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Fauna & Vida Silvestre

Aranha do interior de SP engana polinizadores sem precisar de flores; estudo revela o truque visual por trás da caça

Estudo com quase 5 mil horas de filmagem na Mata Atlântica de São Paulo mostra que a Epicadus heterogaster dispensa as flores e usa reflexo ultravioleta para atrair vítimas.

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Aranha do interior de SP engana polinizadores sem precisar de flores; estudo revela o truque visual por trás da caça

Uma aranha do tamanho de um grão de arroz consegue enganar abelhas e vespas sem precisar de uma única flor por perto. O truque está em uma faixa de luz que os olhos humanos simplesmente não captam: o ultravioleta.

A espécie se chama Epicadus heterogaster, uma aranha-caranguejo encontrada em diferentes regiões do Brasil e da América do Sul. Seu abdômen tem projeções que lembram pétalas, e por muito tempo os cientistas imaginaram que esse disfarce só funcionava quando o animal estava posicionado sobre uma flor de verdade. Um estudo conduzido por pesquisadores da Unicamp e da UTFPR mostrou que essa dependência não existe entre as fêmeas adultas.

Uma armadilha que dispensa o cenário

Aranhas da família Thomisidae costumam caçar por emboscada. Em vez de tecer teias, elas ficam paradas sobre a vegetação esperando a aproximação de insetos, e boa parte delas usa flores reais como palco para essa espera. A novidade descoberta pelos pesquisadores brasileiros é que a Epicadus heterogaster adulta consegue repetir esse efeito mesmo em cima de folhas verdes comuns, sem flor alguma nas proximidades.

Aranha do interior de SP engana polinizadores sem precisar de flores; estudo revela o truque visual por trás da caça
Foto: iNaturalist

Para confirmar isso, os cientistas passaram três anos observando a espécie na Reserva Biológica da Serra do Japi, em Jundiaí. Ao todo, registraram quase 4.849 horas de filmagem, o equivalente a mais de 200 dias seguidos de observação ininterrupta, um esforço concentrado quase inteiramente em entender o momento da caça.

O papel da luz que ninguém vê

A explicação para o fenômeno está na reflexão de luz ultravioleta emitida pelo corpo da aranha. Abelhas, vespas e outros polinizadores enxergam uma faixa do espectro luminoso que escapa completamente à visão humana, e é justamente nessa faixa que a Epicadus heterogaster parece imitar o brilho característico das flores.

Para testar essa hipótese, a equipe recorreu a um experimento pouco convencional: usou substâncias com filtro solar, capazes de bloquear a radiação UV, e aplicou o produto no dorso de algumas aranhas. O teste foi feito em folhas, sem nenhuma flor como referência, comparando quatro grupos, aranhas com o sinal ultravioleta bloqueado, aranhas com o produto aplicado em outra parte do corpo, aranhas sem qualquer alteração e folhas vazias.

O resultado separou claramente os grupos. As aranhas que mantiveram a reflexão ultravioleta ativa continuaram atraindo visitantes de diferentes espécies, com destaque para himenópteros, o grupo que reúne abelhas e vespas. Quando o sinal foi bloqueado, os insetos passaram a evitar o contato e demonstraram comportamento de fuga assim que se aproximavam.

Aranha do interior de SP engana polinizadores sem precisar de flores; estudo revela o truque visual por trás da caça
Foto: iNaturalist

Um detalhe chamou atenção dos pesquisadores: aranhas vivas receberam menos visitas do que espécimes anestesiados. O movimento natural do animal parece ajudar os insetos a reconhecer o predador, o que sugere que ficar imóvel é parte essencial da estratégia.

Jovens e adultas jogam papéis diferentes

Nem todas as fases da vida da aranha seguem o mesmo roteiro. Entre as 30 fêmeas analisadas ao longo das trilhas da Serra do Japi, as mais jovens, com menos de meio centímetro de comprimento, foram encontradas quase sempre sobre flores. Já as adultas, que chegam a medir mais de dois centímetros, apareceram principalmente sobre folhas.

Curiosamente, jovens e adultas refletem níveis parecidos de luz ultravioleta, o que descarta a ideia de que a diferença esteja simplesmente na intensidade do brilho. Os pesquisadores apontam que o tamanho do corpo pode influenciar essa mudança de comportamento: aranhas maiores talvez consigam produzir, sozinhas, um estímulo visual forte o suficiente para dispensar o cenário floral.

Essa independência das flores traz vantagens práticas. Em períodos de escassez de flores, caçar sobre folhas amplia bastante a área disponível para emboscada. Também reduz a disputa por espaço com outros predadores que dependem exclusivamente de flores para se camuflar.

Mimetismo ou apenas sorte evolutiva?

Uma pergunta segue sem resposta definitiva: a aranha realmente evoluiu para imitar uma flor, em um processo chamado mimetismo agressivo, ou seu corpo apenas produz por acaso um estímulo que já agrada aos polinizadores por outros motivos? Os próprios autores do estudo deixam essa questão em aberto para pesquisas futuras.

Aranha do interior de SP engana polinizadores sem precisar de flores; estudo revela o truque visual por trás da caça
Foto: iNaturalist

O conjunto de evidências, porém, aponta na direção do mimetismo: o formato do abdômen, as projeções que lembram pétalas, o hábito de esconder as pernas dianteiras durante a espera e a reflexão ultravioleta formam um pacote coordenado demais para ser coincidência isolada. Os pesquisadores reforçam que o ultravioleta provavelmente não age sozinho. Cor, forma corporal e comportamento parado parecem trabalhar juntos para sustentar o engano.

Uma estratégia com paralelo em outros animais

O caso da Epicadus heterogaster se soma a uma lista curta de predadores que usam sinais visuais além do alcance humano para caçar. As orquídeas-louva-a-deus, encontradas no sudeste asiático, seguem lógica parecida: o corpo imita pétalas para atrair insetos que se aproximam em busca de néctar. Peixes-diabo de profundezas oceânicas usam bioluminescência para o mesmo fim, embora nesse caso o sinal seja luz visível, e não ultravioleta.

Vale lembrar que abelhas enxergam naturalmente uma faixa de cores que inclui o ultravioleta e exclui o vermelho puro, o oposto da visão humana. Isso explica por que muitas flores desenvolveram, ao longo de milhões de anos, padrões ultravioleta invisíveis a nós, mas nítidos para quem poliniza. A aranha, nesse contexto, não inventou um truque novo. Ela conseguiu decifrar e reproduzir um código visual que já existia na natureza havia muito tempo, direcionado para outro público.

Uma espécie de distribuição ampla

Embora o estudo tenha sido conduzido no interior paulista, a Epicadus heterogaster não é exclusiva de São Paulo. Registros indicam sua presença em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Rondônia e Roraima, além de outros países da América Central e do Sul, incluindo Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina.

A espécie também varia bastante na coloração, com indivíduos registrados em tons brancos, amarelos e roxos, muitas vezes combinando a cor do próprio corpo com a da vegetação ao redor. Essa plasticidade visual reforça a hipótese de que o disfarce é um recurso adaptável, e não um efeito fixo de uma única aparência.

Uma aranha pequena, parada sobre uma folha comum, sem cheiro de néctar e sem uma única pétala por perto, ainda assim consegue fazer abelhas pousarem sobre ela como se fosse uma flor. O que muda o resultado não está no que se vê a olho nu, mas em uma camada de luz que só existe para quem precisa enxergá-la.

Informações: G1/Terra da Gente

  • Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.