{"id":32764,"date":"2025-12-09T11:11:50","date_gmt":"2025-12-09T14:11:50","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=32764"},"modified":"2026-06-07T09:26:02","modified_gmt":"2026-06-07T12:26:02","slug":"inseticidas-naturais-ganham-terreno-no-campo-e-desafiam-o-dominio-dos-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/inseticidas-naturais-ganham-terreno-no-campo-e-desafiam-o-dominio-dos-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"Inseticidas naturais ganham terreno no campo e desafiam o dom\u00ednio dos agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<div class=\"lightweight-accordion bordered\"><details><summary class=\"lightweight-accordion-title\"><span>Resumo<\/span><\/summary><div class=\"lightweight-accordion-body\"><ul>\n<li>O avan\u00e7o dos bioinsumos transforma a agricultura brasileira ao oferecer alternativas sustent\u00e1veis para o controle de pragas e fortalecimento das plantas, com apoio de empresas e centros de pesquisa.<\/li>\n<li>A nova legisla\u00e7\u00e3o de bioinsumos, somada a linhas de cr\u00e9dito e agiliza\u00e7\u00e3o de registro, impulsiona o setor e amplia o acesso de agricultores a tecnologias biol\u00f3gicas.<\/li>\n<li>Pesquisas revelam microrganismos capazes de melhorar toler\u00e2ncia \u00e0 seca, ativar defesas naturais das plantas e reduzir a depend\u00eancia de insumos qu\u00edmicos tradicionais.<\/li>\n<li>O controle biol\u00f3gico avan\u00e7a com fungos, bact\u00e9rias, ferom\u00f4nios e insetos ben\u00e9ficos, consolidando estrat\u00e9gias mais eficientes e integradas ao manejo agr\u00edcola.<\/li>\n<li>O desempenho dos bioinsumos depende da intera\u00e7\u00e3o com o microbioma do solo, tornando o manejo integrado e a sa\u00fade do solo fatores decisivos para bons resultados.\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div><\/details><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A busca por uma agricultura capaz de produzir em alta escala sem ampliar os danos ambientais vem empurrando o setor para uma mudan\u00e7a de paradigma. Ao mesmo tempo em que consumidores pressionam por alimentos com menos res\u00edduos qu\u00edmicos, produtores rurais passam a olhar com aten\u00e7\u00e3o para os chamados bioinsumos, insumos de origem biol\u00f3gica que atuam tanto no controle de pragas quanto na nutri\u00e7\u00e3o e no equil\u00edbrio do solo. Assim, inseticidas naturais e biofertilizantes \u00e0 base de microrganismos come\u00e7am a disputar espa\u00e7o com os agrot\u00f3xicos sint\u00e9ticos, deixando de ser um nicho experimental para ocupar posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica nas principais cadeias produtivas do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o se trata apenas de substituir uma mol\u00e9cula qu\u00edmica por outra, de origem biol\u00f3gica, mas de redesenhar a forma como se pensa o manejo de pragas e doen\u00e7as. Empresas de diferentes portes, muitas em parceria estreita com centros de pesquisa, v\u00eam lan\u00e7ando formula\u00e7\u00f5es baseadas em bact\u00e9rias e fungos que ajudam a conter insetos, nematoides e pat\u00f3genos, ao mesmo tempo em que favorecem o crescimento dos cultivos e melhoram o aproveitamento de nutrientes. N\u00e3o por acaso, multinacionais que tradicionalmente constru\u00edram suas fortunas com agrot\u00f3xicos e fertilizantes sint\u00e9ticos passaram a investir pesado em plantas industriais de bioinsumos no Brasil, sinalizando que a disputa por esse mercado est\u00e1 apenas come\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dos qu\u00edmicos aos biol\u00f3gicos: mudan\u00e7a com ganhos ambientais e econ\u00f4micos<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica que orienta tanto os defensivos qu\u00edmicos quanto os biol\u00f3gicos \u00e9, em ess\u00eancia, a mesma: proteger a lavoura, reduzir as perdas e sustentar a produtividade. Entretanto, os caminhos para alcan\u00e7ar esse objetivo s\u00e3o bem diferentes. Os agrot\u00f3xicos de origem sint\u00e9tica, formulados a partir de mol\u00e9culas espec\u00edficas, agem com rapidez, por\u00e9m deixam um legado de res\u00edduos em \u00e1gua, solo e alimentos. J\u00e1 os bioinsumos atuam com base em microrganismos vivos ou em metab\u00f3litos produzidos por eles, interagindo com o ambiente e com as plantas de forma mais complexa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"287\" src=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/RPF-bioinsumos-2025-12-info2-1140-1024x287.