e humano, já diz muito sobre a proposta: colocar rostos e nomes em mulheres que os documentos oficiais preferiram reduzir a números.
O Rio que os livros didáticos não mostraram
Em 1822, metade dos 110 mil habitantes do Rio de Janeiro era escravizada. O Cais do Valongo, na zona portuária da cidade, recebeu sozinho cerca de 1 milhão de africanos ao longo do período do tráfico, tornando-se o maior porto de desembarque de pessoas escravizadas nas Américas. Viajantes estrangeiros da década de 1840 descreviam o Rio como uma “cidade africana”, tamanha era a presença negra nas ruas, mercados e portos.
Nesse cenário, as mulheres escravizadas ocupavam um papel central. Eram lavadeiras, quitandeiras, amas de leite, cozinheiras, comerciantes, trabalhadoras domésticas. Circulavam pela cidade, geravam renda para seus senhores e, ao mesmo tempo, tentavam manter laços familiares constantemente ameaçados pelo sistema que as prendia.
Maternidade como resistência — e como dor
A pesquisa de Lorena Telles mergulhou em um universo documental imenso: anúncios de compra e venda de mulheres grávidas, registros de batismo, processos criminais, relatos clínicos, teses de medicina, pinturas e fotografias. O objetivo era reconstruir algo que raramente aparece nas fontes oitocentistas: a experiência da gravidez, do parto, da amamentação e da criação dos filhos dentro do sistema escravista.
O que ela encontrou foi brutal. Mulheres trabalhavam até os últimos dias de gestação e retornavam ao trabalho poucos dias após o parto, muitas vezes com apenas três dias de resguardo. Amas de leite que alimentavam os filhos das senhoras brancas frequentemente não podiam amamentar os próprios bebês, que morriam no primeiro ano de vida por nutrição inadequada. Anúncios de jornal vendiam mucamas grávidas e meninas de 11 ou 12 anos com bebês de colo — evidência direta de abuso sexual sistemático.
A mortalidade infantil era altíssima, frequentemente associada ao tétano neonatal, chamado popularmente de “mal de sete dias”. Mulheres alugadas por seus senhores eram forçadas a se separar dos filhos, que acabavam na “roda dos expostos” — dispositivo instalado nos muros das Santas Casas que recebia recém-nascidos abandonados sem identificar quem os deixava.
As parteiras que os médicos desprezavam — e que sabiam mais
Um dos capítulos mais reveladores do livro trata das parteiras negras africanas. Os médicos do século 19 as atacavam duramente, descrevendo suas práticas como bárbaras e supersticiosas. Só que, justamente nessas críticas, Lorena Telles encontrou registros preciosos do que essas mulheres sabiam fazer.
Elas orientavam partos em posições que a medicina acadêmica condenava — acocoradas, caminhando, apoiadas em outras mulheres. Sabiam virar fetos mal posicionados. Conheciam manobras e massagens para facilitar o trabalho de parto. Construíam redes de apoio feminino, chamando parentes e amigas da comunidade. Rezas e práticas espirituais compunham esse cuidado de forma integrada, dentro de uma cosmovisão onde saúde, relações sociais e espiritualidade não se separavam.
Enquanto isso, as faculdades de medicina brasileiras, criadas formalmente em 1832 no Rio de Janeiro e em Salvador, usavam corpos de mulheres escravizadas internadas nas Santas Casas como campo de experimentação para fórceps e cirurgias ginecológicas. Uma das primeiras cesarianas registradas no Brasil, realizada em uma mulher escravizada na década de 1850, terminou em morte por septicemia.
Teresa, Rosária, Felipa — mulheres com nome e história
O coração do livro está nas trajetórias individuais. Teresa Benguela, Rosária Cassange, Felipa Crioula, Marcelina, Geralda, Ângela Maria — a pesquisa devolveu protagonismo histórico a essas mulheres. Algumas fugiram grávidas. Outras sofreram separações familiares violentas. Há casos de infanticídio e tentativas de suicídio em situações de desespero absoluto.
Os registros de batismo revelaram redes de comadrio e solidariedade: madrinhas, padrinhos e parentes formavam estruturas fundamentais de apoio afetivo e material. Parteiras se tornavam madrinhas das crianças que ajudavam a trazer ao mundo. Lavadeiras e quitandeiras acolhiam fugitivas e protegiam mães vulneráveis. A comunidade afrodescendente criava, dentro das brechas do sistema, formas de resistência e cuidado coletivo.
Da USP para o mundo
A pesquisa que deu origem ao livro nasceu como tese de doutorado na USP, orientada por Maria Helena Machado, e foi aprofundada em pós-doutorado na Unicamp, com financiamento da FAPESP. Reconhecida como a melhor tese em História Social do Departamento de História da USP, o trabalho foi premiado pela Latin American Studies Association (Lasa) e pela Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu).
A publicação em inglês pela University of Georgia Press insere a pesquisa em um debate internacional sobre gênero, maternidade e escravidão nas Américas, dialogando com estudos sobre Estados Unidos, Caribe, Jamaica e Cuba. O Brasil recebeu cerca de 5 milhões de africanos escravizados, aproximadamente 40% de todo o tráfico atlântico. Essa dimensão, tantas vezes citada em números frios, ganha em Teresa Benguela and Felipa Crioula Were Pregnant o que os números nunca tiveram: humanidade.
A obra está disponível para compra no site da editora, em https://www.ugapress.org/9780820375687/teresa-benguela-and-felipa-crioula-were-pregnant/
Fonte: José Tadeu Arantes | Agência FAPESP
Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
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