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Jardinagem & Cuidados

Calathea: a espécie brasileira que virou coringa nos jardins de sombra

Nativa do Brasil e sensível ao clima, a calathea me ensinou que elegância no jardim tem mais a ver com observação do que com esforço

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Calathea: a espécie brasileira que virou coringa nos jardins de sombra

Toda noite, por volta das seis, as folhas da calathea que fica na entrada da Mel Garden começam a se levantar. Lentamente, elas se dobram para cima, quase se tocando, como duas mãos se juntando. Na manhã seguinte, tudo volta ao normal. Esse movimento tem nome, se chama nictinastia, e é uma das razões pelas quais essa planta conquistou tanto espaço nos jardins e nas casas brasileiras nos últimos anos.

Trabalho com plantas há tempo suficiente para saber que poucas espécies geram esse tipo de reação em quem vê pela primeira vez. Cliente entra na floricultura, para na frente do vaso e pergunta se aquilo é normal. É. E é justamente esse comportamento que transforma a calathea de planta decorativa em presença viva dentro do ambiente.

Uma planta brasileira que virou fenômeno global

A calathea é nativa das florestas tropicais do Brasil. Cresce naturalmente sob a copa das árvores, onde a luz chega filtrada e a umidade do ar se mantém alta o tempo todo. Foi ali, adaptando-se a esse ambiente de sombra parcial, que ela desenvolveu tanto as folhas grandes e desenhadas quanto o movimento diário que a tornou famosa.

Calathea
Imagem: Zion Marquez

Um detalhe que pouca gente comenta é que grande parte das espécies vendidas como calathea hoje foi reclassificada cientificamente para o gênero Goeppertia, depois de estudos genéticos que reorganizaram a família Marantaceae. Na prática, isso não muda em nada os cuidados que a planta exige, mas explica por que às vezes você encontra o mesmo vaso rotulado com dois nomes diferentes em lojas distintas. O comércio ainda usa calathea porque é o nome que o público reconhece, e é assim que também chamo aqui na loja.

Esse movimento das folhas, aliás, não é estético por acaso. Ele acontece graças a uma estrutura na base de cada folha, o pulvino, que regula a entrada e saída de água nas células conforme a luz muda ao longo do dia. À noite, ao se erguerem, as folhas perdem menos umidade e ficam menos expostas ao relento. É biologia funcionando a favor da sobrevivência da planta, e o resultado visual é que virou apelido popular: planta rezadeira.

O que aprendi cultivando calathea em Curitiba

Aqui está um ponto que poucos guias tratam com cuidado, e que aprendi na prática dentro da floricultura. A calathea vem de floresta tropical úmida, e Curitiba tem um clima seco boa parte do ano, especialmente no inverno, quando o ar interno das casas fica ainda mais ressecado por causa do aquecimento.

Isso significa que, aqui, a calathea pede mais atenção com a umidade do que em regiões litorâneas ou no Norte do país. Costumo recomendar aos clientes um umidificador próximo ao vaso ou, na falta dele, borrifar água nas folhas com regularidade e agrupar a calathea perto de outras plantas, formando um microclima mais úmido ao redor dela. Sem esse cuidado extra, as pontas das folhas ressecam e perdem parte do brilho que faz a planta valer a pena.

Luz, solo e rega no dia a dia

A calathea prefere luz indireta e constante, nunca sol direto. Em ambientes internos, uma janela com cortina fina ou um cômodo bem iluminado sem incidência direta funciona bem. Já vi muita planta queimar as folhas por ficar perto de janela sem proteção, e o dano nas folhas dessa espécie não se recupera, só cresce nova folhagem saudável a partir daí.

O solo precisa ser rico em matéria orgânica e ter boa drenagem. Um substrato comercial para plantas ornamentais, misturado com um pouco de fibra de coco, costuma dar bom resultado. Quanto à rega, o segredo está em manter o solo sempre levemente úmido, sem encharcar. Uso água filtrada ou de chuva sempre que possível, porque a calathea é sensível ao cloro presente na água de torneira, e isso aparece rápido nas bordas das folhas, que ficam manchadas ou amareladas.

A adubação pode ser feita mensalmente na primavera e no verão, com fertilizante líquido para ornamentais, sempre diluído conforme a indicação do fabricante. No outono e no inverno, reduzo bastante essa frequência, porque a planta desacelera o crescimento.

Onde ela funciona melhor no jardim

Na floricultura, costumo sugerir a calathea como planta isolada quando o objetivo é criar um ponto de destaque em um canto de sombra do jardim. Em conjunto, ela forma maciços bonitos ao lado de outras folhagens de textura diferente, como samambaias ou zamioculcas. Em vaso, é uma das opções mais versáteis que conheço para varanda protegida ou área interna com boa luminosidade.

O que mais gosto de observar é como essa planta muda a relação das pessoas com o próprio jardim. Ela pede atenção diária, mesmo que pequena, e essa atenção acaba criando um hábito de observação que poucas plantas conseguem gerar. Não é só decoração. É presença.

  • Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
    Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.