{"id":32685,"date":"2025-12-05T11:02:57","date_gmt":"2025-12-05T14:02:57","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=32685"},"modified":"2026-06-08T08:20:18","modified_gmt":"2026-06-08T11:20:18","slug":"oncas-a-beira-da-cerca-mapeamento-de-143-mil-avistamentos-expoe-desafios-da-paisagem-rural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/oncas-a-beira-da-cerca-mapeamento-de-143-mil-avistamentos-expoe-desafios-da-paisagem-rural\/","title":{"rendered":"On\u00e7as \u00e0 beira da cerca: mapeamento de 14,3 mil avistamentos exp\u00f5e desafios da paisagem rural"},"content":{"rendered":"<div class=\"lightweight-accordion bordered\"><details><summary class=\"lightweight-accordion-title\"><span>Resumo<\/span><\/summary><div class=\"lightweight-accordion-body\"><ul>\n<li>O estudo analisou <strong>14,3 mil registros de felinos brasileiros<\/strong>, revelando como a fragmenta\u00e7\u00e3o de habitats altera seus deslocamentos e intensifica conflitos com humanos.<\/li>\n<li>A convers\u00e3o de \u00e1reas naturais para <strong>agropecu\u00e1ria, estradas e cidades<\/strong> pressiona esp\u00e9cies como on\u00e7a-pintada e on\u00e7a-parda, reduzindo presas e empurrando os animais para zonas rurais.<\/li>\n<li>Pesquisadores identificaram <strong>tr\u00eas perfis ecol\u00f3gicos<\/strong> entre nove esp\u00e9cies, mostrando diferentes graus de toler\u00e2ncia a ambientes modificados e destacando exce\u00e7\u00f5es importantes.<\/li>\n<li>A conviv\u00eancia com fazendas melhorou em algumas regi\u00f5es, gra\u00e7as a <strong>manejo adequado e turismo de observa\u00e7\u00e3o<\/strong>, embora tens\u00f5es persistam pela perda de habitat e mudan\u00e7as no comportamento das presas.<\/li>\n<li>O uso de <strong>dados abertos e an\u00e1lises em larga escala<\/strong> mostrou lacunas de pesquisa em biomas como a Amaz\u00f4nia e refor\u00e7ou a import\u00e2ncia de integrar ci\u00eancia, conserva\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas rurais.\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div><\/details><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os grandes felinos brasileiros, como a on\u00e7a-pintada, a on\u00e7a-parda e a jaguatirica, s\u00e3o animais moldados por milhares de anos de evolu\u00e7\u00e3o em ambientes cont\u00ednuos de mata, campos naturais e \u00e1reas alagadas. Eles precisam de extens\u00f5es amplas de habitat preservado para ca\u00e7ar, se reproduzir e circular com seguran\u00e7a. Entretanto, a expans\u00e3o acelerada da agropecu\u00e1ria e de outras atividades econ\u00f4micas tem redesenhado esses cen\u00e1rios. Do Cerrado \u00e0 Amaz\u00f4nia, passando pelo Pantanal, a paisagem se fragmenta em ilhas de vegeta\u00e7\u00e3o nativa cercadas por pastagens, planta\u00e7\u00f5es, estradas e cidades, criando um tabuleiro bem mais hostil para esses predadores. No caso da on\u00e7a-pintada, por exemplo, estimativas apontam que, apenas entre Par\u00e1 e Mato Grosso, j\u00e1 foram suprimidos cerca de 27 milh\u00f5es de hectares de seu habitat original, uma \u00e1rea superior ao territ\u00f3rio do Reino Unido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, compreender como diferentes esp\u00e9cies de felinos respondem a essas mudan\u00e7as deixa de ser apenas uma curiosidade cient\u00edfica e passa a ser uma ferramenta vital de conserva\u00e7\u00e3o. Afinal, cada trecho de mata desmatado, cada estrada aberta e cada fazenda cercada altera n\u00e3o s\u00f3 o mapa f\u00edsico da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m o mapa mental desses animais, que passam a ajustar rotas, h\u00e1bitos e at\u00e9 sua dieta para sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um pa\u00eds inteiro visto pelos olhos dos felinos<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para tentar enxergar o Brasil a partir da perspectiva dos grandes gatos, uma equipe de pesquisadores da Unesp e de outras institui\u00e7\u00f5es nacionais decidiu reunir, em uma mesma base, aquilo que normalmente aparece de forma dispersa em relat\u00f3rios, artigos e bancos de dados de campo. A ideia foi simples e ambiciosa ao mesmo tempo: compilar milhares de observa\u00e7\u00f5es de felinos selvagens, georreferenciadas, e cruzar essas informa\u00e7\u00f5es com o uso do solo em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado