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Papel reciclado mais resistente? Cânhamo surge como solução técnica e econômica para a indústria
Projeto conduzido pela UFV avalia como fibras longas da planta podem prolongar a vida útil do papel e aumentar a eficiência da reciclagem.
Publicado
6 meses atrásem
Por
Mel Maria
O limite técnico da reciclagem do papel sempre foi conhecido pela indústria. A cada ciclo, a fibra encurta. A resistência cai. E chega um ponto em que o material simplesmente não sustenta mais o uso industrial. Agora, uma pesquisa conduzida pela Unidade Embrapii do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em parceria com a startup Buds INC, indica um caminho diferente: reforçar a polpa reciclada com fibras de cânhamo.
A lógica é simples, mas o impacto pode ser grande porteira para dentro da cadeia produtiva. O papel convencional depende de fibras de celulose que se degradam progressivamente durante o reaproveitamento. Quanto mais reciclagem, menor a integridade estrutural. O resultado aparece no produto final — papéis menos resistentes, menor durabilidade e necessidade constante de inserir matéria-prima virgem no processo.
É justamente nesse gargalo que entra o cânhamo.
A pesquisa avalia a adição controlada das fibras da cannabis à polpa reciclada como forma de recuperar a resistência mecânica perdida ao longo dos ciclos industriais. Os primeiros resultados indicam que o reforço não apenas recompõe as propriedades originais do papel, como, em determinados testes, supera o desempenho do material inicial. O mercado sentiu o potencial.
Segundo o pesquisador e coordenador do projeto, Marcelo Novo, o diferencial está na própria anatomia da planta. “A planta tem fibras de dupla aptidão: fibra longa na casca e fibra curta no lenho da planta. Essas características resultam em um papel reciclado de qualidade superior ao convencional, que usa somente fibras de celulose”, explica.
Na prática, as fibras longas funcionam como uma espécie de “armação natural”, aumentando a coesão estrutural da folha de papel. Já as fibras curtas contribuem para o acabamento e uniformidade da superfície. O equilíbrio entre esses dois componentes cria uma matriz mais resistente — algo que a celulose reciclada isoladamente já não consegue entregar após múltiplos reaproveitamentos.
Além disso, o estudo avança sobre um ponto estratégico para a indústria brasileira. O país está entre os maiores produtores mundiais de papel e papelão reciclado, setor altamente dependente de eficiência logística e redução de custos operacionais. Se o papel reciclado durar mais ciclos produtivos, o ganho econômico aparece rapidamente na conta final.
Menos fibra virgem. Menos pressão sobre florestas plantadas. Mais rendimento industrial.
Marcelo Novo destaca que o projeto já se encontra na fase final de consolidação dos testes mecânicos, avaliando diferentes proporções de cânhamo na composição da polpa. “Além de ganhos técnicos e econômicos, o uso de fibras de cânhamo como reforço representa um avanço importante do ponto de vista da sustentabilidade, ao aumentar a eficiência da reciclagem e reduzir a pressão sobre matérias-primas florestais tradicionais”, afirma.
O movimento também dialoga com uma mudança maior no uso da cannabis industrial no Brasil. Recentemente, novas regras anunciadas pela Anvisa estabeleceram parâmetros mais claros para cultivo e processamento da cannabis medicinal, criando um ambiente regulatório mais previsível para iniciativas produtivas associadas à planta.
E existe um detalhe econômico relevante. A cadeia medicinal utiliza basicamente as flores, enquanto grande parte da biomassa restante costuma ser descartada. Isso representa custo e desperdício. A proposta do projeto é inverter essa lógica.
Segundo o empresário Baesso, parceiro da iniciativa, a ideia é transformar resíduo em ativo industrial. “A regulamentação abrange a indústria, a produção comercial e a produção de associações. Praticamente tudo que eles determinaram a gente já faz: barreira física, controle de acesso, câmeras, rastreabilidade e destinação do produto final”, afirma.
Ele acrescenta que o aproveitamento integral da planta pode mudar a equação econômica do setor. “O projeto garante que, após a colheita da flor, 100% do que sobra da planta, e que antes seria descartado, vire inovação tecnológica e riqueza para o país.”
Se os resultados em escala industrial confirmarem os testes laboratoriais, o cânhamo pode deixar de ser apenas pauta regulatória e passar a ocupar espaço concreto na bioeconomia brasileira. Para a indústria de papel, a pergunta deixa de ser se a reciclagem tem limite — e passa a ser até quantas vezes o material poderá voltar para a linha de produção sem perder desempenho.
Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.
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