{"id":34387,"date":"2026-03-11T14:42:59","date_gmt":"2026-03-11T17:42:59","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=34387"},"modified":"2026-06-07T09:35:09","modified_gmt":"2026-06-07T12:35:09","slug":"ferramenta-cientifica-transforma-dados-complexos-do-solo-de-manguezais-em-numero-unico-para-gestores-ambientais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/ferramenta-cientifica-transforma-dados-complexos-do-solo-de-manguezais-em-numero-unico-para-gestores-ambientais\/","title":{"rendered":"Ferramenta cient\u00edfica transforma dados complexos do solo de manguezais em n\u00famero \u00fanico para gestores ambientais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil abriga a segunda maior \u00e1rea de manguezal do planeta \u2014 cerca de 1,4 milh\u00e3o de hectares distribu\u00eddos ao longo de toda a faixa costeira \u2014 e ainda assim carecia de uma ferramenta pr\u00e1tica para medir, com precis\u00e3o cient\u00edfica, se esses ecossistemas est\u00e3o funcionando como deveriam. Esse vazio come\u00e7a a ser preenchido por um \u00edndice desenvolvido por pesquisadores brasileiros capaz de traduzir a complexidade bioqu\u00edmica do solo de manguezais em um \u00fanico n\u00famero, acess\u00edvel e utiliz\u00e1vel por gestores ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00cdndice de Sa\u00fade do Solo (ISS), descrito em artigo publicado na revista Scientific Reports, varia numa escala de 0 a 1, onde os valores mais pr\u00f3ximos de 1 indicam solos em plena capacidade funcional. A proposta \u00e9 direta: transformar processos f\u00edsicos, qu\u00edmicos e biol\u00f3gicos altamente espec\u00edficos em uma m\u00e9trica compreens\u00edvel, capaz de orientar decis\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o, restaura\u00e7\u00e3o e monitoramento ambiental.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que o \u00edndice mede \u2014 e por que isso importa<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ISS n\u00e3o foi constru\u00eddo a partir de uma vari\u00e1vel isolada. Ele integra atributos ligados \u00e0 din\u00e2mica do carbono org\u00e2nico no solo, \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias contaminantes por meio de diferentes formas de minerais de ferro e \u00e0 ciclagem de nutrientes, incluindo indicadores biol\u00f3gicos baseados na atividade enzim\u00e1tica de microrganismos presentes no solo. Juntos, esses elementos representam o estado funcional do ecossistema e sua capacidade real de prover servi\u00e7os ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando aplicado no estu\u00e1rio do rio Coc\u00f3, no Cear\u00e1, o \u00edndice revelou contrastes expressivos entre \u00e1reas com hist\u00f3ricos distintos de uso. Manguezais maduros e preservados alcan\u00e7aram ISS m\u00e9dio de 0,99, enquanto \u00e1reas degradadas registraram apenas 0,25. \u00c1reas replantadas h\u00e1 nove e 13 anos apresentaram valores intermedi\u00e1rios de 0,37 e 0,52, respectivamente, o que indica recupera\u00e7\u00e3o gradual e mensur\u00e1vel ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A pesquisa buscou traduzir em n\u00fameros alguns aspectos importantes relacionados \u00e0 sa\u00fade de solos dos manguezais e \u00e0 provis\u00e3o de seus servi\u00e7os ecossist\u00eamicos, tais como sequestro de carbono, imobiliza\u00e7\u00e3o de contaminantes e ciclagem de nutrientes. Montamos a escala de 0 a 1 para acompanhar o restabelecimento ecossist\u00eamico frente ao processo de recupera\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>, explica a gestora ambiental La\u00eds Coutinho Zayas Jimenez, autora da pesquisa e chefe do setor de manguezais na Diretoria de Biodiversidade da Funda\u00e7\u00e3o Florestal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Jimenez, o passo seguinte \u00e9 levar o \u00edndice para a pr\u00e1tica da gest\u00e3o p\u00fablica. <em>&#8220;Meu sonho agora \u00e9 usar o \u00edndice de sa\u00fade do solo em uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Mostrar aos meus pares, os gestores, que \u00e9 poss\u00edvel analisar se o manguezal que passou por recupera\u00e7\u00e3o est\u00e1 produzindo plenamente ou n\u00e3o os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos e em quanto tempo isso acontece.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida n\u00e3o justifica degrada\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos resultados mais relevantes da pesquisa est\u00e1 na desmistifica\u00e7\u00e3o de uma ideia que, por vezes, serve de argumento para minimizar os impactos do desmatamento: a de que os manguezais s\u00e3o resilientes o suficiente para se recuperar sozinhos, independentemente da interven\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor Hermano Melo Queiroz, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP e um dos autores correspondentes do estudo, \u00e9 direto ao avaliar os resultados. <em>&#8220;Como o estudo foi desenvolvido em uma \u00e1rea de recupera\u00e7\u00e3o, os resultados desmistificam a ideia de que o ecossistema \u00e9 resiliente frente a interven\u00e7\u00f5es antr\u00f3picas. Mostramos que pode ser degradado em uma velocidade muito r\u00e1pida. Mas a boa not\u00edcia \u00e9 que o sistema tamb\u00e9m se recupera rapidamente, desde que a restaura\u00e7\u00e3o seja feita de maneira assistida e elaborada, respeitando as condi\u00e7\u00f5es locais do ambiente em que ele est\u00e1 inserido.