Mundo Botânico & Ciência
A fruta amazônica que só nasce graças a um bando de periquitos
Pesquisa da Embrapa identificou que psitacídeos, e não morcegos ou abelhas, são os responsáveis por garantir a reprodução do bacurizeiro na Amazônia
Publicado
52 minutos atrásem
Por
Suzana Machado
Por décadas, moradores da região de Tracuateua, no Pará, repetiram uma crença sobre o bacurizeiro: a de que a queda das flores era causada pelos periquitos que pousavam nos galhos durante a floração. Pesquisadores da Embrapa decidiram observar o fenômeno de perto e descobriram algo diferente. Os pássaros não derrubam as flores. Eles são, na verdade, a peça que garante a existência da própria fruta.
O estudo, conduzido em árvores de Belém e Tracuateua durante os anos 1990, acompanhou o comportamento de visitantes diurnos e noturnos ao longo de ciclos completos de 24 horas, com binóculos convencionais e equipamento sensível a infravermelho. O resultado revisou uma hipótese antiga: contrariando a crença popular de que morcegos participariam da polinização, os cientistas comprovaram que a flor do bacuri perde a receptividade ainda no fim da tarde, por volta das 18h, quando pétalas e anteras já começam a se soltar. Não há atividade floral noturna relevante, e nenhuma visita de morcego foi registrada mesmo com os animais presentes na área.
Uma síndrome de polinização pouco comum
A flor do bacurizeiro abre ao amanhecer e produz néctar em grande volume, e pólen abundante e viscoso, características típicas de plantas que evoluíram para atrair aves, não insetos. Entre os visitantes diurnos, os pesquisadores identificaram três grupos com papéis bem diferentes. Vespas e abelhas sem ferrão visitam a flor o dia inteiro, mas apenas roubam néctar e resina pelo lado externo da pétala, sem tocar nos órgãos reprodutivos. Pássaros como o sanhaço-azul e o japiim-xexéu se alimentam de néctar e ocasionalmente ajudam na polinização. Mas os verdadeiros responsáveis pela reprodução da planta são os periquitos e papagaios, como a marianinha-de-cabeça-amarela e o periquito-da-asa-dourada, que chegam em bandos logo após o amanhecer, encostam a testa diretamente nas anteras ao se alimentar de pólen e carregam os grãos para outras árvores.
Essa constatação teve peso científico além do bacuri. Até aquele estudo, não havia registro documentado de psitacídeos atuando como polinizadores eficazes em plantas da região Neotropical. O fenômeno já era conhecido em espécies da Austrália, mas nunca havia sido descrito com esse nível de detalhe nas Américas.
O gargalo que trava a domesticação da fruta
Essa dependência de um polinizador específico ajuda a explicar um problema comercial conhecido de quem trabalha com bacuri: a baixíssima proporção de frutos formados em relação ao número de flores que a árvore produz. O bacurizeiro também é autoincompatível, o que significa que uma árvore não consegue frutificar com o próprio pólen. Ela precisa necessariamente receber pólen de outro indivíduo geneticamente distinto, e é aí que entra a importância dos periquitos: como voam em bandos e cobrem grandes distâncias, eles conseguem promover a troca genética entre árvores espalhadas, algo que um inseto de raio de ação curto dificilmente faria.
O problema é que a maior parte do bacuri comercializado no Brasil ainda vem do extrativismo em populações nativas, não de plantios organizados. Isso deixa a produção da fruta presa a um equilíbrio frágil: sem floresta de pé para abrigar os bandos de psitacídeos, sem fragmentação excessiva das áreas de ocorrência natural, a polinização eficiente simplesmente não acontece. A fruta amazônica, nesse sentido, entra numa discussão que hoje é global. Boa parte da produção agrícola mundial depende de polinizadores animais, e a perda de habitat tem reduzido essas populações em várias regiões do planeta. No caso do bacuri, o polinizador não é uma abelha ameaçada, mas um bando de periquitos que precisa de floresta contínua para sobreviver e cumprir sua função ecológica.
O que isso significa para o futuro da fruta
Entender essa dependência muda a forma como programas de manejo e domesticação da espécie podem avançar. Plantios comerciais que ignorem a necessidade de diversidade genética entre árvores, ou que se instalem isolados de fragmentos florestais capazes de sustentar bandos de psitacídeos, tendem a repetir o mesmo gargalo observado nas populações nativas: muita flor, pouco fruto. A conservação da floresta ao redor das plantações deixa de ser apenas uma pauta ambiental e passa a ser, também, uma condição produtiva.
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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