{"id":35052,"date":"2026-04-24T11:29:22","date_gmt":"2026-04-24T14:29:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35052"},"modified":"2026-06-06T16:13:11","modified_gmt":"2026-06-06T19:13:11","slug":"segunda-safra-de-canola-entra-na-rota-do-combustivel-de-aviacao-com-potencial-de-reduzir-emissoes-em-55","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/segunda-safra-de-canola-entra-na-rota-do-combustivel-de-aviacao-com-potencial-de-reduzir-emissoes-em-55\/","title":{"rendered":"Segunda safra de canola entra na rota do combust\u00edvel de avia\u00e7\u00e3o com potencial de reduzir emiss\u00f5es em 55%"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A avia\u00e7\u00e3o comercial responde por cerca de 2,5% das emiss\u00f5es globais de CO\u2082, e a press\u00e3o por descarboniza\u00e7\u00e3o do setor cresce na mesma velocidade que as metas clim\u00e1ticas internacionais se tornam mais r\u00edgidas. No Brasil, uma resposta a esse desafio come\u00e7a a ganhar forma nos campos de canola cultivados no inverno, ap\u00f3s a colheita da soja. Pesquisadores da Embrapa Agroenergia e da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) conclu\u00edram que o uso do cereal de segunda safra na produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel sustent\u00e1vel de avia\u00e7\u00e3o \u2014 o SAF \u2014 pode reduzir em at\u00e9 55% as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) em compara\u00e7\u00e3o ao querosene f\u00f3ssil convencional, o QAV Jet-A1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo \u00e9 o primeiro a avaliar o desempenho clim\u00e1tico do SAF de canola produzido em condi\u00e7\u00f5es tropicais brasileiras, num sistema de rota\u00e7\u00e3o com soja. Essa especificidade importa. Grande parte da literatura internacional sobre SAF foi constru\u00edda com base em cultivos europeus e norte-americanos, onde a canola \u00e9 cultivada como safra principal, em clima temperado, com din\u00e2micas agron\u00f4micas e de emiss\u00f5es bastante distintas das observadas no Cerrado e no Sul do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O setor a\u00e9reo precisa de alternativas tecnicamente vi\u00e1veis para cumprir metas clim\u00e1ticas globais, e o SAF \u00e9 hoje a principal estrat\u00e9gia de curto e m\u00e9dio prazo. Nosso diferencial foi analisar a canola cultivada como segunda safra no Brasil, em rota\u00e7\u00e3o com a soja, sob condi\u00e7\u00f5es tropicais ainda pouco representadas na literatura internacional&#8221;<\/em>, afirma Giulia Lamas, doutoranda da UnB e colaboradora da Embrapa Meio Ambiente que integrou a equipe de pesquisa.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O ciclo de vida sob an\u00e1lise: da lavoura ao motor do avi\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A metodologia adotada no estudo percorre o ciclo de vida completo do combust\u00edvel, desde o preparo do solo e o cultivo da canola at\u00e9 a queima do SAF na turbina da aeronave. Essa abordagem, conhecida como an\u00e1lise &#8220;do ber\u00e7o ao t\u00famulo&#8221;, \u00e9 a forma mais rigorosa de quantificar o real impacto clim\u00e1tico de um combust\u00edvel, pois contabiliza todas as etapas de produ\u00e7\u00e3o, processamento e uso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A transforma\u00e7\u00e3o do \u00f3leo de canola em combust\u00edvel de avia\u00e7\u00e3o ocorre pela rota Hefa \u2014 sigla em ingl\u00eas para \u00c9steres e \u00c1cidos Graxos Hidroprocessados \u2014, um processo industrial consolidado que converte \u00f3leos vegetais em querosene por meio de hidrotratamento. \u00c9, atualmente, a tecnologia mais madura e comercialmente dispon\u00edvel para produ\u00e7\u00e3o de SAF no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os resultados mostram que a fase agr\u00edcola \u00e9 respons\u00e1vel pela maior fatia das emiss\u00f5es ao longo do ciclo de vida do SAF de canola. O cultivo contribui com aproximadamente 34,2 gramas de CO\u2082 equivalente por megajoule de energia produzida \u2014 um n\u00famero puxado principalmente pelo uso de fertilizantes nitrogenados e pelas emiss\u00f5es de \u00f3xido nitroso (N\u2082O) liberadas pelo solo. J\u00e1 a etapa industrial, com base no uso de hidrog\u00eanio f\u00f3ssil, adiciona cerca de 12,8 g CO\u2082 eq.\/MJ ao balan\u00e7o total.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Hidrog\u00eanio renov\u00e1vel muda o patamar das emiss\u00f5es industriais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito ao impacto da substitui\u00e7\u00e3o do hidrog\u00eanio f\u00f3ssil pelo hidrog\u00eanio renov\u00e1vel, de baixo carbono, na etapa de convers\u00e3o industrial. Quando essa troca \u00e9 feita, as emiss\u00f5es associadas ao processamento caem entre 86% e 94%, o que altera de forma significativa o desempenho clim\u00e1tico do combust\u00edvel final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse dado posiciona a integra\u00e7\u00e3o entre bioenergia e hidrog\u00eanio verde como um dos vetores mais promissores para a descarboniza\u00e7\u00e3o profunda da avia\u00e7\u00e3o. O Brasil, que avan\u00e7a na regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado de hidrog\u00eanio de baixo carbono e disp\u00f5e de abundante gera\u00e7\u00e3o de energia renov\u00e1vel, tem condi\u00e7\u00f5es estruturais para explorar essa combina\u00e7\u00e3o de forma competitiva.