Mundo Botânico & Ciência
Mais da metade das orquídeas do planeta pode estar ameaçada de extinção: entenda as causas e as lacunas de dados
Desmatamento, queimadas e mudanças climáticas pressionam a família de plantas mais ameaçada entre as angiospermas, enquanto a maior parte das espécies ainda não foi avaliada pela ciência.
Publicado
5 dias atrásem
Por
Suzana Machado
Na Era Vitoriana, colecionadores britânicos pagavam fortunas para financiar expedições até os trópicos com um único objetivo: trazer orquídeas para a Europa. O fenômeno ficou conhecido como orquidelírio e ajudou a transformar essas flores em símbolo de status, um gosto que se espalhou pelo mundo e continua vivo no imaginário coletivo até hoje. O problema é que esse apetite deixou marcas profundas. O extrativismo predatório da época, somado ao comércio ilegal que persiste até agora, colocou a família Orchidaceae em um nível de risco maior do que o de outras plantas com flores.
Uma revisão publicada no periódico científico Biodiversity and Conservation, assinada por pesquisadores de países como Austrália, Camarões, Estados Unidos, França, Madagascar, Reino Unido e Brasil, reforça esse alerta. O trabalho reuniu dados até o início de 2025 e cruzou informações usando ferramentas de inteligência artificial para estimar, de forma mais precisa, quantas espécies estão sob ameaça real.
Uma família gigante, mas pouco mapeada
Orchidaceae é uma das maiores famílias de plantas com flores do planeta, com cerca de 25 mil a 30 mil espécies conhecidas. Aproximadamente 75% delas são epífitas, ou seja, vivem sobre árvores hospedeiras. As demais se dividem entre terrestres, que crescem direto no solo, e mico-heterotróficas, que dependem de fungos para sobreviver. Essa dependência do ambiente, combinada a áreas de distribuição restritas e crescimento lento, torna o grupo particularmente vulnerável a qualquer alteração no ecossistema.
A revisão estima que entre 55,6% e 69,2% das espécies de orquídeas estão sob risco de extinção. O número impressiona ainda mais quando comparado a um retrato mais amplo do reino vegetal: um levantamento do Royal Botanic Gardens, Kew, no Reino Unido, apontou em 2023 que cerca de 45% de todas as plantas com flores documentadas no mundo enfrentam algum grau de ameaça. As orquídeas, portanto, aparecem em uma faixa de risco proporcionalmente mais alta que a média vegetal.
Parte do problema está na forma como o risco é medido oficialmente. A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, criada em 1964 pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e considerada a principal referência mundial sobre extinção, avaliou até agora pouco mais de 2 mil das 30 mil espécies de orquídeas conhecidas. Isso significa que a maior parte do grupo segue fora do radar oficial, o que pode mascarar a gravidade real da situação.
Onde estão as maiores lacunas de conhecimento
A lacuna de dados não é uniforme no globo. Segundo a revisão, as Américas Central e do Sul e a Ásia tropical estão entre as regiões menos amostradas. Para vários países sul-americanos, isso quer dizer que os números disponíveis provavelmente subestimam o nível real de ameaça.
Vários fatores explicam esse vácuo. Muitas orquídeas crescem em locais de difícil acesso, o que dificulta expedições de coleta e monitoramento. Países ricos em biodiversidade, incluindo o Brasil, o quarto no ranking mundial de diversidade de orquídeas com cerca de 2.500 espécies nativas, costumam usar sistemas próprios de avaliação e enfrentam dificuldade técnica para adaptar seus dados aos padrões globais da IUCN. Some a isso a escassez de financiamento para pesquisas de campo e o número limitado de especialistas na área, e o resultado é um mapa incompleto justamente onde a diversidade é maior.
A maior concentração de orquídeas brasileiras está na Mata Atlântica, seguida pela Amazônia e pelo Cerrado. São biomas sob pressão constante, o que torna a ausência de avaliações atualizadas ainda mais preocupante.
Desmatamento, fogo e clima mudam o jogo
As ameaças que mais pesam sobre as orquídeas hoje têm nomes conhecidos. A exploração de recursos biológicos e o avanço agrícola lideram a lista. Espécies epífitas dependem de árvores grandes e antigas, que oferecem microclimas estáveis de temperatura e umidade. Quando essas árvores são derrubadas ou a floresta é fragmentada, populações inteiras podem colapsar em pouco tempo.
As mudanças climáticas somam outra camada de risco. Elas podem provocar descompassos entre o período de floração das plantas e a atividade dos polinizadores, rompendo um sincronismo que levou milhares de anos para se estabelecer. As queimadas completam o quadro de ameaças, sendo especialmente destrutivas para as orquídeas terrestres, que não têm como escapar do fogo que percorre o solo.
Caminhos possíveis para reverter o quadro
A revisão não se limita a apontar o problema. Entre as medidas urgentes sugeridas estão o combate ao desmatamento e às queimadas, a ampliação da amostragem em regiões pouco estudadas por meio de levantamentos de campo, e a inclusão de mais espécies brasileiras na Lista Vermelha da IUCN.
Também é apontada a necessidade de proteger rigorosamente fragmentos de mata madura, preservando não só as árvores hospedeiras, mas também os fungos e os polinizadores que sustentam esse ciclo de vida. Outra proposta é a criação de bancos que armazenem não apenas semente, mas também os fungos simbiontes das orquídeas, viabilizando a reintrodução de espécies na natureza no futuro.
Há um ponto positivo nesse cenário: as orquídeas já estão entre as plantas mais cultivadas por cultura de tecidos no mundo, com cerca de 500 milhões de mudas produzidas anualmente apenas nos dez gêneros comerciais mais populares. A tecnologia para multiplicar espécies em laboratório existe e funciona em escala industrial. O desafio agora é outro: unir essa capacidade técnica a avaliações de risco mais completas e atualizadas, capazes de indicar com precisão onde a conservação precisa ser prioridade antes que espécies inteiras desapareçam sem que a ciência tenha tido a chance de conhecê-las.
Informações: ciencia.ufpr.br
Mãe, empreendedora, educadora e apaixonada por plantas e animais. Suzana acredita que o cuidado e a empatia são as bases de qualquer desenvolvimento saudável. Formada em Administração e Pedagogia, ela hoje leciona e dedica seu tempo ao universo infantil, comanda sua própria loja (MF Feminina) e cuida de suas plantas. No Ellas Magazine, Suzana transforma sua vivência em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza.
Veja Também

Fruto silvestre do cerrado avisa quando está pronto para comer: veja por que a guabiroba cai no chão ao amadurecer

Sapé resiste ao fogo e à seca graças a uma estrutura enterrada: veja como essa planta recupera áreas queimadas

Espécie de flor branca nunca vista pela ciência surge no litoral paulista; veja onde foi achada e o que ela revela sobre o bioma

A árvore da Caatinga com madeira mais pesada que a água: conheça a braúna e seu uso em obras que duram séculos

Xique-xique abre suas flores apenas à noite e aposta em mariposas raras para não desaparecer da Caatinga

Cientistas encontram numa fruta chamada “chicletinho” o que faltava na dieta brasileira