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-32765\" srcset=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/RPF-bioinsumos-2025-12-info2-1140-1024x287.png 1024w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/RPF-bioinsumos-2025-12-info2-1140-300x84.png 300w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/RPF-bioinsumos-2025-12-info2-1140-768x216.png 768w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/RPF-bioinsumos-2025-12-info2-1140-150x42.png 150w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/RPF-bioinsumos-2025-12-info2-1140-750x211.png 750w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/RPF-bioinsumos-2025-12-info2-1140.png 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Alexandre Affonso\u2009\/\u2009Revista Pesquisa FAPESP<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da imagem de que produtos biol\u00f3gicos seriam necessariamente mais caros, estudos comparativos mostram que a diferen\u00e7a de custo tende a ser pequena quando se observa o sistema de produ\u00e7\u00e3o como um todo. Em cultivos como a soja, por exemplo, o uso de bioinsumos para tratar sementes, controlar fungos ou melhorar a efici\u00eancia no aproveitamento de nutrientes pode representar um acr\u00e9scimo inferior a 1% em rela\u00e7\u00e3o a estrat\u00e9gias baseadas apenas em insumos qu\u00edmicos, ao mesmo tempo em que reduz o risco de contamina\u00e7\u00e3o de recursos h\u00eddricos e da pr\u00f3pria colheita. Al\u00e9m disso, a ado\u00e7\u00e3o de ferramentas biol\u00f3gicas abre espa\u00e7o para um manejo mais integrado, que diminui a depend\u00eancia exclusiva de mol\u00e9culas sint\u00e9ticas e ajuda a retardar o avan\u00e7o da resist\u00eancia de pragas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, h\u00e1 problemas fitossanit\u00e1rios que ainda desafiam tanto os qu\u00edmicos quanto os biol\u00f3gicos, como doen\u00e7as complexas em culturas estrat\u00e9gicas, caso da vassoura-de-bruxa na mandioca em \u00e1reas da regi\u00e3o Norte. Esses gargalos evidenciam que, embora a fronteira dos bioinsumos avance rapidamente, o campo ainda est\u00e1 longe de uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica e definitiva, exigindo combina\u00e7\u00f5es inteligentes de tecnologias e pr\u00e1ticas de manejo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nova legisla\u00e7\u00e3o e incentivo p\u00fablico: a Lei de Bioinsumos em a\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se por muito tempo os bioinsumos circularam em uma esp\u00e9cie de zona cinzenta regulat\u00f3ria, enquadrados nas mesmas normas de agrot\u00f3xicos e fertilizantes qu\u00edmicos, o Brasil decidiu, recentemente, abrir uma trilha espec\u00edfica para essa categoria. A Lei n\u00ba 15.070, conhecida como Lei de Bioinsumos, publicada em 2024, estabeleceu regras pr\u00f3prias para produ\u00e7\u00e3o, registro e comercializa\u00e7\u00e3o de produtos biol\u00f3gicos, al\u00e9m de dar um empurr\u00e3o importante \u00e0 pr\u00e1tica on-farm, em que o pr\u00f3prio produtor fabrica bioinsumos para uso na propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mudan\u00e7a jur\u00eddica foi rapidamente acompanhada por medidas concretas. No in\u00edcio de 2025, o Minist\u00e9rio da Agricultura e Pecu\u00e1ria aprovou dezenas de novos registros de bioinsumos, refletindo um processo de avalia\u00e7\u00e3o mais \u00e1gil e adaptado \u00e0s particularidades de microrganismos e seus derivados. Paralelamente, linhas de financiamento espec\u00edficas surgiram para viabilizar pequenos e m\u00e9dios projetos, incluindo recursos n\u00e3o reembols\u00e1veis destinados a cooperativas da agricultura familiar que desejam produzir e utilizar bioinsumos com foco na autonomia tecnol\u00f3gica e na redu\u00e7\u00e3o de custos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse conjunto de a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas se soma \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o de um mercado j\u00e1 bastante aquecido. Centenas de empresas, desde startups de biotecnologia at\u00e9 multinacionais consolidadas, atuam hoje nesse segmento, seja com produtos pr\u00f3prios, seja licenciando tecnologias desenvolvidas por institui\u00e7\u00f5es de pesquisa. O resultado \u00e9 uma malha de inova\u00e7\u00e3o que conecta laborat\u00f3rios, unidades produtivas e, por fim, as lavouras.