{"id":31943,"date":"2025-11-03T13:51:24","date_gmt":"2025-11-03T16:51:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=31943"},"modified":"2026-06-08T11:51:56","modified_gmt":"2026-06-08T14:51:56","slug":"mortal-para-anfibios-linhagem-de-fungo-surgiu-no-brasil-e-se-espalhou-pelo-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/mortal-para-anfibios-linhagem-de-fungo-surgiu-no-brasil-e-se-espalhou-pelo-mundo\/","title":{"rendered":"Mortal para anf\u00edbios, linhagem de fungo surgiu no Brasil e se espalhou pelo mundo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fungo quitr\u00eddio (<em>Batrachochytrium dendrobatidis<\/em>), ou simplesmente Bd, \u00e9 tido como um dos respons\u00e1veis pelo decl\u00ednio de popula\u00e7\u00f5es de anf\u00edbios no mundo todo. Nos \u00faltimos anos, pesquisadores identificaram diferentes linhagens gen\u00e9ticas do fungo causador da quitridiomicose em diversas partes do mundo, que j\u00e1 levou ao decl\u00ednio de pelo menos 500 esp\u00e9cies de anf\u00edbios anuros (sapos, r\u00e3s e pererecas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua dissemina\u00e7\u00e3o pelo mundo \u00e9 atribu\u00edda ao com\u00e9rcio de r\u00e3s-touro (<em>Aquarana catesbeiana<\/em>), esp\u00e9cie norte-americana cultivada em diversos pa\u00edses por conta da sua carne. A esp\u00e9cie foi trazida pela primeira vez ao Brasil em 1935, com uma segunda popula\u00e7\u00e3o introduzida nos anos 1970 <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das linhagens f\u00fangicas ganhou o nome de Bd-Brazil, por ter sido encontrada originalmente no pa\u00eds em 2012, embora sua origem exata tenha sido objeto de contesta\u00e7\u00e3o posteriormente. Em 2018, um artigo\u00a0<strong>publicado<\/strong>\u00a0na revista\u00a0<em>Science<\/em>\u00a0apontou que a origem da linhagem poderia ter sido na Pen\u00ednsula Coreana, renomeando o gen\u00f3tipo como Bd-Asia-2\/Bd-Brazil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um estudo\u00a0<strong>publicado<\/strong>\u00a0agora na revista\u00a0<em>Biological Conservation<\/em>, com apoio da FAPESP, um grupo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) atesta que a linhagem, detectada tamb\u00e9m nos Estados Unidos, Jap\u00e3o e na Pen\u00ednsula Coreana, se originou, sim, no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Bd-Brazil j\u00e1 estaria presente no pa\u00eds em 1916, duas d\u00e9cadas antes de chegarem aqui as primeiras r\u00e3s-touro, como j\u00e1 havia indicado um artigo de 2014\u00a0<strong>publicado<\/strong>\u00a0na revista\u00a0<em>Molecular Ecology<\/em>\u00a0por pesquisadores paulistas apoiados pela FAPESP. Naquele trabalho, os autores realizaram a identifica\u00e7\u00e3o das linhagens (genotipagem) de amostras do fungo em sapos depositados em museus desde o s\u00e9culo 19.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O artigo publicado agora cruzou dados da literatura cient\u00edfica como esse com a detec\u00e7\u00e3o de Bd em anf\u00edbios depositados em museus no mundo todo, a genotipagem do fungo em cria\u00e7\u00f5es de r\u00e3-touro no Brasil e an\u00e1lises gen\u00e9ticas desses animais comercializados em outros pa\u00edses. Os pesquisadores concluem que a dissemina\u00e7\u00e3o teria se dado daqui para o resto do mundo justamente por meio do com\u00e9rcio de carne de r\u00e3, do qual o Brasil \u00e9 um grande fornecedor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEsse gen\u00f3tipo tem alta preval\u00eancia em diferentes esp\u00e9cies nativas do Brasil, com registros muito antigos. Quando olhamos em outros lugares, os registros s\u00e3o bem mais recentes e ocorrem apenas em r\u00e3s-touro e outras esp\u00e9cies ex\u00f3ticas. Aqui, por sua vez, a linhagem est\u00e1 presente tanto nos ran\u00e1rios como na natureza, incluindo algumas esp\u00e9cies nativas que n\u00e3o desenvolvem a doen\u00e7a\u201d, conta\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/689774\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Luisa P. Ribeiro<\/strong><\/a>, primeira autora do estudo, realizado como parte de seu doutorado no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp com\u00a0<strong>bolsa<\/strong>\u00a0da FAPESP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho integra o projeto \u201c<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/112895\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\"><strong>Da hist\u00f3ria natural \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o dos anf\u00edbios brasileiros<\/strong><\/a>\u201d, apoiado pela FAPESP e coordenado por\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/2954\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Lu\u00eds