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jimenez refor\u00e7a o mesmo ponto sob a \u00f3tica da gest\u00e3o: <em>&#8220;Mesmo que o restabelecimento das fun\u00e7\u00f5es do manguezal seja r\u00e1pido, isso n\u00e3o pode ser usado como argumento para n\u00e3o proteger esse ambiente da degrada\u00e7\u00e3o. Observada a retomada de alguns servi\u00e7os ecossist\u00eamicos, entre eles sequestro de carbono e ciclagem de nutrientes, outros, como a conten\u00e7\u00e3o de eros\u00e3o costeira, demoram mais.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, a recupera\u00e7\u00e3o existe, \u00e9 gradual e depende de condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas espec\u00edficas \u2014 e n\u00e3o exime nenhuma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o pr\u00e9via.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Florestas de carbono azul sob press\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os manguezais s\u00e3o chamados de florestas de carbono azul pela capacidade de absorver CO\u2082 da atmosfera e armazen\u00e1-lo no solo por d\u00e9cadas, com efici\u00eancia superior \u00e0 de florestas tropicais convencionais. De acordo com a iniciativa global Mangrove Breakthrough, esses ecossistemas concentram o equivalente a mais de 22 gigatoneladas de CO\u2082. A perda de apenas 1% dos manguezais remanescentes poderia gerar emiss\u00f5es equivalentes \u00e0s de 50 milh\u00f5es de autom\u00f3veis por ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, estimativas indicam que entre 30% e 50% dos manguezais do mundo foram perdidos nos \u00faltimos 50 anos, pressionados pelo desmatamento, expans\u00e3o urbana, polui\u00e7\u00e3o e, mais recentemente, pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2014 com eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e maior frequ\u00eancia de eventos extremos. O Brasil, que det\u00e9m o mais extenso trecho cont\u00ednuo de manguezal do mundo, localizado entre o Amap\u00e1 e o Maranh\u00e3o, concentra uma responsabilidade proporcional \u00e0 sua extens\u00e3o. Mais de 770 esp\u00e9cies de fauna e flora dependem diretamente desses ambientes, que sustentam comunidades pesqueiras ao longo de todo o litoral.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um \u00edndice aberto, adapt\u00e1vel e com pr\u00f3ximos passos definidos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os diferenciais do ISS est\u00e1 sua arquitetura flex\u00edvel. O \u00edndice pode incorporar informa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de cada ecossistema e regi\u00e3o, como dados geoqu\u00edmicos adicionais \u2014 a quantidade de f\u00f3sforo no solo, por exemplo, que em excesso pode indicar contamina\u00e7\u00e3o ou desencadear processos de eutrofiza\u00e7\u00e3o, com prolifera\u00e7\u00e3o de algas, consumo de oxig\u00eanio e perda de biodiversidade aqu\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa adaptabilidade posiciona o ISS como uma ferramenta com potencial de aplica\u00e7\u00e3o nacional, n\u00e3o restrita ao contexto do Cear\u00e1 onde foi originalmente testado. O pr\u00f3ximo passo dos pesquisadores \u00e9 entender qual tipo de carbono est\u00e1 retornando aos solos restaurados \u2014 se mais est\u00e1vel ou de menor dura\u00e7\u00e3o \u2014 o que amplia o valor da ferramenta para o monitoramento de metas clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o estudo originou um novo projeto financiado pela FAPESP, intitulado &#8220;Desvendando a sa\u00fade do solo de manguezais brasileiros&#8221;, que combinar\u00e1 an\u00e1lises laboratoriais de solo, sensoriamento remoto e modelagem espacial para mapear a sa\u00fade dos manguezais em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds e quantificar seu potencial real de sequestro de carbono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho \u00e9 resultado da tese de doutorado de Jimenez no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Solos e Nutri\u00e7\u00e3o de Plantas da Esalq-USP, desenvolvida sob orienta\u00e7\u00e3o do professor Tiago Os\u00f3rio Ferreira, pesquisador com mais de 25 anos de atua\u00e7\u00e3o em manguezais e diretor de dissemina\u00e7\u00e3o do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), da mesma institui\u00e7\u00e3o. O grupo ainda conta com a participa\u00e7\u00e3o do professor Maur\u00edcio Roberto Cherubin, especialista em sa\u00fade dos solos, e do pesquisador Francisco Ruiz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil abriga a segunda maior \u00e1rea de manguezal do planeta \u2014 cerca de 1,4 milh\u00e3o de hectares distribu\u00eddos ao longo de toda a faixa costeira \u2014 e ainda assim carecia de uma ferramenta pr\u00e1tica para medir, com precis\u00e3o cient\u00edfica, se esses ecossistemas est\u00e3o funcionando como deveriam. 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