{"id":33608,"date":"2026-01-30T18:44:50","date_gmt":"2026-01-30T21:44:50","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=33608"},"modified":"2026-06-07T09:31:24","modified_gmt":"2026-06-07T12:31:24","slug":"cerrado-guarda-plantas-centenarias-sob-o-solo-revela-estudo-cientifico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/cerrado-guarda-plantas-centenarias-sob-o-solo-revela-estudo-cientifico\/","title":{"rendered":"Cerrado guarda plantas centen\u00e1rias sob o solo, revela estudo cient\u00edfico"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 primeira vista, os campos do Cerrado sudestino podem parecer vazios. A vegeta\u00e7\u00e3o raramente ultrapassa a altura do joelho, composta por capins, ervas e arbustos discretos que se estendem sob o c\u00e9u aberto. Entretanto, essa paisagem aparentemente simples esconde um patrim\u00f4nio biol\u00f3gico de impressionante longevidade. Sob a superf\u00edcie do solo, ra\u00edzes centen\u00e1rias permanecem vivas, registrando silenciosamente a hist\u00f3ria ambiental do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisas conduzidas por cientistas brasileiros no \u00e2mbito do projeto Biota Campos revelaram que diversas plantas rasteiras do Cerrado ultrapassam 100 anos de idade. Algumas alcan\u00e7am, inclusive, 136 anos. O dado surpreende porque, acima do solo, essas esp\u00e9cies parecem jovens e fr\u00e1geis. Contudo, a verdadeira idade n\u00e3o est\u00e1 no broto vis\u00edvel, mas na estrutura subterr\u00e2nea que sustenta sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Herbocronologia: a ci\u00eancia que conta os anos das plantas pequenas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para chegar a essa descoberta, os pesquisadores aplicaram de forma sistem\u00e1tica a herbocronologia, um ramo da dendrocronologia dedicado ao estudo da idade de plantas de pequeno porte. Tradicionalmente, a idade das \u00e1rvores \u00e9 estimada pela contagem dos an\u00e9is de crescimento no tronco. J\u00e1 nas plantas campestres, esse processo ocorre nas ra\u00edzes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em estudo publicado na revista <em>Dendrochronologia<\/em>, mais de 200 indiv\u00edduos de 107 esp\u00e9cies foram analisados em \u00e1reas de Cerrado e Mata Atl\u00e2ntica. Embora a maioria apresentasse menos de dez anos, as amostras do Cerrado revelaram ra\u00edzes com mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cAquela planta tem a altura do meu joelho. Eu falava: \u2018Ah, ela deve ter nascido de semente cinco anos atr\u00e1s, queimou e brotou\u2019. Pensar que ela tinha mais de 100 anos? Jamais\u201d<\/em>, relata Giselda Durigan, engenheira florestal e l\u00edder do projeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a pesquisadora, o equ\u00edvoco comum est\u00e1 em confundir a idade do broto com a idade da planta. A parte a\u00e9rea pode queimar, secar ou rebrotar diversas vezes ao longo das d\u00e9cadas. Entretanto, a estrutura subterr\u00e2nea permanece ativa, funcionando como um n\u00facleo resiliente que atravessa gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ra\u00edzes como arquivos clim\u00e1ticos<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como os troncos das \u00e1rvores, as ra\u00edzes dessas plantas produzem tecido lenhoso capaz de formar an\u00e9is anuais. Em esp\u00e9cies suficientemente desenvolvidas, esses an\u00e9is tornam-se vis\u00edveis ap\u00f3s corte e lixamento. Em plantas menores, entretanto, foi necess\u00e1rio recorrer a t\u00e9cnicas microsc\u00f3picas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No segundo estudo, publicado na revista <em>Flora<\/em>, os pesquisadores utilizaram corantes espec\u00edficos para diferenciar celulose e lignina sob microscopia. Essa varia\u00e7\u00e3o qu\u00edmica permitiu distinguir an\u00e9is verdadeiros \u2014 formados pela altern\u00e2ncia entre per\u00edodos de chuva e seca \u2014 de an\u00e9is falsos, causados por eventos clim\u00e1ticos at\u00edpicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cA quantidade de casacos que ela vai colocando seria a quantidade de invernos que ela passou\u201d<\/em>, explica Tiago Marcilio Gomes Pinto, engenheiro florestal envolvido na pesquisa, ao comparar os an\u00e9is a camadas sucessivas de vestimentas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em apenas cinco cent\u00edmetros de raiz, alguns indiv\u00edduos acumulavam mais de cinquenta anos de crescimento. Essa densidade temporal transforma cada fragmento subterr\u00e2neo em um registro hist\u00f3rico detalhado. Como destaca Cl\u00e1udia Fontana, respons\u00e1vel pelo estudo, <em>\u201co anel de crescimento cont\u00e9m todo o hist\u00f3rico de vida da planta: quando nasceu, em que ritmo cresceu e como o ambiente afetou esse crescimento\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob essa \u00f3tica, as ra\u00edzes tornam-se instrumentos de leitura clim\u00e1tica. An\u00e9is mais estreitos podem indicar anos de estiagem severa. Altera\u00e7\u00f5es abruptas podem sinalizar doen\u00e7as ou perturba\u00e7\u00f5es ambientais. Comparando indiv\u00edduos de uma mesma \u00e1rea, \u00e9 poss\u00edvel reconstruir padr\u00f5es hist\u00f3ricos de clima com precis\u00e3o surpreendente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fogo, resili\u00eancia e adapta\u00e7\u00e3o evolutiva<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A longevidade das plantas campestres est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 sua adapta\u00e7\u00e3o ao fogo. Nos campos do Cerrado, inc\u00eandios peri\u00f3dicos fazem parte da din\u00e2mica natural. A parte a\u00e9rea \u00e9 consumida, mas as gemas protegidas sob o solo garantem o rebrote.