{"id":34933,"date":"2026-04-16T09:11:27","date_gmt":"2026-04-16T12:11:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=34933"},"modified":"2026-06-07T09:35:09","modified_gmt":"2026-06-07T12:35:09","slug":"a-amazonia-que-seca-mais-rapido-do-que-o-previsto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/a-amazonia-que-seca-mais-rapido-do-que-o-previsto\/","title":{"rendered":"A Amaz\u00f4nia que seca mais r\u00e1pido do que o previsto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os modelos clim\u00e1ticos que cientistas constru\u00edam para descrever o futuro da Amaz\u00f4nia come\u00e7aram a se encaixar no presente. Dois estudos liderados por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que a floresta j\u00e1 registra o prolongamento da esta\u00e7\u00e3o seca, a intensifica\u00e7\u00e3o dos d\u00e9ficits h\u00eddricos e o avan\u00e7o do ciclo de degrada\u00e7\u00e3o por fogo \u2014 quadro que, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, era projetado para d\u00e9cadas \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A constata\u00e7\u00e3o parte da engenheira ambiental e sanitarista D\u00e9bora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe e primeira autora dos dois trabalhos. <em>&#8220;H\u00e1 alguns anos, quando come\u00e7amos a discutir cen\u00e1rios clim\u00e1ticos para a Amaz\u00f4nia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Por\u00e9m, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas est\u00e3o acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as proje\u00e7\u00f5es, vemos o qu\u00e3o cr\u00edtica vai ficando essa situa\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que inclu\u00edmos cen\u00e1rios pessimistas na an\u00e1lise clim\u00e1tica&#8221;<\/em>, resume a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Seis meses de seca e d\u00e9ficit h\u00eddrico acima de 150 mil\u00edmetros<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro estudo, publicado no <em>International Journal of Climatology<\/em>, utilizou o m\u00e1ximo d\u00e9ficit h\u00eddrico acumulado \u2014 indicador desenvolvido pelo pesquisador Luiz Arag\u00e3o desde 2007 e considerado refer\u00eancia para medir o estresse h\u00eddrico em ecossistemas tropicais \u2014 cruzado com os dados da fase seis do Projeto de Intercompara\u00e7\u00e3o de Modelos Acoplados. O recorte geogr\u00e1fico foi o sudoeste da Amaz\u00f4nia, abrangendo o Acre e partes do Amazonas e de Rond\u00f4nia, regi\u00e3o onde mais de 90% do territ\u00f3rio ainda mant\u00e9m cobertura florestal, mas que enfrenta press\u00e3o crescente de desmatamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os resultados s\u00e3o diretos: em cen\u00e1rios de altas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, a esta\u00e7\u00e3o seca pode se prolongar de quatro para at\u00e9 seis meses, com d\u00e9ficits h\u00eddricos que ultrapassam -150 mil\u00edmetros no per\u00edodo e que podem chegar a -21 mm\/m\u00eas at\u00e9 o fim do s\u00e9culo no cen\u00e1rio mais pessimista. Esses d\u00e9ficits tendem a se concentrar entre junho e setembro, justamente quando a floresta j\u00e1 est\u00e1 sob maior press\u00e3o. O efeito sobre a vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 direto: maior mortalidade de \u00e1rvores, avan\u00e7o da degrada\u00e7\u00e3o florestal e redu\u00e7\u00e3o da capacidade da Amaz\u00f4nia de funcionar como sumidouro de carbono \u2014 o que, por sua vez, retroalimenta o pr\u00f3prio aquecimento que provoca a seca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores tamb\u00e9m apontam o risco adicional representado por eventos como o El Ni\u00f1o. Em sua vers\u00e3o mais intensa, o fen\u00f4meno pode elevar a temperatura em mais de 2 \u00b0C acima da m\u00e9dia, intensificando as altera\u00e7\u00f5es na circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica e no regime de chuvas em escala global \u2014 e amplificando o que a Amaz\u00f4nia j\u00e1 vem experimentando.