{"id":35049,"date":"2026-04-24T11:21:44","date_gmt":"2026-04-24T14:21:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35049"},"modified":"2026-06-06T16:13:11","modified_gmt":"2026-06-06T19:13:11","slug":"do-xingu-ao-mercado-o-chocolate-indigena-que-transforma-cacau-nativo-em-renda-e-identidade-no-para","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/do-xingu-ao-mercado-o-chocolate-indigena-que-transforma-cacau-nativo-em-renda-e-identidade-no-para\/","title":{"rendered":"Do Xingu ao mercado: o chocolate ind\u00edgena que transforma cacau nativo em renda e identidade no Par\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o S\u00eddia Wahi\u00fc, que na l\u00edngua do povo Xypaia significa &#8220;mulher forte&#8221;, n\u00e3o foi escolhida por acaso para nomear o primeiro chocolate ind\u00edgena produzido na regi\u00e3o do M\u00e9dio Xingu, no Par\u00e1. Por tr\u00e1s da marca h\u00e1 uma cadeia produtiva que come\u00e7a nas ro\u00e7as manejadas h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, passa pela fermenta\u00e7\u00e3o artesanal das am\u00eandoas e chega \u00e0s prateleiras com 72% de cacau, peda\u00e7os de abacaxi, banana e pitaia, frutas t\u00edpicas da floresta que seguem sendo secadas ao sol, em pedras, exatamente como faziam os av\u00f3s de Katiana Xypaia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Katiana \u00e9 l\u00edder de sua comunidade em Vit\u00f3ria do Xingu e um dos rostos mais emblem\u00e1ticos da 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Chocolat Amaz\u00f4nia, festival que come\u00e7ou nesta quinta-feira (24\/4) em Bel\u00e9m e deve movimentar R$ 15 milh\u00f5es at\u00e9 o domingo, reunindo cerca de 300 produtores, a maioria oriunda da agricultura familiar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A ro\u00e7a que cresceu com a verticaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cultivo de cacau na comunidade de Katiana remonta \u00e0 \u00e9poca do seu av\u00f4, que colhia o fruto, mo\u00eda e preparava o chocolate para a fam\u00edlia, al\u00e9m de fazer licor com o mel do cacau. Com a decis\u00e3o de verticalizar a produ\u00e7\u00e3o, os parentes foram se agregando ao projeto, as ro\u00e7as foram ampliadas e hoje a comunidade maneja 20 mil p\u00e9s de cacau, entre nativos e plantados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A oportunidade de agregar valor com a fabrica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria barra surgiu em 2023, por meio de uma proposta da Coopatrans, cooperativa sediada em Medicil\u00e2ndia que produz chocolate de origem sob a marca Cacauway. No modelo adotado, as am\u00eandoas s\u00e3o fermentadas na pr\u00f3pria comunidade e enviadas para a agroind\u00fastria da cooperativa, onde passam pelo processamento final. Com isso, o cacau passou a ser a principal fonte de renda da comunidade ribeirinha, que tamb\u00e9m comercializa frutas desidratadas como abacaxi e banana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A divis\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 estrat\u00e9gica: metade vira chocolate de origem e outros derivados, 30% \u00e9 comercializado como commodity e o restante \u00e9 negociado com intermedi\u00e1rios. Essa estrutura permite que a comunidade acesse diferentes mercados sem depender exclusivamente das oscila\u00e7\u00f5es de pre\u00e7o da commodity, que nos \u00faltimos 12 meses sofreu uma queda abrupta nas bolsas internacionais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O caminho aberto para o empreendedorismo ind\u00edgena<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de Katiana, que se tornou tamb\u00e9m palestrante em eventos de chocolate pelo pa\u00eds, abriu espa\u00e7o para iniciativas similares. Ap\u00f3s a consolida\u00e7\u00e3o da S\u00eddia Wahi\u00fc, surgiram mais quatro marcas ind\u00edgenas de chocolate no Par\u00e1. Os produtos s\u00e3o vendidos em lojas da Cacauway, em feiras locais como a de Bel\u00e9m e tamb\u00e9m por canais digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A cooperativa re\u00fane 40 fam\u00edlias de agricultores familiares que t\u00eam no cacau sua principal renda. No total, cultivamos 800 hectares em Medicil\u00e2ndia em sistema agroflorestal, com outras frutas integradas ao cacaueiro&#8221;<\/em>, explica Rita Aguiar, produtora de cacau e chocolatier da Cacauway.