Felipe Toledo<\/strong><\/a>, professor do IB-Unicamp e orientador do doutorado de Ribeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o poder\u00edamos identificar exatamente a linhagem em uma grande amostra de anf\u00edbios depositados em museus, uma vez que a conserva\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 a desej\u00e1vel para manter essa informa\u00e7\u00e3o. Por isso, identificamos apenas presen\u00e7a ou aus\u00eancia do fungo nesses indiv\u00edduos e buscamos outras evid\u00eancias que pudessem indicar ou n\u00e3o a origem brasileira do Bd-Brazil\u201d, diz Toledo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/agencia.fapesp.br\/files\/upload\/56323\/n2-meio.jpg\"><br>Microscopia do fungo quitr\u00eddio&nbsp;<em>Batrachochytrium dendrobatidis<\/em>&nbsp;(Bd), agente causador da quitridiomicose, mostra zoospor\u00e2ngios e zo\u00f3sporos respons\u00e1veis pela infec\u00e7\u00e3o em anf\u00edbios (<em>foto: Mariana Pontes<\/em>)<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Hist\u00f3ria de um fungo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para avaliar sua distribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, colaboradores estrangeiros examinaram 2.280 esp\u00e9cimes de anf\u00edbios coletados entre 1815 e 2014 e depositados em museus de zoologia ao redor do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMesmo sem sabermos a linhagem, encontramos registros mais antigos do que os reportados anteriormente na literatura e apresentamos uma revis\u00e3o de registros hist\u00f3ricos de Bd no mundo\u201d, afirma Ribeiro, atualmente realizando p\u00f3s-doutorado na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) com\u00a0<strong>bolsa<\/strong>\u00a0da FAPESP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quarenta dos 2.280 esp\u00e9cimes de museu testaram positivo para Bd. O registro mais antigo de infec\u00e7\u00e3o pelo fungo encontrado na amostragem foi em cinco indiv\u00edduos da esp\u00e9cie&nbsp;<em>Alytes obstetricans<\/em>, coletados em 1915 nos Pireneus, na Fran\u00e7a, o mais antigo conhecido para o pa\u00eds. O segundo mais antigo da amostragem foi em um sapo de uma esp\u00e9cie atualmente presente no Rio de Janeiro,&nbsp;<em>Megaelosia goeldii<\/em>, coletado em 1964.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para refor\u00e7ar a hip\u00f3tese da dissemina\u00e7\u00e3o do Brasil para o resto do mundo por meio da exporta\u00e7\u00e3o de r\u00e3s-touro, os pesquisadores recorreram a registros hist\u00f3ricos do com\u00e9rcio da esp\u00e9cie, \u00e0 genotipagem do fungo em r\u00e3s de ran\u00e1rios brasileiros e a an\u00e1lises gen\u00e9ticas de r\u00e3s-touro de mercados fora do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Bd-Brazil \u00e9 prevalente no pa\u00eds, com mais da metade das ocorr\u00eancias em alguns ran\u00e1rios, e menos virulento do que a segunda linhagem mais encontrada, a Bd-GPL, provavelmente origin\u00e1ria da \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores analisaram 3.617 rotas do com\u00e9rcio internacional de carne de r\u00e3, envolvendo 48 pa\u00edses. Apenas 12 foram identificados como exportadores, 21 como importadores e 15 como ambos. Foram integrados dados de rotas envolvendo pa\u00edses com ocorr\u00eancias confirmadas de Bd-Brazil, as datas mais antigas de detec\u00e7\u00e3o em cada pa\u00eds e evid\u00eancias gen\u00e9ticas de r\u00e3s-touro comercializadas. Assim, foi poss\u00edvel estabelecer as rotas de dispers\u00e3o mais plaus\u00edveis para a linhagem brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hip\u00f3tese da dispers\u00e3o do Brasil teve oito rotas identificadas. O pa\u00eds exportou diretamente para os Estados Unidos entre 1991 e 2009, enquanto este exportou para a Coreia do Sul em 2004 e 2008. Sem exporta\u00e7\u00f5es documentadas do pa\u00eds asi\u00e1tico, onde a Bd-Brazil foi confirmada, para outros pa\u00edses afetados, \u00e9 muito prov\u00e1vel que o Brasil seja mesmo a origem do gen\u00f3tipo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os resultados, concluem os autores, ressaltam a necessidade urgente de medidas de preven\u00e7\u00e3o, como controles de importa\u00e7\u00e3o, triagem de pat\u00f3genos e protocolos de quarentena para salvaguardar as esp\u00e9cies nativas, com regulamenta\u00e7\u00e3o e monitoramento em escala global.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fungo quitr\u00eddio (Batrachochytrium dendrobatidis), ou simplesmente Bd, \u00e9 tido como um dos respons\u00e1veis pelo decl\u00ednio de popula\u00e7\u00f5es de anf\u00edbios no mundo todo. 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