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/natureza\/apos-meses-de-baixa-atividade-diversos-insetos-voltam-a-se-multiplicar-quando-as-condicoes-ambientais-se-tornam-favoraveis\/\">Ap\u00f3s meses de baixa atividade, diversos insetos voltam a se multiplicar quando as condi\u00e7\u00f5es ambientais se tornam favor\u00e1veis.<\/a><\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Microrganismos da Caatinga e o avan\u00e7o dos biofertilizantes<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro dessa revolu\u00e7\u00e3o silenciosa, uma linha de pesquisa que ganhou destaque recente \u00e9 a dos biofertilizantes capazes de mitigar o estresse h\u00eddrico. A partir de explora\u00e7\u00f5es em ambientes onde a vida vegetal se adaptou \u00e0 escassez extrema de \u00e1gua, pesquisadores passaram a buscar microrganismos com habilidades especiais. Foi assim que, ao investigar ra\u00edzes de mandacaru na Caatinga, o engenheiro-agr\u00f4nomo Itamar Soares de Melo, da Embrapa Meio Ambiente, identificou uma bact\u00e9ria do g\u00eanero Bacillus com um comportamento particularmente interessante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de an\u00e1lises mais detalhadas, observou-se que essa bact\u00e9ria produzia um l\u00edquido viscoso, rico em a\u00e7\u00facares, que se acumulava junto \u00e0s ra\u00edzes e ajudava a reduzir os impactos da falta de \u00e1gua, criando uma esp\u00e9cie de microambiente protetor. A descoberta, inicialmente pensada para combater a desertifica\u00e7\u00e3o, acabou abrindo caminho para uma categoria de biofertilizantes voltados \u00e0 toler\u00e2ncia \u00e0 seca. Licenciada para a iniciativa privada, a tecnologia originou um produto que, poucos anos ap\u00f3s seu lan\u00e7amento, j\u00e1 estava presente em extensas \u00e1reas de milho, demonstrando como solu\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas podem ser escaladas em grandes culturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A experi\u00eancia n\u00e3o ficou restrita a um \u00fanico produto. Novas formula\u00e7\u00f5es, baseadas em outras linhagens de Bacillus isoladas de ambientes semi\u00e1ridos, v\u00eam sendo testadas e lan\u00e7adas para culturas como soja e milho, refor\u00e7ando a ideia de que a biodiversidade brasileira, sobretudo em biomas historicamente pouco valorizados, guarda um patrim\u00f4nio gen\u00e9tico com potencial enorme para a agricultura de baixo carbono.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fungos aliados: controle biol\u00f3gico que vai al\u00e9m das pragas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se bact\u00e9rias se destacam em biofertilizantes e promotores de crescimento, os fungos ocupam papel central no controle biol\u00f3gico de pragas e doen\u00e7as. Para o engenheiro-agr\u00f4nomo \u00cdtalo Delalibera Jr., da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP (Esalq-USP), a contribui\u00e7\u00e3o dos fungos entomopatog\u00eanicos \u2013 aqueles que atacam insetos \u2013 ultrapassa bastante a imagem de um \u201cinseticida vivo\u201d. Ele explica que esp\u00e9cies como Beauveria e Metarhizium, al\u00e9m de infectarem pragas diretamente, podem colonizar a planta e ativar mecanismos de defesa sist\u00eamicos, estimulando a produ\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios ligados ao crescimento e \u00e0 absor\u00e7\u00e3o de nutrientes, al\u00e9m de aumentar a resili\u00eancia \u00e0 seca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa vis\u00e3o mais ampla do papel dos microrganismos levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de centros dedicados exclusivamente a pesquisas em controle biol\u00f3gico e bioinsumos, caso de estruturas como o Sparcbio, sediado na Esalq, que re\u00fane pesquisadores e empresas em torno do desenvolvimento de produtos comerciais. A partir de cole\u00e7\u00f5es com milhares de isolados de fungos e bact\u00e9rias, equipes