{"id":34554,"date":"2026-03-23T10:52:16","date_gmt":"2026-03-23T13:52:16","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=34554"},"modified":"2026-06-07T09:35:09","modified_gmt":"2026-06-07T12:35:09","slug":"solo-rio-e-producao-a-agrofloresta-que-esta-reconstruindo-o-vale-do-taquari-apos-as-enchentes-de-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/solo-rio-e-producao-a-agrofloresta-que-esta-reconstruindo-o-vale-do-taquari-apos-as-enchentes-de-2024\/","title":{"rendered":"Solo, rio e produ\u00e7\u00e3o: a agrofloresta que est\u00e1 reconstruindo o Vale do Taquari ap\u00f3s as enchentes de 2024"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As \u00e1guas do Rio Taquari chegaram sem avisar. Em maio de 2024, Arroio do Ouro, pequena comunidade no interior de Estrela, no Vale do Taquari, foi varrida por uma das piores enchentes j\u00e1 registradas no Rio Grande do Sul. Mais de 60 pessoas morreram na regi\u00e3o. Propriedades foram destru\u00eddas. Dunas de areia se formaram sobre lavouras que, at\u00e9 dias antes, produziam gr\u00e3os e leite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fam\u00edlia Mallmann sobreviveu sobre o telhado de casa enquanto a \u00e1gua tomava conta dos 60 hectares \u00e0s margens do rio. Quando as enchentes recuaram, o que ficou foi lodo, detritos, equipamentos destru\u00eddos e um rebanho leiteiro de 30 vacas que produzia 500 litros por dia simplesmente extinto. <em>&#8220;Perdemos rebanho, equipamentos, galp\u00f5es, m\u00e1quinas, m\u00f3veis da casa. Ficamos sem renda&#8221;<\/em>, conta Fernando Mallmann. Seu pai, Jos\u00e9 Luiz, resume o per\u00edodo com uma frase direta: <em>&#8220;Ser agricultor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, estamos acostumados com fases dif\u00edceis, mas essa foi dose.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise foi al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o. Mais de 20 casas desapareceram de Arroio do Ouro. Parte dos moradores foi embora. Galp\u00f5es que n\u00e3o foram reconstru\u00eddos ainda marcam a paisagem. A comunidade que se tornou s\u00edmbolo da cat\u00e1strofe ga\u00facha agora tamb\u00e9m \u00e9 palco de um projeto que tenta unir recupera\u00e7\u00e3o ambiental e retomada econ\u00f4mica por um mesmo caminho: a agrofloresta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A escolha pela agrofloresta<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem dinheiro para recompor o rebanho e com receio de voltar a perder animais em uma eventual nova cheia, os Mallmann decidiram concentrar esfor\u00e7os nos gr\u00e3os. O problema era que as terras da lavoura estavam cobertas de lodo e a mata ciliar \u00e0s margens do rio havia sido arrancada pela for\u00e7a da \u00e1gua. Plantar direto nesse cen\u00e1rio, sem restabelecer a prote\u00e7\u00e3o vegetal, seria assumir um risco estrutural a cada nova temporada de chuvas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sa\u00edda veio em novembro de 2024, quando a propriedade foi escolhida como primeira Unidade de Refer\u00eancia Tecnol\u00f3gica do Plano Recupera Rural RS, uma iniciativa estruturada pelo Minist\u00e9rio da Agricultura por meio da Embrapa, com apoio da Emater\/RS, do Projeto Quintais Org\u00e2nicos de Frutas e da Yara Brasil. A meta era demonstrar que sistemas agroflorestais poderiam, ao mesmo tempo, estabilizar o solo degradado, recompor a vegeta\u00e7\u00e3o ciliar e gerar renda para fam\u00edlias que perderam suas bases produtivas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Estamos propondo um modelo de restaura\u00e7\u00e3o que une produ\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o. O agricultor ajuda a restaurar as margens do rio e, ao mesmo tempo, tem sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o de alimentos&#8221;<\/em>, afirma Ernestino Guarino, pesquisador da Embrapa Clima Temperado respons\u00e1vel pelo projeto.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Planejamento participativo: quando o t\u00e9cnico caminha com o produtor<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho come\u00e7ou meses antes do plantio. Em julho, pesquisadores, t\u00e9cnicos da Emater e os pr\u00f3prios agricultores percorreram juntos a \u00e1rea para mapear os impactos da enchente, identificar os trechos mais vulner\u00e1veis \u00e0s margens do Rio Taquari e entender as expectativas da fam\u00edlia para o futuro da propriedade. Esse processo, chamado de planejamento participativo, \u00e9 o que diferencia o Recupera Rural RS de um simples programa de plantio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A implanta\u00e7\u00e3o seguiu os princ\u00edpios da sucess\u00e3o ecol\u00f3gica, respeitando a l\u00f3gica natural de repovoamento de uma \u00e1rea degradada. Gram\u00edneas, por serem as primeiras esp\u00e9cies a reaparecer ap\u00f3s uma trag\u00e9dia, foram combinadas ao plantio simult\u00e2neo de \u00e1rvores, uma adapta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que acelera o processo de recupera\u00e7\u00e3o sem aguardar cada etapa se completar naturalmente. Nas bordas e margens do rio, foram plantadas esp\u00e9cies nativas como sarandi, maric\u00e1, salso-crioulo e caliandra, para recompor a mata ciliar. O solo recebeu composto org\u00e2nico antes do plantio, preparando o terreno para receber tanto as \u00e1rvores como as culturas produtivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Junto a esse sistema, a fam\u00edlia recebeu 28 \u00e1rvores frut\u00edferas do Projeto Quintais Org\u00e2nicos de Frutas, entre goiabeiras, pitangueiras e laranjeiras. Nas entrelinhas das \u00e1rvores, foram plantados milho, feij\u00e3o, forrageiras e melancia. O