{"id":34010,"date":"2026-02-20T10:22:37","date_gmt":"2026-02-20T13:22:37","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=34010"},"modified":"2026-06-07T09:31:24","modified_gmt":"2026-06-07T12:31:24","slug":"planta-desaparecida-ha-mais-de-100-anos-e-redescoberta-no-litoral-paulista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/planta-desaparecida-ha-mais-de-100-anos-e-redescoberta-no-litoral-paulista\/","title":{"rendered":"Planta desaparecida h\u00e1 mais de 100 anos \u00e9 redescoberta no litoral paulista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma esp\u00e9cie vegetal que havia desaparecido dos registros cient\u00edficos por mais de um s\u00e9culo voltou a ser encontrada na Ilha de Alcatrazes, no litoral norte de S\u00e3o Paulo. O reaparecimento da <em>Begonia larorum<\/em>, considerada localmente extinta desde a d\u00e9cada de 1920, n\u00e3o apenas surpreendeu pesquisadores como tamb\u00e9m reacendeu discuss\u00f5es sobre conserva\u00e7\u00e3o e resili\u00eancia ecol\u00f3gica em ambientes isolados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O registro foi feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em parceria com o Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro durante expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas recentes. A planta havia sido descrita originalmente a partir de exemplares coletados pelo zo\u00f3logo alem\u00e3o Hermann Luederwaldt no in\u00edcio do s\u00e9culo passado e, desde ent\u00e3o, nunca mais havia sido observada na natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O achado foi posteriormente detalhado em artigo cient\u00edfico publicado na revista <em>Oryx \u2013 The International Journal of Conservation<\/em>, reunindo informa\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas sobre a distribui\u00e7\u00e3o, caracter\u00edsticas estruturais e estado de conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A redescoberta come\u00e7ou com um \u00fanico indiv\u00edduo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A busca pela flora da ilha fazia parte de um levantamento bot\u00e2nico mais amplo coordenado pelo professor F\u00e1bio Pinheiro, da Unicamp, dentro de um projeto financiado pela Fapesp iniciado em 2022. Apesar da exist\u00eancia de um plano de manejo para a regi\u00e3o, n\u00e3o havia uma lista flor\u00edstica atualizada das esp\u00e9cies presentes em Alcatrazes \u2014 uma lacuna importante para a conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi durante uma expedi\u00e7\u00e3o em fevereiro de 2024 que o bot\u00e2nico Gabriel Sabino encontrou o primeiro sinal da sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. O indiv\u00edduo estava em uma \u00e1rea de sub-bosque na face sul da ilha e sequer apresentava flores naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cToda vez antes de come\u00e7ar as expedi\u00e7\u00f5es eu revisitava a esp\u00e9cie descrita na d\u00e9cada de 1920 para treinar meu olho e, talvez, encontr\u00e1-la. Eu fiquei surpreso. Encontramos um indiv\u00edduo s\u00f3, sem flor, e conseguimos fazer cinco clones e cultiv\u00e1-los no laborat\u00f3rio na Unicamp\u201d<\/em>, relatou Sabino.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O reencontro parecia improv\u00e1vel. Mas n\u00e3o era o fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meses depois, novas expedi\u00e7\u00f5es revelaram uma pequena popula\u00e7\u00e3o composta por 19 indiv\u00edduos, sendo a maioria j\u00e1 em fase reprodutiva. O cen\u00e1rio mudou completamente a percep\u00e7\u00e3o sobre a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. O que parecia um resqu\u00edcio isolado revelou-se um n\u00facleo populacional ativo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Isolamento pode ter salvado a esp\u00e9cie<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Ilha de Alcatrazes, localizada a cerca de 35 quil\u00f4metros do continente, integra desde 2017 a Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Tupinamb\u00e1s e o Ref\u00fagio de Vida Silvestre do Arquip\u00e9lago de Alcatrazes, \u00e1reas protegidas administradas pelo ICMBio. Nem sempre foi assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante d\u00e9cadas, a regi\u00e3o sofreu impactos ambientais significativos. Houve ocupa\u00e7\u00e3o desordenada, introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas e, nos anos 1970, treinamentos militares com disparos que provocaram inc\u00eandios e altera\u00e7\u00f5es na vegeta\u00e7\u00e3o local. Essas mudan\u00e7as favoreceram plantas invasoras, como o capim-gordura, reduzindo drasticamente o espa\u00e7o dispon\u00edvel para esp\u00e9cies nativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, a <em>Begonia larorum<\/em> resistiu. Em sil\u00eancio. Fora das \u00e1reas mais acess\u00edveis da ilha.