multidisciplinares selecionam linhagens, testam formula\u00e7\u00f5es, avaliam desempenho em campo e ajustam processos industriais para garantir qualidade e efic\u00e1cia em larga escala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse trabalho surgem bioinseticidas voltados ao controle de pragas de grande impacto econ\u00f4mico, como cigarrinhas em cereais e lagartas pol\u00edfagas que atacam diferentes culturas. Al\u00e9m disso, bioestimulantes \u00e0 base de bact\u00e9rias selecionadas t\u00eam sido desenvolvidos para melhorar vigor de plantas e reduzir a press\u00e3o de nematoides, atuando como uma camada adicional de prote\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio no sistema produtivo.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/agro\/ufpr-revela-novo-alerta-sobre-fosforo-em-areas-umidas\/\">UFPR revela novo alerta sobre f\u00f3sforo em \u00e1reas \u00famidas<\/a><\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Soja, fixa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e a consolida\u00e7\u00e3o dos bioinsumos<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a explos\u00e3o recente de bioinseticidas e biofertilizantes pare\u00e7a algo novo, a hist\u00f3ria dos insumos biol\u00f3gicos na agricultura brasileira remonta ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando pesquisadores come\u00e7aram a investigar microrganismos capazes de controlar pragas em culturas como o caf\u00e9. Entretanto, foi apenas a partir da segunda metade do s\u00e9culo passado que a percep\u00e7\u00e3o sobre o potencial econ\u00f4mico dessas ferramentas come\u00e7ou a mudar de forma consistente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um marco decisivo foi a consolida\u00e7\u00e3o da fixa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de nitrog\u00eanio na cultura da soja, baseada em bact\u00e9rias como Bradyrhizobium e Azospirillum brasilense. Ao demonstrar que esses microrganismos poderiam suprir boa parte da necessidade de nitrog\u00eanio das plantas, reduzindo drasticamente a depend\u00eancia de fertilizantes qu\u00edmicos importados, pesquisadores da Embrapa mostraram que solu\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas n\u00e3o eram apenas alternativas ecol\u00f3gicas, mas instrumentos poderosos de competitividade. Gra\u00e7as \u00e0 ado\u00e7\u00e3o em larga escala desses inoculantes, milh\u00f5es de hectares passaram a se beneficiar de uma forma mais sustent\u00e1vel de nutrir o solo, com impacto econ\u00f4mico bilion\u00e1rio ao longo das d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, segundo especialistas, a soja continua sendo a cultura que mais utiliza bioinsumos, principalmente bioinoculantes e bioinseticidas. Estimativas apontam que boa parte das \u00e1reas produtivas do pa\u00eds j\u00e1 emprega algum tipo de tecnologia biol\u00f3gica, seja no tratamento de sementes, seja no manejo de pragas ao longo do ciclo. Assim, o que come\u00e7ou como uma aposta vision\u00e1ria se transformou em pilar da agricultura moderna, com reconhecimento internacional e pr\u00eamios concedidos a pesquisadores brasileiros que ajudaram a consolidar essa trajet\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Controle biol\u00f3gico em escala: vespinhas, ferom\u00f4nios e novas estrat\u00e9gias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto bact\u00e9rias fixadoras de nitrog\u00eanio e fungos ben\u00e9ficos dominam o notici\u00e1rio dos bioinsumos, uma outra frente igualmente importante se fortaleceu nas \u00faltimas d\u00e9cadas: o uso de insetos ben\u00e9ficos e ferom\u00f4nios para controle de pragas. Programas de manejo com vespinhas do g\u00eanero Trichogramma, por exemplo, foram aperfei\u00e7oados para atacar ovos de pragas em culturas como a cana-de-a\u00e7\u00facar, reduzindo significativamente o uso de inseticidas qu\u00edmicos em milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a pesquisa com ferom\u00f4nios sexuais \u2013 subst\u00e2ncias qu\u00edmicas produzidas por insetos para comunica\u00e7\u00e3o e acasalamento \u2013 resultou em produtos comerciais capazes de atrair machos para armadilhas, monitorar popula\u00e7\u00f5es e, em muitos casos, interferir no ciclo reprodutivo de pragas como besouros