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c\u00c9 como um tamp\u00e3o que protege essa estrutura l\u00e1 embaixo. Inclusive \u00e9 ali que est\u00e3o guardadas as gemas que v\u00e3o rebrotar\u201d<\/em>, explica Cl\u00e1udia Fontana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa estrat\u00e9gia ecol\u00f3gica permite que o Cerrado sobreviva a dist\u00farbios recorrentes. Como resume Durigan, <em>\u201co Cerrado \u00e9 t\u00e3o poderoso que ele n\u00e3o morre com fogo. Ele perde as folhas que queimam, mas continua l\u00e1 com as mesmas plantas\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, esses ecossistemas desempenham papel fundamental na recarga h\u00eddrica. Campos naturais funcionam como \u00e1reas de infiltra\u00e7\u00e3o, alimentando nascentes que abastecem grande parte das bacias hidrogr\u00e1ficas brasileiras. A substitui\u00e7\u00e3o desses ambientes por monoculturas ou expans\u00e3o urbana compromete diretamente essa fun\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Campos naturais sob amea\u00e7a silenciosa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de sua relev\u00e2ncia, os campos naturais ainda sofrem invisibilidade institucional. Muitas vezes s\u00e3o interpretados como \u00e1reas degradadas que deveriam ser reflorestadas. Entretanto, essa percep\u00e7\u00e3o ignora sua antiguidade e complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2021, pesquisadores internacionais publicaram o manifesto <em>Combatting global grassland degradation<\/em>, alertando para a degrada\u00e7\u00e3o global dos campos naturais. No Brasil, o Biota Campos j\u00e1 identificou que a extens\u00e3o desses ecossistemas em S\u00e3o Paulo \u00e9 o dobro do que indicavam mapeamentos oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cNem o mapeamento oficial do estado e nem o MapBiomas acertaram na interpreta\u00e7\u00e3o das imagens. Foi um erro gigante\u201d<\/em>, afirma Durigan, destacando a necessidade de aprimorar pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal amea\u00e7a atualmente \u00e9 a convers\u00e3o do solo para agricultura intensiva, silvicultura de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas e expans\u00e3o imobili\u00e1ria. Como a legisla\u00e7\u00e3o ambiental tende a priorizar \u00e1reas com \u00e1rvores, muitos campos permanecem desprotegidos juridicamente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um horizonte cient\u00edfico que se amplia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aplica\u00e7\u00e3o da herbocronologia aos campos brasileiros inaugura uma nova fronteira cient\u00edfica. At\u00e9 ent\u00e3o, a reconstru\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica de longo prazo baseava-se principalmente em florestas. Agora, a possibilidade de correlacionar an\u00e9is radiculares com eventos clim\u00e1ticos hist\u00f3ricos amplia o escopo de pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cAgora, sabendo que essas plantas podem passar de um s\u00e9culo, abre-se um horizonte para correlacionar o crescimento dessas ra\u00edzes com as varia\u00e7\u00f5es de clima ao longo desses 136 anos ou mais\u201d<\/em>, afirma Durigan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, o que parecia um campo vazio revela-se um arquivo biol\u00f3gico sofisticado. Sob o solo do Cerrado, pequenas plantas guardam registros silenciosos de seca, chuva, fogo e transforma\u00e7\u00e3o ambiental. Ali\u00e1s, ao reconhecer essa longevidade, amplia-se tamb\u00e9m a urg\u00eancia de conservar esses ecossistemas que, embora discretos na paisagem, sustentam a mem\u00f3ria viva do bioma brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 primeira vista, os campos do Cerrado sudestino podem parecer vazios. A vegeta\u00e7\u00e3o raramente ultrapassa a altura do joelho, composta por capins, ervas e arbustos discretos que se estendem sob o c\u00e9u aberto. Entretanto, essa paisagem aparentemente simples esconde um patrim\u00f4nio biol\u00f3gico de impressionante longevidade. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33608"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33610,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33608\/revisions\/33610"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33609"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33608"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=33608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}