{"id":35027,"date":"2026-04-23T15:47:05","date_gmt":"2026-04-23T18:47:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35027"},"modified":"2026-06-07T09:35:37","modified_gmt":"2026-06-07T12:35:37","slug":"macacos-em-gibraltar-comem-terra-para-combater-junk-food-de-turistas-e-o-comportamento-alerta-cientistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/macacos-em-gibraltar-comem-terra-para-combater-junk-food-de-turistas-e-o-comportamento-alerta-cientistas\/","title":{"rendered":"Macacos em Gibraltar comem terra para combater junk food de turistas e o comportamento alerta cientistas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O turismo sem controle est\u00e1 deixando marcas vis\u00edveis em uma das popula\u00e7\u00f5es de primatas mais monitoradas do mundo. Em Gibraltar, territ\u00f3rio brit\u00e2nico localizado no extremo sul da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, macacos-da-barb\u00e1ria passaram a ingerir terra de forma recorrente \u2014 e a causa, segundo pesquisadores, est\u00e1 diretamente ligada ao consumo crescente de alimentos ultraprocessados oferecidos por visitantes. O comportamento, registrado ao longo de quase dois anos de observa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, levanta quest\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m da curiosidade zool\u00f3gica: revelam como a interfer\u00eancia humana pode reorganizar h\u00e1bitos alimentares de esp\u00e9cies selvagens de forma profunda e acelerada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00e1tica tem nome t\u00e9cnico: geofagia. Trata-se da ingest\u00e3o volunt\u00e1ria de solo, argila ou minerais por animais e, em alguns casos, por humanos, geralmente associada a car\u00eancias nutricionais ou desequil\u00edbrios digestivos. O que chama aten\u00e7\u00e3o em Gibraltar n\u00e3o \u00e9 o h\u00e1bito em si, documentado em diversas esp\u00e9cies ao redor do mundo, mas o contexto em que ele aparece: com maior frequ\u00eancia justamente entre os grupos de macacos com mais contato direto com turistas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A dieta que n\u00e3o deveria existir<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os macacos-da-barb\u00e1ria de Gibraltar recebem frutas, vegetais e sementes fornecidos pelas autoridades locais. Ainda assim, cerca de 20% da dieta desses animais j\u00e1 \u00e9 composta por produtos industrializados como sorvetes, chocolates, refrigerantes e salgadinhos, consumidos diretamente das m\u00e3os de visitantes ou acessados a partir de lixeiras e restos abandonados no entorno das \u00e1reas tur\u00edsticas. O n\u00famero, por si s\u00f3, j\u00e1 seria preocupante. Aliado ao comportamento de geofagia, ele se torna um indicador de que o organismo dos animais est\u00e1 respondendo ativamente a uma press\u00e3o alimentar que n\u00e3o faz parte da sua biologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pesquisador Sylvain Lemoine, da University of Cambridge, acompanhou o comportamento e aponta o microbioma intestinal como pe\u00e7a central nessa equa\u00e7\u00e3o. Segundo ele, alimentos ultraprocessados alteram o equil\u00edbrio bacteriano no trato digestivo, e os minerais e microrganismos presentes no solo podem atuar na tentativa de restaurar esse funcionamento. <em>&#8220;H\u00e1 ind\u00edcios de que a ingest\u00e3o de terra tenha um efeito protetor, ajudando a recompor o microbioma e a reduzir os impactos negativos dessa alimenta\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>, explicou Lemoine.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os registros refor\u00e7am essa hip\u00f3tese de forma bastante direta: os pesquisadores documentaram epis\u00f3dios em que os animais recorreram \u00e0 ingest\u00e3o de terra logo ap\u00f3s consumir sorvete ou biscoitos. A sequ\u00eancia comportamental sugere uma resposta imediata do organismo, n\u00e3o um h\u00e1bito aleat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O grupo isolado que n\u00e3o come terra<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dado comparativo fortalece ainda mais a rela\u00e7\u00e3o entre junk food e geofagia: um grupo de macacos mantido em \u00e1rea isolada do contato humano, sem acesso a alimentos industrializados, simplesmente n\u00e3o apresentou o comportamento. A aus\u00eancia do h\u00e1bito nesse grupo indica que a geofagia n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica natural da esp\u00e9cie em Gibraltar, mas uma resposta adaptativa ao ambiente alterado pelo turismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, os dados sazonais seguem a mesma l\u00f3gica. Durante o inverno, quando o fluxo de visitantes diminui consideravelmente, houve queda proporcional tanto no consumo de ultraprocessados quanto nos epis\u00f3dios de ingest\u00e3o de solo. A correla\u00e7\u00e3o entre os dois comportamentos, portanto, se manteve consistente ao longo de todo o per\u00edodo de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Adapta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o resolve o problema<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primat\u00f3loga Paula Pebsworth, da University of Texas at San Antonio, reconhece que o comportamento pode funcionar como um mecanismo de adapta\u00e7\u00e3o de curto prazo, mas \u00e9 enf\u00e1tica ao apontar os limites dessa resposta. <em>&#8220;Reduzir ou eliminar a oferta de alimentos humanos \u00e9 a medida mais eficaz&#8221;<\/em>, afirmou a pesquisadora e a afirma\u00e7\u00e3o carrega um peso pr\u00e1tico que vai al\u00e9m da pesquisa cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso porque a geofagia, mesmo que ofere\u00e7a algum al\u00edvio digestivo, n\u00e3o \u00e9 isenta de riscos. Parte da terra consumida pelos macacos est\u00e1 localizada pr\u00f3xima a vias com tr\u00e1fego intenso, onde o solo pode conter metais pesados, res\u00edduos de combust\u00edvel e outros contaminantes urbanos. Alguns indiv\u00edduos foram observados ingerindo terra em condi\u00e7\u00f5es visivelmente degradadas, o que adiciona uma camada de risco \u00e0 sa\u00fade que o pr\u00f3prio comportamento adaptativo n\u00e3o consegue neutralizar. A resposta do organismo, nesse caso, pode estar trocando um problema por outro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que Gibraltar revela sobre o turismo em \u00e1reas naturais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso dos macacos-da-barb\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio isolado nem uma curiosidade pontual. \u00c9 um retrato do que acontece quando a press\u00e3o tur\u00edstica age de forma sistem\u00e1tica sobre popula\u00e7\u00f5es animais sem barreiras efetivas de prote\u00e7\u00e3o. A alimenta\u00e7\u00e3o oferecida por visitantes, muitas vezes percebida como um gesto de afeto ou aproxima\u00e7\u00e3o, reorganiza comportamentos, compromete a sa\u00fade digestiva e for\u00e7a os animais a desenvolver respostas que jamais fariam parte do seu repert\u00f3rio natural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados de Gibraltar indicam que o controle sobre a intera\u00e7\u00e3o entre turistas e animais selvagens precisa ser tratado com a mesma seriedade aplicada \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o de habitats. A geofagia que os macacos desenvolveram pode ser uma resposta criativa do organismo, mas \u00e9 tamb\u00e9m um sinal de que o ambiente ao redor deles j\u00e1 mudou al\u00e9m do que deveriam suportar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O turismo sem controle est\u00e1 deixando marcas vis\u00edveis em uma das popula\u00e7\u00f5es de primatas mais monitoradas do mundo. 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