e brocas de citros e outras culturas perenes. Essas ferramentas, embora menos vis\u00edveis para o grande p\u00fablico, tornaram-se pe\u00e7as centrais em programas de manejo integrado, nos quais a combina\u00e7\u00e3o de monitoramento, controle biol\u00f3gico e uso racional de qu\u00edmicos permite manter pragas abaixo do n\u00edvel de dano econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um epis\u00f3dio que ilustra a virada de chave em favor dos biol\u00f3gicos ocorreu em 2013, durante uma forte infesta\u00e7\u00e3o da lagarta Helicoverpa armigera. Diante da aus\u00eancia de mol\u00e9culas qu\u00edmicas espec\u00edficas, a solu\u00e7\u00e3o mais eficaz encontrada em muitos casos veio de agentes biol\u00f3gicos, o que despertou a aten\u00e7\u00e3o de produtores e revendas para a necessidade de diversificar a caixa de ferramentas no controle de pragas. Ali\u00e1s, foi a partir desse momento que in\u00fameros agricultores passaram a incluir bioinsumos de maneira sistem\u00e1tica em seus planos de manejo.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/agro\/irrigacao-no-ponto-certo-reduz-emissoes-do-trigo-no-cerrado-em-ate-50\/\">Irriga\u00e7\u00e3o no ponto certo reduz emiss\u00f5es do trigo no Cerrado em at\u00e9 50%<\/a><\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mercado em expans\u00e3o, fus\u00f5es e desafios de inova\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a demanda crescente no campo, o mercado de bioinsumos se tornou alvo de grandes movimentos empresariais. Fabricantes especializados em defensivos biol\u00f3gicos foram adquiridos por grupos internacionais, fundos de investimento ampliaram participa\u00e7\u00e3o em empresas de biotecnologia agr\u00edcola e marcas tradicionais de fertilizantes e defensivos qu\u00edmicos passaram a lan\u00e7ar suas pr\u00f3prias linhas biol\u00f3gicas. Compras bilion\u00e1rias, amplia\u00e7\u00e3o de portf\u00f3lios e abertura de novas plantas industriais evidenciam que o setor deixou de ser perif\u00e9rico na estrat\u00e9gia das grandes corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, esse crescimento acelerado traz tamb\u00e9m uma tens\u00e3o importante: a necessidade de inovar de verdade. Apesar da diversidade de produtos nas prateleiras, muitos especialistas observam que boa parte do mercado continua concentrada em um conjunto relativamente restrito de microrganismos cl\u00e1ssicos, como Bacillus, Trichoderma e alguns fungos entomopatog\u00eanicos. Por isso, pesquisadores e empreendedores t\u00eam buscado combina\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas de bact\u00e9rias e fungos, bem como metab\u00f3litos espec\u00edficos com a\u00e7\u00e3o sobre nematoides, fungos de solo e outras amea\u00e7as menos \u00f3bvias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, empresas de biotecnologia de menor porte, fundadas por cientistas, v\u00eam encontrando espa\u00e7o para desenvolver formula\u00e7\u00f5es originais e negociar parcerias com ind\u00fastrias maiores. A l\u00f3gica \u00e9 simples: centros de pesquisa oferecem acesso a cole\u00e7\u00f5es microbianas e conhecimento de base; empresas estruturadas aportam capacidade de produ\u00e7\u00e3o, registro e distribui\u00e7\u00e3o. Contudo, manter o equil\u00edbrio entre escala, qualidade e inova\u00e7\u00e3o permanece como um dos grandes desafios para os pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mol\u00e9culas, g\u00e9is e o futuro dos defensivos naturais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma tend\u00eancia promissora dentro do universo dos bioinsumos \u00e9 o desenvolvimento de produtos baseados n\u00e3o apenas no microrganismo em si, mas em mol\u00e9culas produzidas por ele. Lipopolissacar\u00eddeos, enzimas e outros compostos podem ser extra\u00eddos, purificados e formulados em vers\u00f5es est\u00e1veis, como g\u00e9is transl\u00facidos ou l\u00edquidos concentrados, capazes de ativar defesas naturais das plantas e reduzir a severidade de doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Experimentos recentes com extratos produzidos por bact\u00e9rias fitopatog\u00eanicas, por exemplo, mostraram que determinados componentes da parede celular desses microrganismos podem, quando aplicados em doses