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>4,2 milh\u00f5es de hectares e a floresta que n\u00e3o consegue se recuperar<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo trabalho, publicado em mar\u00e7o na <em>Perspectives in Ecology and Conservation<\/em>, analisou a seca extrema registrada entre 2023 e 2024, per\u00edodo em que o El Ni\u00f1o castigou o Brasil com particular intensidade. Os dados mapeiam um crescimento m\u00e9dio de 9% nas \u00e1reas queimadas e de 19% nos alertas de degrada\u00e7\u00e3o florestal, com at\u00e9 4,2 milh\u00f5es de hectares afetados pelo fogo no pico da estiagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O achado mais preocupante n\u00e3o est\u00e1 nos n\u00fameros absolutos, mas no padr\u00e3o que eles revelam: o fogo passou a atingir cada vez mais a floresta em p\u00e9, e n\u00e3o apenas \u00e1reas j\u00e1 desmatadas. Enquanto o desmatamento remove completamente a cobertura vegetal, a degrada\u00e7\u00e3o enfraquece a floresta sem destru\u00ed-la por completo \u2014 reduzindo sua capacidade de se restabelecer e tornando-a ainda mais vulner\u00e1vel \u00e0 pr\u00f3xima seca. O ciclo seca-fogo-degrada\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o apenas se repete. Ele se fortalece a cada rodada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante disso, os pesquisadores defendem uma governan\u00e7a integrada do fogo, que re\u00fana indicadores clim\u00e1ticos aos sistemas de alerta precoce, fortale\u00e7a a coordena\u00e7\u00e3o entre institui\u00e7\u00f5es e incorpore a degrada\u00e7\u00e3o florestal \u2014 e n\u00e3o apenas o desmatamento \u2014 nas estrat\u00e9gias de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ci\u00eancia que chega \u00e0 ponta<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A bi\u00f3loga Liana Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Inpe, coordena o laborat\u00f3rio TREES (<em>Tropical Ecosystems and Environmental Sciences<\/em>) ao lado de Arag\u00e3o. Para ela, as evid\u00eancias acumuladas nas \u00faltimas d\u00e9cadas colocam o Brasil diante de uma escolha concreta. <em>&#8220;Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir at\u00e9 2030. Se colocarmos os esfor\u00e7os nessa dire\u00e7\u00e3o, temos condi\u00e7\u00e3o de atingi-las. \u00c9 preciso pensar na conex\u00e3o entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tr\u00edade indissoci\u00e1vel, seja pelo lado da explora\u00e7\u00e3o ou pelo pre\u00e7o a ser pago pela reconstru\u00e7\u00e3o ap\u00f3s os impactos&#8221;<\/em>, afirma a pesquisadora. Ela tamb\u00e9m ressalta que a crise clim\u00e1tica abre espa\u00e7o para repensar caminhos e acelerar iniciativas sustent\u00e1veis, desde que haja disposi\u00e7\u00e3o de escutar o que a ci\u00eancia vem produzindo h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa disposi\u00e7\u00e3o de aproximar laborat\u00f3rio e campo orienta parte do trabalho desenvolvido pelo grupo. Desde o ano passado, Anderson e Dutra integram a iniciativa &#8220;Fogo em Foco&#8221;, parceria entre for\u00e7as operacionais de combate e preven\u00e7\u00e3o \u2014 incluindo o Corpo de Bombeiros Militar de diferentes estados \u2014 e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa. Em outubro, o laborat\u00f3rio TREES, a Rede Brasa e a Liga dos Corpos de Bombeiros Militares lan\u00e7aram o relat\u00f3rio &#8220;Fogo em Foco 2024-2025&#8221; e o artigo internacional <em>State of Wildfires 2024-2025<\/em>. Em abril deste ano, a continuidade do trabalho conjunto para 2026 foi autorizada.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Essa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de aliar o que a ci\u00eancia consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o quanto de combate. Tentamos costurar ci\u00eancia e a\u00e7\u00f5es na sociedade. Mas ainda h\u00e1 um ponto em que precisamos avan\u00e7ar, que \u00e9 a magnitude do impacto econ\u00f4mico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do pa\u00eds&#8221;<\/em>, diz Anderson.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Consequentemente, Dutra vai aprofundar exatamente esse ponto em sua tese de doutorado: quantificar as perdas econ\u00f4micas derivadas do fogo, integrando quest\u00f5es florestais, de sa\u00fade p\u00fablica e de impacto social. A floresta que seca mais do que o previsto j\u00e1 cobra seu pre\u00e7o. O trabalho agora \u00e9 mostrar, em n\u00fameros, o tamanho da conta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os modelos clim\u00e1ticos que cientistas constru\u00edam para descrever o futuro da Amaz\u00f4nia come\u00e7aram a se encaixar no presente. 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