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Janeiro Branco: a solidão da mulher madura — invisibilidade ou oportunidade?

Como falar sobre a trajetória de uma mulher, sem mencionar a solidão? Como tratar de um assunto tão delicado como o envelhecer feminino sem tocar no tal sentimento de vazio e de incompletude? Não há como. Desde muito cedo as mulheres estão fadadas a esse enfrentamento inevitável, mesmo que não se deem conta disso.
Neste início do ano, a campanha Janeiro Branco, que coloca a saúde mental no centro das prioridades, nos convida a refletir sobre essa solidão — muitas vezes silenciosa — que acompanha tantas mulheres maduras em sua jornada.
O peso das escolhas e a culpa silenciosa
A cada escolha, uma renúncia. A cada renúncia, uma perda e, com ela, a culpa de braços dados com a solidão. Isso se repetirá em inúmeros momentos na vida de uma mulher. Não se trata de uma solidão por falta de gente ao redor, por vezes ela bate quando estamos em meio à torcida do Flamengo achando que nossa vida é perfeita.
O tal vazio a que me refiro não é o sentimento de abandono por se estar de fato só, é pelo sentir-se só, solta, diferente e talvez inadequada. É algo sentido, não explicado e racionalizado.
Envelhecer e tornar-se invisível aos olhos da sociedade
No processo de envelhecimento feminino, muitas mudanças vão acontecendo. A forma que uma mulher se enxerga e é enxergada muda, se é que ela é vista, já que para os padrões da sociedade, agora ela é velha. Essa invisibilidade, que vem junto com o envelhecer, não recai somente nas mulheres, mas aparece para elas em uma fase em que estão bem sensíveis. Aos olhos externos, de um modo geral, o que é velho é inútil e, portanto, sem função. São duras constatações, nem sempre reais, mas que passam pela cabeça da mulher madura.
A menopausa e a crise da identidade feminina
Ela começa a não se encaixar em um modelo de beleza e juventude que descarta o velho, o ultrapassado. E isso dói. Nem todas passarão e sentirão a mesma coisa, é claro, mas em algum momento algum questionamento chegará, principalmente quando a mulher se depara com a vertiginosa queda de seus hormônios, a tão temida menopausa.
Parece que tudo mudou. E mudou. O seu corpo não é mais o mesmo e ela não se reconhece mais no espelho e tampouco sabe onde foi parar a sua libido junto com suas unhas e cabelos enfraquecidos. Os seus filhos, se os tiver, saíram de casa e ela não sabe se encaixar e ocupar o espaço do seu lar que agora ficou grande. Talvez esteja à beira de se aposentar e não saiba o que fazer com o tanto de tempo livre que lhe resta, já que não se acostumou a isso porque sempre teve uma rotina repleta de afazeres voltados aos outros. Quem sabe, tamanha a turbulência emocional que essa fase traz, comece a questionar a sua vida e seus relacionamentos afetivos? Sim, tudo brota de forma exacerbada e ela, a solidão, também está ali presente.
A maternidade e o reencontro com a mulher esquecida
Um spot só para falar das que são mães. Esse assunto daria um livro tamanha a sua complexidade. Quando nasce um filho, nasce uma mãe. À mulher acopla-se esse título e uma série de atribuições, assim como uma nova rotina. Lembram das escolhas, que consigo trazem renúncias? Pois é, na maternidade não é diferente. Apesar de ser um momento sublime, carregado de amor e de realização pessoal, ele demanda abnegação e devotamento. É uma escolha de entrega ao outro. E quando os filhos saem de casa, quem é essa mãe que fica sem sua cria para lamber? Onde ficou aquela mulher que quando mais jovem se tornou mãe? Onde foi parar a mulher que se acostumou a ser chamada de mãe? Do que ela gostava? O que a fazia se sentir realizada? Como resgatá-la agora depois de tanto tempo?
Aceitação, compaixão e o pedido de ajuda
Entre os tantos questionamentos, medos e inseguranças, o que fazer? Aceitar essa fase é um bom começo. Olhar para si com compaixão também é um ótimo primeiro passo, mas, primordialmente, talvez buscar ajuda seja a saída. Compartilhar dores é uma forma de aliviar o peso. Ter amigos com quem contar também ajuda muito.
No entanto, é necessário cuidar da saúde mental, ter algum profissional que acolha essa mulher cheia de indagações que muitas vezes se vê só, perdida e carente de escuta. Pode-se passar essa fase sem pedir ajuda? Sim, mas será mais dolorido, mais desgastante e quem sabe até, ineficaz. Ninguém quer ficar mal, isolado e desencontrado se si. Procurar ajuda é para os fortes, para quem não tem medo de se expor e de assumir seu lado vulnerável.
Solitude: a transmutação da solidão em reencontro
Um trecho do epílogo do meu livro “Amor de Alecrim”, que tem como protagonista Amanda, uma mulher de 50 e alguns anos, cheia de questionamentos que está entrando na menopausa, traz luz à importância do autoconhecimento e do autoamor. É acolhendo a solidão, e o que ela traz, que acontece a magia, a transmutação para a solitude, que é aquele viver bem, sentir-se bem onde quer que se esteja e como se esteja.
“Mergulhe em você mesmo, aceite-se, trabalhe seu autoamor e sua autocompaixão. Todos os dias. Todos os dias. Todos os dias. Sim, repetidamente, permita-se começar e começar e começar novamente. É cansativo? Não vou mentir. Por vezes será, mas valerá a pena. Caia, mas levante-se. Visite seu buraco escuro quando a vida te derrubar, decida o tempo de permanência e como sairá de lá. Levante a cabeça. Olhe para o alto. Há luz. Sente-se se estiver cansada. Descanse, respire e decida como subirá. Vai ser escalando? Vai precisar de uma corda? Vai pedir ajuda? Tudo é válido. Só suba para ver o Sol, seja por suas próprias pernas ou com a ajuda de alguém. Pedir ajuda é para os fortes. Haja o que houver, não desista de você! Nunca! ”
Recomece. Reinvente-se. Não desista de você.
Faça o que puder, cave novas oportunidades, peça ajuda, se descubra uma pessoa melhor e não desista de você, nunca!
Por Ana Paula Couto*

*Ana Paula Couto nasceu em Nova Friburgo (RJ), onde ainda reside. Professora de língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo com “Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Em 2025, lançou “Amor de Alecrim”, continuação da obra, com a personagem aos 50 anos.

Social Midia e crítica de cultura pop, Renata domina o mundo das fofocas e novelas como ninguém. Com uma trajetória em grandes portais de entretenimento, ela traz uma visão divertida e crítica sobre os bastidores do universo das celebridades e das tramas de novelas. Renata é conhecida pelo seu tom bem-humorado e envolvente, que leva os leitores a se sentirem parte dos acontecimentos, discutindo os detalhes de suas novelas favoritas e compartilhando curiosidades imperdíveis das estrelas.



