{"id":34570,"date":"2026-03-24T13:49:55","date_gmt":"2026-03-24T16:49:55","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=34570"},"modified":"2026-05-17T15:59:30","modified_gmt":"2026-05-17T18:59:30","slug":"ipe-roxo-cresce-88-mais-com-terra-preta-da-amazonia-o-que-os-fungos-do-solo-tem-a-ver-com-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/ipe-roxo-cresce-88-mais-com-terra-preta-da-amazonia-o-que-os-fungos-do-solo-tem-a-ver-com-isso\/","title":{"rendered":"Ip\u00ea-roxo cresce 88% mais com terra preta da Amaz\u00f4nia: o que os fungos do solo t\u00eam a ver com isso"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um solo criado h\u00e1 s\u00e9culos por povos pr\u00e9-colombianos na Amaz\u00f4nia est\u00e1 no centro de uma das descobertas mais relevantes para o reflorestamento brasileiro dos \u00faltimos anos. Pequenas quantidades da chamada terra preta da Amaz\u00f4nia (TPA), aplicadas em mudas de ip\u00ea-roxo (<em>Handroanthus avellanedae<\/em>), foram suficientes para aumentar em at\u00e9 88% o di\u00e2metro do tronco e em 55% a altura das plantas nos primeiros 180 dias de campo, em compara\u00e7\u00e3o com mudas que n\u00e3o receberam o tratamento. Os resultados s\u00e3o de uma pesquisa conduzida por cientistas do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de S\u00e3o Paulo (Cena-USP), da Embrapa Amaz\u00f4nia Ocidental e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), publicada na revista cient\u00edfica BMC Ecology and Evolution.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dado chama aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas pelo n\u00famero, mas pelo que ele revela sobre a l\u00f3gica do solo. A terra preta amaz\u00f4nica n\u00e3o superou os substratos convencionais porque tem mais f\u00f3sforo, nitrog\u00eanio ou pot\u00e1ssio. O diferencial est\u00e1 em algo menos vis\u00edvel e muito mais complexo: os microrganismos que ela carrega.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O solo que os povos antigos deixaram para tr\u00e1s<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As terras pretas da Amaz\u00f4nia, tamb\u00e9m conhecidas como terras pretas de \u00edndio (TPI), s\u00e3o forma\u00e7\u00f5es antr\u00f3picas resultado da a\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es pr\u00e9-colombianas que, ao longo de s\u00e9culos, depositaram mat\u00e9ria org\u00e2nica, restos alimentares, ossos e fragmentos de carv\u00e3o vegetal no solo. Esse processo acumulativo gerou um horizonte escuro, f\u00e9rtil e biologicamente ativo que contrasta radicalmente com os Latossolos e Argissolos predominantes na Amaz\u00f4nia, geralmente pobres em nutrientes e com alta acidez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, essas forma\u00e7\u00f5es s\u00e3o protegidas por lei e reguladas pelo Conselho de Gest\u00e3o do Patrim\u00f4nio Gen\u00e9tico (CGen), vinculado ao Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima. O uso direto \u00e9 proibido, mas autorizado para fins cient\u00edficos mediante aprova\u00e7\u00e3o formal, exatamente o caminho percorrido pelos pesquisadores para conduzir o experimento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Estudamos as terras pretas h\u00e1 mais de 20 anos e testamos diversas formas de uso. A ideia \u00e9 entender o que elas t\u00eam de melhor para as \u00e1rvores crescerem mais r\u00e1pido e mais fortes em \u00e1reas degradadas&#8221;<\/em>, afirma Tsai Siu Mui, professora do Cena-USP e coordenadora do projeto financiado pela FAPESP.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Fungos como protagonistas do crescimento<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa partiu de sementes de ip\u00ea-roxo e de paric\u00e1 (<em>Schizolobium amazonicum<\/em>), cultivadas no viveiro da Embrapa Amaz\u00f4nia Ocidental, em Itacoatiara, no Amazonas, em dois tratamentos distintos: terra preta ou fibra de coco. Ap\u00f3s 15 dias, as mudas foram transferidas para \u00e1rea de campo experimental em Manaus, plantadas diretamente no solo, sem aduba\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, sem herbicidas e com manejo manual de plantas daninhas, recebendo apenas \u00e1gua da chuva. Seis meses depois, todas as plantas estavam vivas, mas as diferen\u00e7as de desenvolvimento entre os dois grupos eram expressivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No paric\u00e1, esp\u00e9cie notoriamente adaptada a solos degradados, o crescimento tamb\u00e9m foi positivo, com aumento de 20% na altura e 15% no di\u00e2metro do tronco. A resposta menor em rela\u00e7\u00e3o ao ip\u00ea-roxo tem explica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica: por ser naturalmente mais tolerante a condi\u00e7\u00f5es adversas, o paric\u00e1 demanda menos da microbiota do solo para se desenvolver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise microbiol\u00f3gica revelou que o fator determinante n\u00e3o foi a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica do substrato, mas a diversidade e a qualidade dos fungos presentes. A adi\u00e7\u00e3o de terra preta promoveu um aumento imediato da mat\u00e9ria org\u00e2nica dispon\u00edvel, o que favoreceu a prolifera\u00e7\u00e3o de fungos decompositores capazes de ciclar os nutrientes com mais efici\u00eancia e torn\u00e1-los acess\u00edveis \u00e0s ra\u00edzes das plantas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O determinante n\u00e3o foi a quantidade de nutrientes em si, que n\u00e3o muda muito, mas os microrganismos, que eram bem diferentes, especialmente os fungos. Nas plantas tratadas com terra preta h\u00e1 uma reorganiza\u00e7\u00e3o