adequadas, acionar respostas de resist\u00eancia em culturas como tomate, diminuindo o avan\u00e7o de manchas foliares e o\u00eddio. Sendo assim, o que tradicionalmente era visto apenas como \u201cvil\u00e3o\u201d passa a ser, em condi\u00e7\u00f5es controladas, fonte de princ\u00edpios ativos \u00fateis \u00e0 pr\u00f3pria planta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Projetos desse tipo avan\u00e7am em parceria entre institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e empresas interessadas em investir nos testes de campo e nos processos necess\u00e1rios para registro e produ\u00e7\u00e3o em escala. A expectativa \u00e9 que, \u00e0 medida que esses produtos cheguem ao mercado, o portf\u00f3lio de defensivos naturais se torne ainda mais diversificado, superando a vis\u00e3o de que bioinsumo \u00e9 sin\u00f4nimo apenas de \u201cbact\u00e9ria em garrafa\u201d ou \u201cfungo em p\u00f3\u201d.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/noticias\/a-forca-do-solo-vivo-como-a-saude-do-solo-molda-o-futuro-da-agricultura-brasileira\/\">A for\u00e7a do solo vivo: como a sa\u00fade do solo molda o futuro da agricultura brasileira<\/a><\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando o bioinsumo funciona \u2013 e quando frustra o produtor<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do entusiasmo e dos n\u00fameros crescentes de ado\u00e7\u00e3o, um ponto sens\u00edvel ainda incomoda muitos agricultores: a aparente irregularidade de resultados. Em algumas propriedades, bioinsumos apresentam desempenho consistente safra ap\u00f3s safra. Em outras, produtos semelhantes falham em controlar doen\u00e7as ou pragas de forma satisfat\u00f3ria, gerando frustra\u00e7\u00e3o e desconfian\u00e7a. Segundo pesquisadores da \u00e1rea, essa oscila\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fruto de acaso, mas da complexidade do ambiente onde esses organismos s\u00e3o colocados para atuar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O engenheiro-agr\u00f4nomo Rodrigo Mendes, da Embrapa Meio Ambiente, tem se dedicado justamente a entender o papel do microbioma do solo nessa equa\u00e7\u00e3o. Ele destaca que, ao serem aplicados, bact\u00e9rias e fungos presentes em bioinsumos \u201cinvadem\u201d comunidades microbianas j\u00e1 estabelecidas, que podem ou n\u00e3o aceitar bem esses novos integrantes. Diferen\u00e7as sutis na composi\u00e7\u00e3o do solo, no hist\u00f3rico de manejo e at\u00e9 na forma de aplica\u00e7\u00e3o podem determinar se o microrganismo introduzido ser\u00e1 capaz de se instalar, produzir metab\u00f3litos ben\u00e9ficos e exercer o efeito desejado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em trabalhos conduzidos no exterior e no Brasil, Mendes e colaboradores demonstraram que solos com microbiomas mais diversos tendem a oferecer uma primeira linha de defesa importante \u00e0s plantas, reduzindo a incid\u00eancia de doen\u00e7as radiculares. Entretanto, em alguns cen\u00e1rios, inoculantes biol\u00f3gicos mostraram efeitos mais intensos justamente em solos com diversidade microbiana reduzida, onde havia \u201cespa\u00e7o ecol\u00f3gico\u201d para ocupar. Esses resultados deixam claro que a intera\u00e7\u00e3o entre bioinsumo e microbioma \u00e9 decisiva e, por isso, n\u00e3o se pode avaliar um produto biol\u00f3gico isoladamente, sem considerar o contexto em que ele ser\u00e1 aplicado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, pesquisas atuais caminham para uma vis\u00e3o mais integradora, em que o manejo do solo \u2013 com rota\u00e7\u00e3o de culturas, uso de mat\u00e9ria org\u00e2nica e redu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas degradantes \u2013 \u00e9 visto como parte insepar\u00e1vel da estrat\u00e9gia de uso de bioinsumos. Ao equilibrar o microbioma, o produtor aumenta as chances de que bact\u00e9rias e fungos ben\u00e9ficos encontrem condi\u00e7\u00f5es adequadas para atuar, tornando mais previs\u00edveis os resultados em campo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A busca por uma agricultura capaz de produzir em alta escala sem ampliar os danos ambientais vem empurrando o setor para uma mudan\u00e7a de paradigma. 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