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Canola em rota\u00e7\u00e3o n\u00e3o disputa \u00e1rea com a soja<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos argumentos mais recorrentes contra o uso de oleaginosas para biocombust\u00edveis \u00e9 o risco de expans\u00e3o agr\u00edcola sobre \u00e1reas naturais \u2014 o chamado efeito de mudan\u00e7a indireta no uso da terra. No caso da canola brasileira cultivada em segunda safra, esse argumento perde for\u00e7a. A oleaginosa ocupa o intervalo entre a colheita da soja e o in\u00edcio do pr\u00f3ximo ciclo produtivo, aproveitando a infraestrutura j\u00e1 instalada, o solo j\u00e1 corrigido e a m\u00e3o de obra j\u00e1 mobilizada na propriedade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Aqui a canola n\u00e3o entra como cultura principal que disputa \u00e1rea, mas como op\u00e7\u00e3o de segunda safra no inverno e na safrinha, em sistemas integrados de rota\u00e7\u00e3o. Isso melhora o desempenho de sustentabilidade da canola brasileira em rela\u00e7\u00e3o a regi\u00f5es onde \u00e9 cultivada como safra \u00fanica&#8221;<\/em>, destaca Bruno Laviola, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agroenergia e pesquisador respons\u00e1vel pela tropicaliza\u00e7\u00e3o da canola no Brasil.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de n\u00e3o pressionar por novas \u00e1reas, o sistema de rota\u00e7\u00e3o com soja contribui para a sa\u00fade do solo, reduz a incid\u00eancia de pragas e doen\u00e7as e diversifica a renda do produtor ao longo do ano agr\u00edcola \u2014 benef\u00edcios que refor\u00e7am a sustentabilidade do modelo para al\u00e9m do recorte clim\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Fertilizantes nitrogenados seguem como principal gargalo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fase agr\u00edcola responde pela maior parcela das emiss\u00f5es do SAF de canola, e o principal respons\u00e1vel por esse resultado \u00e9 o uso de fertilizantes nitrogenados. A produ\u00e7\u00e3o industrial de nitrog\u00eanio sint\u00e9tico \u00e9 intensiva em energia f\u00f3ssil, e sua aplica\u00e7\u00e3o no solo libera N\u2082O \u2014 um g\u00e1s com potencial de aquecimento global cerca de 300 vezes superior ao do CO\u2082. Reduzir essa pegada \u00e9, portanto, o ponto cr\u00edtico para melhorar o desempenho clim\u00e1tico do combust\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caminho mais direto para isso passa pelos bioinsumos. A substitui\u00e7\u00e3o parcial ou total dos fertilizantes sint\u00e9ticos por inoculantes biol\u00f3gicos, fixadores de nitrog\u00eanio e compostos org\u00e2nicos tem potencial de reduzir tanto as emiss\u00f5es diretas do solo quanto os impactos sobre recursos h\u00eddricos e ecossistemas adjacentes \u00e0s lavouras.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Regula\u00e7\u00e3o ainda limita a escala do SAF no Brasil<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viabilidade t\u00e9cnica do SAF de canola est\u00e1 demonstrada. O que ainda restringe sua ado\u00e7\u00e3o em escala comercial s\u00e3o barreiras regulat\u00f3rias que precisam ser enfrentadas para que o potencial mapeado no estudo se converta em realidade operacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira limita\u00e7\u00e3o \u00e9 o teto de 50% na mistura de SAF produzido a partir de \u00f3leos e gorduras ao querosene de avia\u00e7\u00e3o convencional, uma restri\u00e7\u00e3o estabelecida pelas normas internacionais de certifica\u00e7\u00e3o de aeronaves. A segunda, e talvez mais urgente no contexto brasileiro, \u00e9 a aus\u00eancia da canola na rota Hefa do RenovaBio \u2014 o programa nacional de biocombust\u00edveis gerido pela ANP \u2014, o que impede que produtores e refinarias que usem o cereal como mat\u00e9ria-prima emitam os Cr\u00e9ditos de Descarboniza\u00e7\u00e3o (CBIOs), instrumento central para a viabilidade econ\u00f4mica do SAF nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inclus\u00e3o da canola nessa rota de certifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma demanda t\u00e9cnica e de mercado que, se atendida, abriria caminho para que o cereal de inverno ganhe relev\u00e2ncia tanto na agenda de sustentabilidade da avia\u00e7\u00e3o quanto na rentabilidade das propriedades rurais que j\u00e1 cultivam soja no Centro-Oeste e no Sul do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil produz hoje menos de 5% do SAF consumido globalmente, mas re\u00fane condi\u00e7\u00f5es agron\u00f4micas, energ\u00e9ticas e log\u00edsticas para ocupar uma posi\u00e7\u00e3o muito mais relevante nesse mercado. A canola de segunda safra \u00e9 uma das pe\u00e7as desse tabuleiro \u2014 e o estudo da Embrapa entrega os dados para que essa pe\u00e7a comece a ser movida com respaldo cient\u00edfico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A avia\u00e7\u00e3o comercial responde por cerca de 2,5% das emiss\u00f5es globais de CO\u2082, e a press\u00e3o por descarboniza\u00e7\u00e3o do setor cresce na mesma velocidade que as metas clim\u00e1ticas internacionais se tornam mais r\u00edgidas. 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