Agro do Futuro & Inovação
IA analisa 50 milhões de moléculas e descobre cheiros capazes de afastar abelhas dos pesticidas
Modelo de aprendizado de máquina reduziu um universo de 50 milhões de compostos a pouco mais de 130 candidatos, testados depois em campo com abelhas forrageando livremente.
Publicado
3 semanas atrásem
Por
Suzana Machado
Uma abelha se aproxima de uma área florida e, de repente, muda de rota. Não há predador à vista nem barreira física no caminho. O que a fez desviar foi um cheiro, captado por um sistema olfativo capaz de distinguir uma quantidade impressionante de substâncias no ar. Foi justamente esse mecanismo que um grupo de cientistas decidiu explorar para tentar resolver um problema antigo da agricultura: como manter os polinizadores longe do contato direto com pesticidas sem comprometer a proteção das lavouras.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside, nos Estados Unidos, recorreram ao aprendizado de máquina para vasculhar um universo praticamente impossível de testar manualmente. O estudo, liderado pelo professor Anandasankar Ray em parceria com o entomologista Boris Baer, foi publicado na revista científica eLife em setembro de 2026.
Um filtro para 50 milhões de possibilidades
A escala do trabalho ajuda a entender por que a tarefa nunca tinha avançado dessa forma. O sistema olfativo das abelhas reúne mais de 200 receptores de odor, o que torna a espécie extremamente sensível a sinais químicos usados para localizar flores e fontes de alimento. Essa mesma sensibilidade, no entanto, dificulta a busca por cheiros que provoquem o efeito contrário: afastar, em vez de atrair.
Testar cada composto isoladamente em campo seria inviável. Por isso, a equipe treinou um modelo de aprendizado de máquina com dados sobre estrutura química e comportamento de insetos, incluindo experimentos anteriores com moscas-das-frutas. Depois de ajustado, o algoritmo analisou mais de 50 milhões de moléculas e apontou cerca de 130 compostos com potencial repelente. Ray destacou que o avanço não dependeu de um volume gigantesco de dados, e sim de informações de boa qualidade combinadas a um processo de refinamento contínuo do modelo.
Do laboratório ao campo aberto
A lista reduzida pelo algoritmo passou então por testes controlados em laboratório e, na sequência, por experimentos com abelhas forrageando livremente ao ar livre. Sete compostos selecionados mostraram efeito repelente também nessas condições reais, fora do ambiente controlado.
Esse detalhe importa porque, há duas décadas, desde que as famílias de receptores olfativos de insetos foram mapeadas, nenhum repelente novo havia sido registrado para uso comercial nos Estados Unidos. A dificuldade de validar candidatos em campo é uma das razões para essa estagnação, e é justamente essa etapa que o estudo conseguiu atravessar com sucesso.
Proteger a lavoura sem perder a abelha
A proposta não altera a toxicidade dos pesticidas. A lógica é outra: em vez de tornar o produto mais seguro, os cientistas tentam convencer a abelha a não se aproximar da área tratada durante o período de maior risco. Funciona como um aviso que o inseto consegue captar pelo olfato, antes mesmo de entrar em contato com a substância.
Os compostos identificados também abrem possibilidades além da lavoura. A mesma tecnologia pode ajudar a reduzir conflitos entre abelhas e humanos em espaços públicos, como hospitais e áreas residenciais, e dar suporte a operações agrícolas que precisam controlar a polinização, caso de algumas variedades de frutas sem sementes.
O que ainda falta para chegar à lavoura
O estudo não encerra o processo. Antes de qualquer aplicação comercial, os pesquisadores precisam avaliar como os repelentes se comportam quando aplicados junto a um pesticida em uso real, por quanto tempo o efeito se mantém sob condições de pulverização no campo e qual caminho regulatório esse tipo de aditivo precisaria seguir para ser aprovado.
A publicação também registra potenciais conflitos de interesse ligados à propriedade intelectual e ao financiamento da pesquisa, informação relevante diante de uma futura comercialização dos compostos.
Uma barreira que só a abelha percebe
O estudo representa uma aplicação pouco comum da inteligência artificial no campo: em vez de dirigir maquinário ou calcular produtividade, o algoritmo ajudou a decifrar um sistema sensorial inteiro, reduzindo milhões de possibilidades a um punhado de candidatos viáveis para teste.
Se o desenvolvimento avançar pelas próximas etapas regulatórias, o resultado poderá ser uma ferramenta invisível aos olhos humanos. Para a abelha, o aviso estará no ar, guiando cada decisão de voo antes que o risco apareça.
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
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