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Das aproximadamente 800 toneladas de cacau produzidas pelos cooperados, 15 toneladas s\u00e3o destinadas \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o do chocolate &#8220;tree to bar&#8221;, express\u00e3o do segmento que designa o controle completo da cadeia, da colheita \u00e0 barra final. Essa propor\u00e7\u00e3o reflete tanto a capacidade atual da agroind\u00fastria quanto a l\u00f3gica de diversifica\u00e7\u00e3o que garante a viabilidade econ\u00f4mica do conjunto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cacau em queda: o debate que o festival n\u00e3o pode ignorar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O festival acontece em um momento delicado para o mercado cacaueiro. H\u00e1 um ano, o cacau era negociado na Bolsa de Nova York por cerca de US$ 8.000 a tonelada. Atualmente, o pre\u00e7o est\u00e1 na faixa de US$ 3.000, uma retra\u00e7\u00e3o que impacta diretamente o caixa dos produtores brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Par\u00e1, os agricultores recebem das ind\u00fastrias moageiras cerca de R$ 11,20 pelo quilo, valor que no mesmo per\u00edodo de 2025 chegava a R$ 44, segundo cota\u00e7\u00e3o da consultoria Mercado do Cacau. Para quem opera no modelo commodity, essa diferen\u00e7a representa um colapso de receita em menos de 12 meses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;\u00c9 necess\u00e1rio que a gente fa\u00e7a uma revis\u00e3o sobre o cacau como commodity. Temos que ter um produto que impacte na vida dos produtores pagando melhor, estimulando a agroind\u00fastria a buscar o mundo&#8221;<\/em>, afirma Marco Lessa, empres\u00e1rio baiano idealizador e organizador do Chocolat Amaz\u00f4nia, que em 2025 ter\u00e1 edi\u00e7\u00f5es em Ilh\u00e9us, Salvador, Bras\u00edlia, Altamira e em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Lessa, o festival n\u00e3o \u00e9 apenas uma vitrine comercial, mas um ambiente de repositivamento da cadeia, com foco em dar melhores condi\u00e7\u00f5es aos produtores e expandir o modelo brasileiro de cacau fino para os mercados internacionais. A l\u00f3gica \u00e9 a mesma que sustenta o trabalho de Katiana: quanto mais a produ\u00e7\u00e3o se afasta do granel e se aproxima da identidade de origem, menos ela fica ref\u00e9m das oscila\u00e7\u00f5es da bolsa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O sistema agroflorestal como base produtiva e diferencial de mercado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo adotado pela Coopatrans em Medicil\u00e2ndia segue o sistema agroflorestal (SAF), integrando cacaueiros a outras culturas como frutas tropicais. Al\u00e9m de aumentar a biodiversidade no campo e contribuir para a manuten\u00e7\u00e3o do microclima da \u00e1rea, o SAF agrega ao produto final um argumento de origem que o mercado internacional de chocolate fino valoriza cada vez mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rastreabilidade que come\u00e7a nas ro\u00e7as manejadas pelas fam\u00edlias cooperadas, passa pela fermenta\u00e7\u00e3o feita na pr\u00f3pria comunidade e termina no r\u00f3tulo que identifica o territ\u00f3rio de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente o que diferencia o S\u00eddia Wahi\u00fc de um produto an\u00f4nimo de prateleira. Ali\u00e1s, \u00e9 esse conjunto de atributos que permite ao chocolate ind\u00edgena paraense ser precificado fora da l\u00f3gica que hoje corr\u00f3i a renda de quem vende apenas a am\u00eandoa fermentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo demonstra que a agrega\u00e7\u00e3o de valor no cacau n\u00e3o depende de grande escala industrial, mas de organiza\u00e7\u00e3o da cadeia, acesso \u00e0 agroind\u00fastria cooperativa e, sobretudo, de uma identidade de produto que o mercado possa reconhecer e pagar por isso. Para as comunidades ribeirinhas do M\u00e9dio Xingu, esse caminho j\u00e1 est\u00e1 trilhado, com nome, com sabor e com a for\u00e7a de uma mulher que aprendeu a fazer chocolate observando as pedras ao sol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A express\u00e3o S\u00eddia Wahi\u00fc, que na l\u00edngua do povo Xypaia significa &#8220;mulher forte&#8221;, n\u00e3o foi escolhida por acaso para nomear o primeiro chocolate ind\u00edgena produzido na regi\u00e3o do M\u00e9dio Xingu, no Par\u00e1. 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