{"id":34921,"date":"2026-04-16T08:59:11","date_gmt":"2026-04-16T11:59:11","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=34921"},"modified":"2026-06-07T09:35:37","modified_gmt":"2026-06-07T12:35:37","slug":"kungaka-o-lagarto-mais-raro-da-australia-tem-menos-de-20-individuos-e-luta-para-nao-desaparecer-antes-de-ser-estudado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/kungaka-o-lagarto-mais-raro-da-australia-tem-menos-de-20-individuos-e-luta-para-nao-desaparecer-antes-de-ser-estudado\/","title":{"rendered":"Kungaka: o lagarto mais raro da Austr\u00e1lia tem menos de 20 indiv\u00edduos e luta para n\u00e3o desaparecer antes de ser estudado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um lagarto que passou d\u00e9cadas invis\u00edvel para a ci\u00eancia foi finalmente descrito como uma esp\u00e9cie pr\u00f3pria no oeste de Nova Gales do Sul, na Austr\u00e1lia. Ele vive entre os pared\u00f5es de arenito vermelho do Parque Nacional de Mutawintji e \u00e9 conhecido pelos abor\u00edgenes Wiimpatja pelo nome kungaka, que significa &#8220;o oculto&#8221;. Agora batizado oficialmente de <em>Liopholis mutawintji<\/em>, o animal carrega uma hist\u00f3ria de isolamento geogr\u00e1fico que remonta a per\u00edodos muito mais \u00famidos da hist\u00f3ria do continente australiano \u2014 e a sua sobreviv\u00eancia atual depende de a\u00e7\u00f5es urgentes e coordenadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta foi publicada no <em>The Conversation<\/em> por Warlpa Thompson, propriet\u00e1rio abor\u00edgine do Parque Nacional Mutawintji, junto com Jodi Rowley, curadora de Biologia da Conserva\u00e7\u00e3o de Anf\u00edbios e R\u00e9pteis do Museu Australiano, e Thomas Parkin, pesquisadora em Herpetologia da mesma institui\u00e7\u00e3o. Durante anos, acreditava-se que o animal fosse simplesmente uma popula\u00e7\u00e3o isolada do lagarto-de-cauda-branca-do-sul (<em>Liopholis whitii<\/em>), esp\u00e9cie distribu\u00edda por habitats rochosos do sudeste australiano. A reclassifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi poss\u00edvel ap\u00f3s an\u00e1lises gen\u00e9ticas combinadas ao estudo detalhado das varia\u00e7\u00f5es morfol\u00f3gicas do corpo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tr\u00eas esp\u00e9cies onde havia uma<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Por meio da an\u00e1lise de sua gen\u00e9tica e varia\u00e7\u00f5es na forma do corpo, confirmamos que este lagarto \u00e9, na verdade, tr\u00eas esp\u00e9cies distintas. Duas delas ocorrem em grandes \u00e1reas do sudeste da Austr\u00e1lia. A terceira \u2014 o kungaka \u2014 \u00e9 restrita ao Parque Nacional Mutawintji, a cerca de 500 km de seus parentes mais pr\u00f3ximos&#8221;<\/em>, explicam Rowley e Parkin.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica de meio milhar de quil\u00f4metros em rela\u00e7\u00e3o aos parentes mais pr\u00f3ximos n\u00e3o \u00e9 apenas um dado cartogr\u00e1fico: ela revela a trajet\u00f3ria evolutiva do animal. O kungaka representa uma linhagem ancestral que provavelmente se formou quando o continente ainda era mais \u00famido. \u00c0 medida que a Austr\u00e1lia secava progressivamente, a esp\u00e9cie encontrou ref\u00fagio nos ambientes rochosos de Mutawintji, onde permaneceu isolada e, consequentemente, invis\u00edvel para a taxonomia cient\u00edfica por d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Menos de 20 indiv\u00edduos no mundo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que torna a situa\u00e7\u00e3o ainda mais delicada \u00e9 o tamanho estimado da popula\u00e7\u00e3o. Os pesquisadores calculam que existam menos de 20 indiv\u00edduos do kungaka na natureza, todos concentrados em uma pequena e isolada \u00e1rea de desfiladeiro dentro do parque