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cA localiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o fica na face sul da ilha, em um lugar onde quase ningu\u00e9m vai, e ela tem uma distribui\u00e7\u00e3o restrita. Talvez por isso tenha resistido aos impactos ambientais\u201d<\/em>, explica Sabino.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O isolamento geogr\u00e1fico, que muitas vezes aumenta o risco de extin\u00e7\u00e3o, neste caso pode ter funcionado como prote\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma planta diferente das parentes do continente<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O reaparecimento permitiu observar caracter\u00edsticas nunca documentadas com precis\u00e3o. Como havia poucos exemplares preservados em cole\u00e7\u00f5es bot\u00e2nicas no mundo, informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas sobre morfologia e ecologia permaneciam desconhecidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As an\u00e1lises mostraram que a esp\u00e9cie apresenta adapta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas ao ambiente insular. A planta possui folhas mais lisas, aus\u00eancia de pelos superficiais e ra\u00edzes mais robustas, caracter\u00edsticas associadas \u00e0 sobreviv\u00eancia em ambientes com menor disponibilidade h\u00eddrica. Seu crescimento ocorre pr\u00f3ximo a rochas, indicando h\u00e1bito rup\u00edcola \u2014 uma estrat\u00e9gia comum em plantas que enfrentam solos rasos e condi\u00e7\u00f5es ambientais mais severas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas adapta\u00e7\u00f5es refor\u00e7am a hip\u00f3tese de que popula\u00e7\u00f5es insulares seguem trajet\u00f3rias evolutivas pr\u00f3prias, moldadas por isolamento e press\u00e3o ambiental constante.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A ilha como laborat\u00f3rio do futuro clim\u00e1tico<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A redescoberta vai al\u00e9m da bot\u00e2nica descritiva. Para os pesquisadores, a esp\u00e9cie pode ajudar a compreender como plantas respondem a mudan\u00e7as ambientais de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo F\u00e1bio Pinheiro, os pr\u00f3ximos passos incluem an\u00e1lises filogen\u00e9ticas, estudos biogeogr\u00e1ficos e investiga\u00e7\u00f5es sobre intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, especialmente com polinizadores.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cPretendemos comparar a comunidade vegetal da ilha com a do continente e entender como ela se diferencia. A partir deste ano, tamb\u00e9m iniciaremos estudos sobre intera\u00e7\u00f5es bi\u00f3ticas, principalmente entre a planta e seus polinizadores\u201d<\/em>, afirma o pesquisador.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele destaca que ecossistemas insulares funcionam como modelos naturais para observar efeitos semelhantes aos previstos nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cA ilha \u00e9 como um laborat\u00f3rio de como ser\u00e1 o planeta no futuro. Talvez a forma como essas plantas sobrevivem j\u00e1 indique quais estrat\u00e9gias ser\u00e3o importantes para mitigar impactos ambientais\u201d<\/em>, explica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Redescoberta da Begonia larorum amplia o entendimento cient\u00edfico sobre evolu\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia ambiental e preserva\u00e7\u00e3o em ecossistemas insulares.<\/p>\n","protected":false},"author":990012,"featured_media":34011,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[705],"tags":[],"ppma_author":[395],"class_list":["post-34010","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo-botanico-ciencia","author-mel-maria"],"authors":[{"term_id":395,"user_id":990012,"is_guest":0,"slug":"mel-maria","display_name":"Mel Maria","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/50961e0508195fe342670c9ee218e6ab1b2463b7a360c03c14a381ba6a4ca049?s=96&d=mm&r=g","author_category":"2","first_name":"","last_name":"","user_url":"","job_title":"","description":"<b>Mel Maria<\/b> \u00e9 uma <b>jardineira e empreendedora<\/b> com mais de <b>10 anos de experi\u00eancia<\/b> no cultivo e com\u00e9rcio de plantas em <b>Curitiba<\/b>. Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34010"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34012,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34010\/revisions\/34012"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34010"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=34010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}