modelo garante que, enquanto as \u00e1rvores crescem e a mata ciliar se reestabelece, a fam\u00edlia j\u00e1 obt\u00e9m renda com as culturas anuais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Resultados que j\u00e1 aparecem no campo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fernando Mallmann n\u00e3o precisou esperar muito para ver os primeiros sinais de que a aposta valeria a pena. <em>&#8220;Os p\u00e9s de figo ainda s\u00e3o pequenos, mas v\u00e3o dar uma boa produ\u00e7\u00e3o nesta safra&#8221;<\/em>, comemora. A lavoura de feij\u00e3o, plantada no mesmo sistema, j\u00e1 responde com estande uniforme, algo que parecia distante meses antes, com o solo ainda marcado pelos efeitos da enchente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Guarino ressalta a import\u00e2ncia de mudar a percep\u00e7\u00e3o dos produtores sobre a vegeta\u00e7\u00e3o \u00e0s margens dos rios. <em>&#8220;Depois da trag\u00e9dia, muitos passaram a ter medo de plantar \u00e1rvores perto do rio por acharem que elas podem causar destrui\u00e7\u00e3o se forem levadas pela \u00e1gua. Mas recompor a mata ciliar, a prote\u00e7\u00e3o vegetal, \u00e9 muito importante&#8221;<\/em>, afirma o pesquisador. A l\u00f3gica \u00e9 inversa \u00e0 do senso comum: s\u00e3o justamente as ra\u00edzes das \u00e1rvores que fixam o solo, reduzem a velocidade de escoamento da \u00e1gua e diminuem a eros\u00e3o nas margens durante eventos extremos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O vizinho que viu e quer replicar<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A menos de um quil\u00f4metro da propriedade dos Mallmann, Silvio Ant\u00f4nio Gregory passou dois dias e duas noites sobre o telhado de sua casa durante a enchente. No s\u00edtio de 2,5 hectares, perdeu os bovinos que criava e ainda convive com grandes extens\u00f5es de areia acumulada sobre as terras. Com uma \u00e1rea pequena demais para competir com gr\u00e3os ou para estruturar uma pecu\u00e1ria expressiva, Gregory viu no modelo dos vizinhos uma sa\u00edda concreta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Minha \u00e1rea \u00e9 muito pequena para plantar gr\u00e3os ou fazer uma cria\u00e7\u00e3o maior de animais. Ou mudo de atividade, ou abandono a agricultura. Ent\u00e3o, estou apostando nas frutas&#8221;<\/em>, conta. Ele j\u00e1 est\u00e1 em conversas com a Embrapa e a Emater para estruturar um sistema agroflorestal semelhante, com foco em pomares comerciais de frut\u00edferas. A expectativa \u00e9 de ter um projeto formatado at\u00e9 agosto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso de Gregory aponta para algo que o projeto Recupera Rural RS quer provar: que a experi\u00eancia dos Mallmann n\u00e3o \u00e9 um caso isolado, mas um modelo replic\u00e1vel para as dezenas de propriedades do Vale do Taquari que seguem com solos comprometidos e sem perspectiva clara de retorno \u00e0 produ\u00e7\u00e3o convencional.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A estrutura por tr\u00e1s do projeto<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Plano Recupera Rural RS n\u00e3o se limita \u00e0 agrofloresta dos Mallmann. O plano identifica \u00e1reas priorit\u00e1rias para pesquisa e desenvolvimento no estado, fornece suporte t\u00e9cnico a produtores e agentes p\u00fablicos, apoia pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o a desastres clim\u00e1ticos e trabalha para devolver capacidade produtiva aos sistemas agroalimentares afetados pelas enchentes. A iniciativa conecta Embrapa, Emater\/RS e parceiros da iniciativa privada com governos federal, estadual e municipal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esse plano se soma o programa Opera\u00e7\u00e3o Terra Forte, do governo do Rio Grande do Sul, executado pela Emater. Com investimento inicial de R$ 300 milh\u00f5es do Fundo de Reconstru\u00e7\u00e3o do Estado (Funrigs), o programa estima beneficiar diretamente 15 mil produtores da agricultura familiar e, pela difus\u00e3o tecnol\u00f3gica, pode alcan\u00e7ar at\u00e9 150 mil unidades produtivas. O eixo central \u00e9 o mesmo: recuperar o solo degradado com pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e posicionar a agricultura familiar como protagonista na reconstru\u00e7\u00e3o do estado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que Arroio do Ouro representa para o Rio Grande do Sul<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fernando Mallmann sabe que sua propriedade virou refer\u00eancia e carrega esse peso com clareza. <em>&#8220;Muitas pessoas que foram embora est\u00e3o com depress\u00e3o, gostariam de retornar&#8221;<\/em>, diz. O projeto agroflorestal n\u00e3o \u00e9 apenas uma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para solo degradado. \u00c9, para os moradores que ficaram, uma demonstra\u00e7\u00e3o de que a terra ainda produz, que o risco pode ser gerenciado e que existe caminho para voltar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A combina\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies nativas para prote\u00e7\u00e3o das margens, frut\u00edferas para gera\u00e7\u00e3o de renda e culturas anuais para garantir resultado imediato cria um sistema em que produ\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o deixam de ser objetivos opostos. Para um bioma pressionado por eventos clim\u00e1ticos cada vez mais frequentes, essa l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 apenas sustent\u00e1vel. \u00c9 o que o Vale do Taquari precisava ouvir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As \u00e1guas do Rio Taquari chegaram sem avisar. 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