foi um grande mosaico de dados, que reuniu aproximadamente 14,3 mil registros de avistamentos de nove esp\u00e9cies de felinos, com coordenadas precisas de onde cada um desses encontros ocorreu. Esses registros vieram, em grande parte, de armadilhas fotogr\u00e1ficas \u2014 as chamadas <em>camera traps<\/em> \u2014 camufladas na vegeta\u00e7\u00e3o para registrar a fauna de forma discreta, al\u00e9m de outras bases p\u00fablicas que, somadas, cobrem diferentes biomas e contextos paisag\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali\u00e1s, para relacionar a presen\u00e7a dos felinos com o tipo de ambiente em que circulam, os cientistas recorreram a mapas detalhados de uso e cobertura do solo. Esses mapas indicam quais \u00e1reas s\u00e3o ocupadas por agropecu\u00e1ria, quais ainda mant\u00eam vegeta\u00e7\u00e3o nativa, onde h\u00e1 cidades, rodovias, hidrel\u00e9tricas e outros tipos de interven\u00e7\u00e3o humana. A partir desse cruzamento, foi poss\u00edvel analisar se cada esp\u00e9cie tende a permanecer em ambientes mais naturais, se se aproxima de \u00e1reas agr\u00edcolas, se evita estradas ou se tolera paisagens altamente modificadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vanesa Bejarano Alegre, que concluiu o doutorado em Ecologia, Evolu\u00e7\u00e3o e Biodiversidade no Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da Unesp, c\u00e2mpus de Rio Claro, assina o trabalho como autora principal, em parceria com o Laborat\u00f3rio de Ecologia Espacial e Conserva\u00e7\u00e3o (LEEC). Ela destaca que esse tipo de s\u00edntese estat\u00edstica \u00e9 essencial justamente por superar a vis\u00e3o fragmentada de estudos locais. Pesquisadores de campo conhecem profundamente os animais de uma determinada regi\u00e3o; por\u00e9m, nem sempre conseguem ter uma vis\u00e3o de conjunto, capaz de apontar lacunas, padr\u00f5es invis\u00edveis e contradi\u00e7\u00f5es na literatura dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tr\u00eas perfis ecol\u00f3gicos para nove esp\u00e9cies<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para organizar a an\u00e1lise, Bejarano e seus colegas propuseram uma hip\u00f3tese que classificava as nove esp\u00e9cies em tr\u00eas grandes grupos ecol\u00f3gicos. De um lado, estariam os generalistas: felinos com maior flexibilidade para frequentar paisagens alteradas, incluindo \u00e1reas agr\u00edcolas, bordas de pastagens e zonas de contato mais intenso com a presen\u00e7a humana. Em seguida viriam os especialistas flex\u00edveis, que ainda dependem de mosaicos com boa quantidade de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, mas t\u00eam certa toler\u00e2ncia a ambientes antr\u00f3picos. Por fim, os especialistas estritos, aqueles que praticamente se restringem \u00e0s matas mais densas e evitam ao m\u00e1ximo espa\u00e7os abertos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os 14,3 mil registros funcionaram como um grande teste em escala nacional para essa classifica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. De modo geral, a divis\u00e3o proposta se mostrou coerente, embora algumas esp\u00e9cies tenham surpreendido e exigido ajustes finos. No grupo dos generalistas, por exemplo, entraram a on\u00e7a-parda (Puma concolor), o jaguarundi (Herpailurus yagouaroundi) e o gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi). A on\u00e7a-parda confirmou sua reputa\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie adapt\u00e1vel, sendo avistada com frequ\u00eancia nas bordas de \u00e1reas rurais, pr\u00f3ximo a pastos e planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jaguarundi foi ainda mais ousado do que se imaginava. Em vez de manter apego \u00e0 mata fechada, a esp\u00e9cie apareceu com frequ\u00eancia em zonas agr\u00edcolas, sugerindo uma rela\u00e7\u00e3o curiosa com ambientes modificados, quase como se preferisse esses cen\u00e1rios a florestas cont\u00ednuas. J\u00e1 o gato-do-mato-grande se mostrou muito mais reservado. Raros foram os registros pr\u00f3ximos a fazendas ou paisagens abertas, comportamento que acaba entrando em tens\u00e3o com a literatura que o colocava entre os generalistas. N\u00e3o por acaso, Bejarano admite que, se fosse responder sem olhar os dados, n\u00e3o classificaria a esp\u00e9cie dessa forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os especialistas flex\u00edveis, grandes felinos como a on\u00e7a-pintada (Panthera onca) e a jaguatirica (Leopardus pardalis) se mostraram coerentes com a hip\u00f3tese inicial. Ambos evitam estradas, mas se aproveitam de paisagens naturais mais heterog\u00eaneas, em que manchas de floresta, campos \u00famidos e bordas de mata fornecem diferentes op\u00e7\u00f5es de abrigo e ca\u00e7a. J\u00e1 os especialistas estritamente florestais, como Leopardus wiedii, L. guttulus e L. tigrinus, refor\u00e7aram sua depend\u00eancia da cobertura arb\u00f3rea densa, praticamente desaparecendo de ambientes abertos ou intensamente convertidos para agricultura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, a an\u00e1lise tamb\u00e9m revelou nuances importantes. A influ\u00eancia de estradas, por exemplo, variou de forma consider\u00e1vel entre as esp\u00e9cies, nem sempre acompanhando a categoria ecol\u00f3gica em que estavam inseridas. Em alguns casos, a proximidade de rodovias se mostrou mais amea\u00e7adora do que o previsto; em outros, os animais pareciam contornar essas barreiras com mais habilidade. Para Bejarano, isso refor\u00e7a a ideia de que, embora a classifica\u00e7\u00e3o em grupos seja \u00fatil, a realidade no campo \u00e9 sempre mais complexa, com exce\u00e7\u00f5es que precisam ser consideradas na hora de formular estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Da ca\u00e7a na mata ao gado na porteira<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em condi\u00e7\u00f5es ideais, grandes felinos mant\u00eam uma dieta composta por presas nativas, como capivaras, veados, jacar\u00e9s e outros animais que vivem nos ambientes onde evolu\u00edram. A floresta, os campos naturais e as \u00e1reas alagadas fornecem n\u00e3o apenas alimento, mas tamb\u00e9m ref\u00fagio, corredores de deslocamento e \u00e1reas de descanso. Por\u00e9m, quando esses ambientes s\u00e3o fragmentados, degradados por minera\u00e7\u00e3o, substitu\u00eddos por monoculturas ou cortados por obras de infraestrutura, a oferta de presas diminui sensivelmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesses momentos, alguns felinos come\u00e7am a se aproximar das bordas de fazendas, galp\u00f5es, currais e galinheiros. Bezerros rec\u00e9m-nascidos, por exemplo, podem se tornar alvos tentadores para uma on\u00e7a debilitada pela escassez de presas na mata. Assim, conflitos com c\u00e3es de guarda e com humanos armados tornam-se mais frequentes. A paisagem fragmentada funciona como um empurr\u00e3o silencioso que leva esses animais a atravessarem cercas e entrarem em \u00e1reas onde o risco de repres\u00e1lia \u00e9 alto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escassez de trechos cont\u00ednuos de vegeta\u00e7\u00e3o nativa \u00e9, portanto, um dos grandes obst\u00e1culos \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de felinos de grande porte no Brasil. N\u00e3o se trata apenas da perda de territ\u00f3rio, mas da quebra de uma rede complexa de rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas: quando as presas somem ou mudam seu padr\u00e3o de movimento, os predadores s\u00e3o obrigados a segui-las, mesmo que isso signifique encarar estradas, propriedades rurais e ambientes muito mais expostos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conflitos no campo e mudan\u00e7as na percep\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se, por um lado, a paisagem vem se tornando mais hostil para as on\u00e7as, por outro, a rela\u00e7\u00e3o dos produtores com esses animais tamb\u00e9m passou por transforma\u00e7\u00f5es ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Ra\u00edssa Sep\u00falveda Alves, mestre pelo IB da Unesp de Rio Claro, bi\u00f3loga de campo da ONG Panthera Brasil e coautora do estudo, lembra que, h\u00e1 cerca de quinze anos, o cen\u00e1rio era bem mais tenso. Em muitas regi\u00f5es, qualquer morte de gado, ainda que causada por doen\u00e7a ou acidentes, era automaticamente atribu\u00edda \u00e0s on\u00e7as, o que resultava em persegui\u00e7\u00f5es e abates recorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o tempo, por\u00e9m, iniciativas de manejo, programas de educa\u00e7\u00e3o ambiental e novas oportunidades econ\u00f4micas come\u00e7aram