Jardinagem & Cuidados
Bokashi: o adubo japonês que fermenta em 10 dias e devolve ao solo o que a compostagem tradicional perde
Fermentado sem oxigênio e pronto em poucos dias, o bokashi entrega ao solo microrganismos e nutrientes que o processo tradicional de compostagem costuma deixar escapar pelo caminho.
Publicado
5 dias atrásem
Por
Mel Maria
Guardo um balde fechado embaixo da minha bancada de plantas há alguns meses, e nele acontece algo que a maioria das pessoas nunca viu: resíduos orgânicos fermentando sem cheiro ruim, sem moscas e sem precisar revirar nada.
Esse é o bokashi, e foi a técnica que mudou a forma como eu penso adubação.
O que é o bokashi?
O bokashi é um adubo orgânico fermentado, criado no Japão e trazido ao Brasil por imigrantes japoneses no final da década de 1980. A diferença central em relação à compostagem que a maioria conhece está no processo: enquanto o composto tradicional depende de oxigênio e de revolvimento constante das pilhas, o bokashi fermenta em ambiente fechado, sem ar, com a ajuda de microrganismos como leveduras, actinomicetos e bactérias láticas. O resultado é um material rico em nutrientes, pronto em um prazo muito menor do que o da compostagem convencional, que pode levar meses.

A EMBRAPA descreve o bokashi como um composto de baixo custo que melhora o solo em três frentes ao mesmo tempo: física, formando agregados e ajudando o solo a reter e drenar água; química, reduzindo perdas de nutrientes por lixiviação; e sanitária, diminuindo a população de fungos e bactérias que causam doenças nas plantas.
Por que a fermentação faz diferença
Na compostagem tradicional, boa parte do nitrogênio e de outros nutrientes se perde durante a decomposição, porque o processo depende de oxigênio e libera gases ao longo do caminho. No bokashi, a fermentação anaeróbica preserva mais desses nutrientes dentro do material, porque o processo é mais controlado e ocorre em ambiente vedado.
Um dado que gosto de compartilhar quando alguém estranha o tamanho do balde: segundo orientação da própria EMBRAPA, o bokashi de terra fica pronto para uso em cerca de dez dias depois de montado, e a recomendação para hortas e canteiros é de até 200 gramas por metro quadrado, aplicados no preparo do solo antes do plantio. Já em escala maior, o volume recomendado chega a 1.000 kg por hectare. É pouco material fazendo um trabalho grande, e é exatamente esse ganho de eficiência que explica por que produtores orgânicos de todo o país adotaram a técnica.
Como eu uso o bokashi nas minhas plantas
Misturo o bokashi diretamente na terra antes de plantar mudas novas, e uso uma camada fina como cobertura para plantas que já estão estabelecidas no vaso ou no canteiro. A quantidade importa mais do que parece: excesso de bokashi pode desequilibrar o solo da mesma forma que a falta de adubo, então prefiro aplicar pouco e observar a resposta da planta nas semanas seguintes antes de repetir a dose.
Vasos pequenos pedem quantidades ainda menores, porque o volume de terra é limitado e o material fermentado é concentrado. Uma colher de sopa por vaso de porte médio, incorporada à terra, costuma ser suficiente para notar diferença no crescimento em poucas semanas.
Um detalhe que poucos comentam
O bokashi não serve só como adubo. Ele também funciona como inoculante em solos degradados, devolvendo vida microbiológica a terras que perderam fertilidade depois de anos de uso intensivo.

Esse é um dos motivos pelos quais o bokashi se tornou o produto mais vendido entre os bioinsumos organicos no Brasil, respondendo por cerca de 90% da receita das empresas que fabricam esse tipo de insumo, segundo o Centro de Inteligência em Orgânicos. Isso mostra que a demanda não vem só de jardineiros amadores, mas também de produtores que buscam recuperar solo cansado sem recorrer a fertilizante químico.
Para quais plantas funciona
O bokashi se adapta bem a hortaliças, frutíferas, plantas ornamentais e espécies de interior. A composição rica em nutrientes estimula o crescimento das raízes, e é justamente esse fortalecimento do sistema radicular que costuma deixar as plantas mais resistentes a pragas e doenças ao longo do tempo.
Vale lembrar que cada planta tem uma exigência nutricional diferente. Espécies de crescimento rápido, como hortaliças de folha, respondem bem a aplicações mais frequentes e em menor quantidade. Já plantas ornamentais de crescimento lento pedem intervalos maiores entre uma aplicação e outra.
O que fica depois de testar?
O bokashi não resolve tudo isso de uma vez, mas resolve bem o que promete: transforma resíduo em nutriente, acelera um processo que costuma ser lento e devolve equilíbrio biológico ao solo. Depois de acompanhar minhas próprias plantas respondendo a esse adubo, entendi por que a técnica atravessou décadas e continua sendo redescoberta por quem cultiva em casa hoje.
Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.
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