Jardinagem & Cuidados
Maranta charuto desperta curiosidade em quem vê pela primeira vez: entenda o motivo do nome e como cultivar em casa
Nativa das florestas tropicais da América do Sul, a espécie encanta pela folhagem bicolor e por um comportamento raro entre as plantas de interior.
Publicado
2 semanas atrásem
Por
Mel Maria
Toda noite, sem exceção, as folhas da maranta charuto se erguem e se dobram para cima, como se a planta fechasse os olhos para dormir. Durante o dia, elas voltam a se abrir, achatadas, recebendo luz. Esse movimento diário intrigou tanto quem cultiva a espécie que ela ganhou um segundo nome, bem mais popular do que o científico: planta rezadeira.
Eu cultivo maranta charuto há anos e ainda me surpreendo com essa coreografia silenciosa que se repete todas as noites no mesmo horário, como um relógio biológico que a planta carrega dentro de si. E é exatamente isso que ela tem: um relógio.
Uma planta que carrega o relógio nas próprias folhas
A maranta charuto, cientificamente chamada de Maranta leuconeura, pertence à família Marantaceae, a mesma que reúne parentes próximos como o gengibre e a bananeira. É originária das florestas tropicais do Brasil, onde cresce rasteira, cobrindo o solo sombreado das matas como um tapete vivo.

O movimento das folhas tem nome técnico: nictinastia. Na base de cada folha existe uma estrutura chamada pulvino, formada por células motoras que mudam de volume ao longo do dia. Durante a tarde, essas células ficam cheias de água e mantêm a folha estendida. Ao anoitecer, a planta expulsa íons dessas células, a água sai por osmose e a pressão interna cai. É essa queda de pressão que faz a folha se erguer e se enrolar, lembrando um charuto, daí o nome popular que ela ganhou por aqui.
A hipótese mais aceita para explicar esse comportamento é que, na mata densa onde a espécie evoluiu, manter as folhas abertas durante o dia maximiza a captação de luz que chega filtrada pela copa das árvores. À noite, sem luz para aproveitar, a planta recolhe as folhas e reduz a perda de água por evaporação.
O visual que faz qualquer ambiente ganhar vida
As folhas são ovaladas, com nervuras bem marcadas e bordas levemente onduladas. Na parte de cima, aparece um verde profundo pontuado por manchas prateadas que seguem o desenho das nervuras, quase como se alguém tivesse pintado cada folha à mão. Por baixo, a cor muda para um vermelho intenso, com manchas escuras que só aparecem quando a luz atravessa a folha.
A planta chega a cerca de 30 centímetros de altura e largura, e cada folha pode medir até 12 centímetros de comprimento. Em condições favoráveis, ela também produz pequenas flores brancas ou lilases, que escondem um mecanismo curioso: cada flor tem um gatilho que se fecha rapidamente depois de um único toque, depositando e coletando pólen ao mesmo tempo, num processo que funciona uma única vez por flor.
Como cultivar sem complicação
A maranta charuto se adapta bem tanto a vasos internos quanto a áreas externas protegidas, e o segredo está em reproduzir as condições do subosque tropical de onde ela vem.
A luz precisa ser indireta e constante. Sol direto queima as folhas e desbota as cores que fazem da planta um destaque na decoração. Um canto com boa luminosidade, mas sem incidência direta, ou protegido por uma cortina leve, costuma funcionar bem.
A rega exige atenção ao equilíbrio. Regue quando a superfície do substrato estiver seca ao toque, mantendo-o sempre levemente úmido, nunca encharcado. Evite molhar diretamente as folhas, porque o acúmulo de umidade sobre elas favorece o aparecimento de fungos e manchas.
O substrato ideal combina boa drenagem com riqueza orgânica. Uma mistura de terra vegetal, substrato comercial e húmus de minhoca, na proporção de 2:1:1, garante aeração para as raízes e nutrientes suficientes para folhas vistosas.
A fertilização regular sustenta esse visual exuberante. Durante primavera e verão, um fertilizante líquido para plantas ornamentais aplicado a cada duas semanas já resolve. No outono e inverno, basta reduzir para uma aplicação mensal, sempre respeitando a dosagem indicada na embalagem, já que o excesso de nutrientes pode ser mais prejudicial do que a falta.
A temperatura também importa, e aqui está um dado que muita gente ignora: a maranta charuto sofre com temperaturas abaixo de 15°C. Em regiões com inverno mais rigoroso, vale manter a planta protegida e afastada de janelas que recebem corrente de ar fria.
Multiplicando a planta sem comprar uma nova muda
A propagação por divisão de touceiras é a forma mais simples de multiplicar a espécie. Basta retirar a planta do vaso, separar as raízes com cuidado, mantendo algumas folhas em cada divisão, e replantar em substrato rico em nutrientes.
A estaquia também funciona bem. Corta-se um pedaço de caule com pelo menos duas folhas e planta-se em substrato úmido, mantendo a umidade constante até o enraizamento aparecer. Em poucas semanas, geralmente já é possível notar os primeiros sinais de desenvolvimento das raízes.
Quem cultiva maranta charuto acaba, sem perceber, aprendendo a observar o tempo de um jeito diferente. Essa é uma planta que marca o dia e a noite com o próprio corpo, e isso transforma um vaso comum em algo que convida a olhar com mais atenção para o que acontece silenciosamente ao nosso redor.
Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.
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