a alterar essa l\u00f3gica. Manuais com orienta\u00e7\u00f5es para proteger o rebanho, como recolher animais durante a noite em currais mais afastados da mata, refor\u00e7ar cercas, instalar cercas el\u00e9tricas e monitorar bezerros em estruturas protegidas, mostraram que medidas relativamente simples podem reduzir de forma significativa a preda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, atividades econ\u00f4micas alternativas, como o turismo de observa\u00e7\u00e3o de on\u00e7as em regi\u00f5es como Porto Jofre, \u00e0s margens do Rio Cuiab\u00e1, ajudaram a mudar a imagem desses felinos junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local. \u00c0 medida que observar e fotografar on\u00e7as se tornou fonte de renda, muitos moradores passaram a enxergar esses animais n\u00e3o como inimigos, mas como patrim\u00f4nio vivo. De certa forma, as on\u00e7as passaram a valer mais vivas do que mortas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, a conviv\u00eancia est\u00e1 longe de ser simples. Bejarano lembra que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds continental, com uma enorme diversidade cultural, econ\u00f4mica e social. Cada comunidade rural, cada grupo de produtores, cada regi\u00e3o lida com a presen\u00e7a de grandes felinos de maneira pr\u00f3pria. Em alguns lugares, a morte de um animal silvestre \u00e9 vista como solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica; em outros, a presen\u00e7a da fauna \u00e9 entendida como parte da identidade do territ\u00f3rio. Por isso, n\u00e3o existe uma f\u00f3rmula \u00fanica para garantir coexist\u00eancia: qualquer pol\u00edtica de conserva\u00e7\u00e3o precisa levar em conta essas diferen\u00e7as de vis\u00e3o, medo, tradi\u00e7\u00e3o e expectativa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando as presas mudam de rota e o estresse aumenta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As press\u00f5es sobre os felinos n\u00e3o v\u00eam apenas dos humanos. As pr\u00f3prias presas desses carn\u00edvoros tamb\u00e9m modificam seus comportamentos em paisagens cada vez mais iluminadas, barulhentas e recortadas. Estudos mostram que animais como cervos e outros mam\u00edferos de m\u00e9dio porte tendem a buscar \u00e1reas mais abertas e claras, como bordas de estradas ou terrenos alterados, na tentativa de evitar emboscadas em mata fechada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, esse deslocamento das presas gera um efeito cascata. Sem encontr\u00e1-las com facilidade dentro da floresta, on\u00e7as e outros felinos s\u00e3o, pouco a pouco, empurrados para perto de estradas, lavouras e \u00e1reas de pastagem. Mesmo quando n\u00e3o ocorre um atropelamento ou um confronto direto, a simples necessidade de ca\u00e7ar e se alimentar nessas \u00e1reas tem consequ\u00eancias menos vis\u00edveis, mas muito s\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Experimentos com caixas de som, por exemplo, mostram que ru\u00eddos de origem humana \u2014 caminh\u00f5es, motos, motores de barcos, vozes \u2014 provocam rea\u00e7\u00f5es de estresse bem mais intensas nesses animais do que sons naturais, como coaxar de r\u00e3s ou o canto de insetos. Assim, as refei\u00e7\u00f5es em ambientes muito ruidosos tendem a ser mais r\u00e1pidas, incompletas e tensas. Os n\u00edveis de cortisol no sangue ficam elevados por per\u00edodos mais longos, o que, a m\u00e9dio e longo prazo, pode afetar a sa\u00fade, a reprodu\u00e7\u00e3o e a expectativa de vida desses felinos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em biomas como o Pantanal, onde menos de 5% da \u00e1rea est\u00e1 inserida em unidades de conserva\u00e7\u00e3o formalmente protegidas, esse quadro \u00e9 ainda mais delicado. A maior parte da paisagem est\u00e1 nas m\u00e3os de propriedades privadas; por isso, qualquer estrat\u00e9gia de conserva\u00e7\u00e3o passa necessariamente pelo di\u00e1logo com produtores, pela cria\u00e7\u00e3o de incentivos econ\u00f4micos e pela constru\u00e7\u00e3o de uma cultura de coexist\u00eancia que v\u00e1 al\u00e9m da simples proibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O poder dos dados abertos e das an\u00e1lises em larga escala<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por tr\u00e1s de todo o refinamento das