da microbiota em torno das ra\u00edzes, com um recrutamento mais eficiente de microrganismos ben\u00e9ficos e uma redu\u00e7\u00e3o de pat\u00f3genos&#8221;<\/em>, explica Anderson Santos de Freitas, primeiro autor do estudo e doutor pelo Cena-USP com bolsa da FAPESP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa reorganiza\u00e7\u00e3o da rizosfera, a camada de solo diretamente influenciada pelas ra\u00edzes, \u00e9 um dos aspectos mais significativos do trabalho. A TPA n\u00e3o apenas alimenta a planta: ela cria um ambiente microbiano favor\u00e1vel, recrutando aliados e suprimindo oportunistas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas como horizonte pr\u00e1tico<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O experimento integra um projeto de pesquisa mais amplo sobre feedbacks planta-solo na floresta amaz\u00f4nica e em sistemas agr\u00edcolas no estado do Amazonas. O contexto n\u00e3o poderia ser mais estrat\u00e9gico: o Brasil det\u00e9m o maior passivo de \u00e1reas desmatadas do mundo tropical, e a recupera\u00e7\u00e3o florestal de qualidade ainda esbarra em custos altos, baixo \u00edndice de sobreviv\u00eancia das mudas e crescimento lento nas primeiras fases de estabelecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o desmatamento ocorre, sobretudo para forma\u00e7\u00e3o de pastagens mal manejadas, o solo perde rapidamente sua biota funcional. A diversidade microbiana cai, os ciclos de nutrientes se interrompem e o terreno se torna progressivamente menos capaz de sustentar esp\u00e9cies florestais exigentes. \u00c9 exatamente nesse ponto que a terra preta demonstra seu potencial como ferramenta de restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Quando se desmata, principalmente para pastagem, a tend\u00eancia \u00e9 que o solo seja mal manejado, o que leva a uma perda muito r\u00e1pida de microrganismos e nutrientes. O objetivo \u00e9 recuperar a floresta e os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos nessas \u00e1reas&#8221;<\/em>, destaca Tsai Siu Mui.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ip\u00ea-roxo, esp\u00e9cie com ocorr\u00eancia na Amaz\u00f4nia e na Mata Atl\u00e2ntica, \u00e9 particularmente relevante nesse contexto. Al\u00e9m do valor ecol\u00f3gico como esp\u00e9cie nativa, a madeira do ip\u00ea tem expressivo valor econ\u00f4mico e pode integrar sistemas de explora\u00e7\u00e3o florestal sustent\u00e1vel, tornando o reflorestamento financeiramente vi\u00e1vel para o produtor rural.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Da terra preta ao bioinsumo: o que vem depois<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O experimento durou tr\u00eas anos no total. Os dados publicados correspondem aos primeiros 180 dias, e os pesquisadores j\u00e1 trabalham na an\u00e1lise do per\u00edodo completo, que dever\u00e1 resultar em novos artigos. Paralelamente, o laborat\u00f3rio liderado por Tsai no Cena-USP acumula mais de 200 microrganismos isolados de amostras de terra preta coletadas ao longo de duas d\u00e9cadas de pesquisa. Cada um desses isolados est\u00e1 sendo analisado quanto \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica no solo e nas plantas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo de longo prazo \u00e9 desenvolver solu\u00e7\u00f5es microbiol\u00f3gicas que possam ser reproduzidas em escala, seja por meio da s\u00edntese de inoculantes baseados nos fungos e bact\u00e9rias identificados, seja pela compreens\u00e3o dos processos que permitem recriar as condi\u00e7\u00f5es da TPA em solos degradados. O uso direto das terras pretas continuar\u00e1 proibido e restrito \u00e0 pesquisa cient\u00edfica autorizada, mas as respostas que elas carregam podem, no futuro, ser replicadas e aplicadas em programas de reflorestamento, recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente e sistemas agroflorestais em todo o territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um solo criado h\u00e1 s\u00e9culos por povos pr\u00e9-colombianos na Amaz\u00f4nia est\u00e1 no centro de uma das descobertas mais relevantes para o reflorestamento brasileiro dos \u00faltimos anos. Pequenas quantidades da chamada terra preta da Amaz\u00f4nia (TPA), aplicadas em mudas de ip\u00ea-roxo (Handroanthus avellanedae), foram suficientes para aumentar em at\u00e9 88% o di\u00e2metro do tronco e em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":990012,"featured_media":34571,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[698],"tags":[],"ppma_author":[],"class_list":["post-34570","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jardinagem"],"authors":[{"term_id":395,"user_id":990012,"is_guest":0,"slug":"mel-maria","display_name":"Mel Maria","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/50961e0508195fe342670c9ee218e6ab1b2463b7a360c03c14a381ba6a4ca049?s=96&d=mm&r=g","author_category":"2","first_name":"","last_name":"","user_url":"","job_title":"","description":"<b>Mel Maria<\/b> \u00e9 uma <b>jardineira e empreendedora<\/b> com mais de <b>10 anos de experi\u00eancia<\/b> no cultivo e com\u00e9rcio de plantas em <b>Curitiba<\/b>. Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34570"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34570\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34572,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34570\/revisions\/34572"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34571"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34570"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=34570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}