nacional. Essa densidade m\u00ednima coloca a esp\u00e9cie em um dos patamares mais cr\u00edticos dentro da biologia da conserva\u00e7\u00e3o, onde qualquer perturba\u00e7\u00e3o ambiental ou redu\u00e7\u00e3o no sucesso reprodutivo pode ser suficiente para inviabilizar a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali\u00e1s, as amea\u00e7as j\u00e1 est\u00e3o presentes e ativas. Uma das principais \u00e9 o pastejo excessivo de cabras selvagens, que destroem a vegeta\u00e7\u00e3o e pisoteiam as forma\u00e7\u00f5es rochosas das quais o kungaka depende diretamente para abrigo, termorregula\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o contra predadores. Sem essa estrutura rochosa intacta, o animal fica exposto a temperaturas extremas e vulner\u00e1vel a predadores introduzidos, como gatos e raposas. Al\u00e9m disso, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas intensificam a frequ\u00eancia e a severidade das secas na regi\u00e3o, pressionando ainda mais o habitat j\u00e1 limitado da esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A\u00e7\u00e3o integrada como \u00fanica sa\u00edda<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Existe uma responsabilidade compartilhada na prote\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o do kungaka. Precisamos controlar cabras, gatos e raposas, procurar por popula\u00e7\u00f5es adicionais e monitor\u00e1-las a longo prazo. Dado o tamanho extremamente pequeno da popula\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00f5es como a reprodu\u00e7\u00e3o em cativeiro podem ser necess\u00e1rias&#8221;<\/em>, afirmam os autores.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reprodu\u00e7\u00e3o em cativeiro, citada pelos pesquisadores como possibilidade concreta, representa uma medida de seguran\u00e7a utilizada em casos extremos de risco de extin\u00e7\u00e3o. Programas desse tipo j\u00e1 salvaram esp\u00e9cies de r\u00e9pteis australianos de desaparecerem completamente, e a aplica\u00e7\u00e3o dessa estrat\u00e9gia ao kungaka dependeria de um esfor\u00e7o conjunto entre gestores do parque, comunidades abor\u00edgines e institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, o papel dos abor\u00edgenes Wiimpatja vai al\u00e9m do simb\u00f3lico. A pr\u00f3pria nomenclatura popular da esp\u00e9cie veio dessa comunidade, e a gest\u00e3o compartilhada do parque entre o governo e os propriet\u00e1rios tradicionais da terra \u00e9 parte da estrutura que viabiliza qualquer programa de conserva\u00e7\u00e3o eficaz na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A sobreviv\u00eancia deste lagarto singular depender\u00e1 de parcerias colaborativas sustentadas e de longo prazo&#8221;<\/em>, concluem Rowley e Parkin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta do <em>Liopholis mutawintji<\/em> refor\u00e7a o que bi\u00f3logos da conserva\u00e7\u00e3o j\u00e1 sinalizavam: habitats rochosos isolados em zonas \u00e1ridas guardam uma diversidade subestimada, frequentemente invis\u00edvel at\u00e9 que estudos gen\u00e9ticos de alta resolu\u00e7\u00e3o sejam aplicados a popula\u00e7\u00f5es que, \u00e0 primeira vista, parecem conhecidas. No caso do kungaka, o nome escolhido pelos Wiimpatja resumiu, sem querer, d\u00e9cadas de ci\u00eancia: o oculto ficou oculto por tempo demais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um lagarto que passou d\u00e9cadas invis\u00edvel para a ci\u00eancia foi finalmente descrito como uma esp\u00e9cie pr\u00f3pria no oeste de Nova Gales do Sul, na Austr\u00e1lia. Ele vive entre os pared\u00f5es de arenito vermelho do Parque Nacional de Mutawintji e \u00e9 conhecido pelos abor\u00edgenes Wiimpatja pelo nome kungaka, que significa &#8220;o oculto&#8221;. 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