an\u00e1lises ecol\u00f3gicas, h\u00e1 um elemento que vem ganhando cada vez mais protagonismo: a disponibilidade de dados abertos. Ra\u00edssa Sep\u00falveda, que hoje tamb\u00e9m \u00e9 doutoranda em Ecologia na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), conhece em detalhes o esfor\u00e7o envolvido em cada registro. Monitorar jaguatiricas durante anos com <em>camera traps<\/em>, instalar colares de GPS em indiv\u00edduos para acompanhar seus deslocamentos, enfrentar calor extremo, alagamentos, nuvens de mosquitos e longas dist\u00e2ncias em campo faz parte da rotina de quem coleta essas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, um dos m\u00e9ritos do estudo liderado por Bejarano foi justamente aproveitar de maneira criativa material que j\u00e1 existia, mas que muitas vezes permanecia subutilizado. Armadilhas fotogr\u00e1ficas instaladas para estudar antas, por exemplo, acabam registrando on\u00e7as, jaguatiricas e outros felinos. Quando esses dados s\u00e3o compartilhados em plataformas abertas, tornam-se mat\u00e9ria-prima para novos trabalhos, capazes de responder a perguntas diferentes das originalmente formuladas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bejarano ressalta que as an\u00e1lises empregadas no artigo s\u00e3o, em ess\u00eancia, relativamente simples e podem ser adaptadas para outras esp\u00e9cies e regi\u00f5es do Brasil. Contudo, elas revelam com clareza algo que costuma passar despercebido: a exist\u00eancia de enormes vazios de informa\u00e7\u00e3o, particularmente em biomas como a Amaz\u00f4nia. Muitas \u00e1reas seguem praticamente sem registros sistem\u00e1ticos, seja porque a log\u00edstica de pesquisa \u00e9 complexa, seja porque os dados n\u00e3o s\u00e3o disponibilizados de forma aberta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, o estudo que mapeou 14,3 mil observa\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas lan\u00e7a luz sobre o comportamento de grandes felinos em um pa\u00eds em r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m evidencia o quanto ainda precisamos avan\u00e7ar em monitoramento, compartilhamento de informa\u00e7\u00f5es e integra\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, produtores rurais e pol\u00edticas p\u00fablicas. Afinal, quanto melhor compreendermos o caminho que esses animais percorrem, maiores ser\u00e3o as chances de garantir que on\u00e7as, jaguatiricas e outros felinos continuem a circular, silenciosos, pelos fragmentos de natureza que insistem em sobreviver ao nosso redor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os grandes felinos brasileiros, como a on\u00e7a-pintada, a on\u00e7a-parda e a jaguatirica, s\u00e3o animais moldados por milhares de anos de evolu\u00e7\u00e3o em ambientes cont\u00ednuos de mata, campos naturais e \u00e1reas alagadas. Eles precisam de extens\u00f5es amplas de habitat preservado para ca\u00e7ar, se reproduzir e circular com seguran\u00e7a. Entretanto, a expans\u00e3o acelerada da agropecu\u00e1ria e de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":990012,"featured_media":30768,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[708],"tags":[],"ppma_author":[395],"class_list":["post-32685","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eco-clima-sustentabilidade","author-mel-maria"],"authors":[{"term_id":395,"user_id":990012,"is_guest":0,"slug":"mel-maria","display_name":"Mel Maria","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/50961e0508195fe342670c9ee218e6ab1b2463b7a360c03c14a381ba6a4ca049?s=96&d=mm&r=g","author_category":"2","first_name":"","last_name":"","user_url":"","job_title":"","description":"<b>Mel Maria<\/b> \u00e9 uma <b>jardineira e empreendedora<\/b> com mais de <b>10 anos de experi\u00eancia<\/b> no cultivo e com\u00e9rcio de plantas em <b>Curitiba<\/b>. Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32685"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32685\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32686,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32685\/revisions\/32686"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30768"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32685"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=32685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}