{"id":35066,"date":"2026-04-27T12:29:27","date_gmt":"2026-04-27T15:29:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35066"},"modified":"2026-06-06T22:15:55","modified_gmt":"2026-06-07T01:15:55","slug":"peixe-boi-da-amazonia-come-8-do-seu-peso-em-plantas-por-dia-e-isso-pode-resolver-um-problema-serio-na-piscicultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/peixe-boi-da-amazonia-come-8-do-seu-peso-em-plantas-por-dia-e-isso-pode-resolver-um-problema-serio-na-piscicultura\/","title":{"rendered":"Peixe-boi da Amaz\u00f4nia come 8% do seu peso em plantas por dia e isso pode resolver um problema s\u00e9rio na piscicultura"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um viveiro de piscicultura tomado por aguap\u00e9, salv\u00ednia ou alface-d&#8217;\u00e1gua n\u00e3o \u00e9 apenas um problema est\u00e9tico. \u00c9 uma amea\u00e7a direta \u00e0 produtividade, ao oxig\u00eanio dissolvido na \u00e1gua e \u00e0 sa\u00fade dos peixes. Na Amaz\u00f4nia, esse desafio se repete em tanques escavados, canais de irriga\u00e7\u00e3o e reservat\u00f3rios espalhados pelo Par\u00e1, Amazonas, Rond\u00f4nia e demais estados da regi\u00e3o Norte. Contudo, a pr\u00f3pria floresta j\u00e1 desenvolveu, ao longo de mil\u00eanios, um mecanismo eficiente para lidar com esse excesso de vegeta\u00e7\u00e3o aqu\u00e1tica: o peixe-boi da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Trichechus inunguis, \u00fanico sir\u00eanio exclusivamente de \u00e1gua doce das Am\u00e9ricas, consome diariamente at\u00e9 8% do seu peso corporal em plantas aqu\u00e1ticas e semiaqu\u00e1ticas. Para um exemplar adulto de 300 kg, isso representa cerca de 24 kg de vegeta\u00e7\u00e3o removida por dia. Ao longo de sua rotina de forrageamento, a esp\u00e9cie j\u00e1 foi registrada consumindo mais de 50 esp\u00e9cies diferentes de macr\u00f3fitas, o que evidencia uma versatilidade alimentar raramente encontrada entre mam\u00edferos aqu\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O problema das macr\u00f3fitas nos sistemas produtivos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prolifera\u00e7\u00e3o descontrolada de plantas aqu\u00e1ticas em viveiros de piscicultura est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 eutrofiza\u00e7\u00e3o, processo que ocorre quando o excesso de nutrientes \u2014 proveniente de ra\u00e7\u00e3o n\u00e3o consumida, fezes de peixes e aduba\u00e7\u00f5es \u2014 acelera o crescimento vegetal na \u00e1gua. Segundo levantamento da Embrapa Amaz\u00f4nia Oriental publicado na Revista Brasileira de Geografia F\u00edsica, uma \u00fanica esta\u00e7\u00e3o experimental de piscicultura no Par\u00e1 concentrava 82 esp\u00e9cies de macr\u00f3fitas distribu\u00eddas em 58 g\u00eaneros e 38 fam\u00edlias diferentes, com predomin\u00e2ncia de esp\u00e9cies das fam\u00edlias Cyperaceae e Poaceae.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. Quando as macr\u00f3fitas cobrem mais de 25% da superf\u00edcie de um viveiro, os par\u00e2metros limnol\u00f3gicos da \u00e1gua come\u00e7am a se deteriorar: a transpar\u00eancia cai, a penetra\u00e7\u00e3o de luz \u00e9 bloqueada e a concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio dissolvido oscila de forma cr\u00edtica, especialmente no per\u00edodo noturno. Consequentemente, os peixes crescem menos, ficam mais suscet\u00edveis a doen\u00e7as e a carne pode desenvolver sabores indesej\u00e1veis, fen\u00f4meno conhecido como off-flavor. Al\u00e9m disso, esp\u00e9cies como o capim-angola e a salv\u00ednia chegam a obstruir turbinas e dificultar a opera\u00e7\u00e3o de sistemas de abastecimento h\u00eddrico em propriedades rurais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os m\u00e9todos tradicionais de controle incluem retirada mec\u00e2nica manual, uso restrito de herbicidas como o fluridone \u2014 que exige licenciamento ambiental e apresenta riscos ao ecossistema aqu\u00e1tico \u2014 e controle biol\u00f3gico com esp\u00e9cies como carpa-capim, til\u00e1pia-rendalli e pacu. Esse \u00faltimo m\u00e9todo j\u00e1 demonstra resultados, mas demanda aten\u00e7\u00e3o ao manejo para evitar que os pr\u00f3prios controladores gerem novos desequil\u00edbrios no viveiro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como o peixe-boi se torna um jardineiro de precis\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A anatomia do peixe-boi da Amaz\u00f4nia \u00e9 uma obra de especializa\u00e7\u00e3o funcional. Seu focinho \u00e9 voltado para baixo e o l\u00e1bio superior \u00e9 pre\u00eansil e musculoso, funcionando como uma pin\u00e7a biol\u00f3gica capaz de selecionar, arrancar e mastigar ra\u00edzes, folhas e hastes de macr\u00f3fitas com precis\u00e3o. Diferente de herb\u00edvoros ruminantes, o Trichechus inunguis possui metabolismo lento e sistema digestivo adaptado para processar grandes volumes de material vegetal de baixo valor cal\u00f3rico, o que o torna eficiente exatamente no tipo de biomassa que superlota os viveiros.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Ao se alimentar de grandes quantidades de vegeta\u00e7\u00e3o aqu\u00e1tica, os peixes-bois auxiliam no controle do crescimento das plantas e contribuem para a ciclagem de nutrientes dentro dos sistemas fluviais. Essa atividade mant\u00e9m canais e igarap\u00e9s naveg\u00e1veis, evitando que se tornem inacess\u00edveis devido ao ac\u00famulo de plantas&#8221;<\/em>, descreve a Associa\u00e7\u00e3o de Mam\u00edferos Aqu\u00e1ticos (AMPA), que monitora a esp\u00e9cie na Amaz\u00f4nia h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"900\" src=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/peixe-boi-amazonia1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-35068\" srcset=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/peixe-boi-amazonia1.jpg 1000w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/peixe-boi-amazonia1-300x270.jpg 300w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/peixe-boi-amazonia1-768x691.jpg 768w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/peixe-boi-amazonia1-150x135.jpg 150w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/peixe-boi-amazonia1-750x675.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do controle da biomassa vegetal, o animal dispersa sementes de diversas esp\u00e9cies em outros pontos dos rios, promovendo renova\u00e7\u00e3o da flora aqu\u00e1tica de forma natural. Dessa forma, sua presen\u00e7a n\u00e3o elimina as macr\u00f3fitas do sistema, mas regula a densidade delas dentro de um patamar compat\u00edvel com o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Esp\u00e9cie vulner\u00e1vel, conserva\u00e7\u00e3o urgente<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de qualquer debate sobre aplica\u00e7\u00e3o produtiva, \u00e9 necess\u00e1rio compreender o estado de conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. O peixe-boi da Amaz\u00f4nia est\u00e1 classificado como vulner\u00e1vel \u00e0 extin\u00e7\u00e3o pela IUCN e pelo ICMBio. A ca\u00e7a intensa entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1950 para extra\u00e7\u00e3o comercial de carne e gordura dizimou popula\u00e7\u00f5es inteiras em rios como o Solim\u00f5es, Purus e Tapaj\u00f3s. Aliada \u00e0 baixa taxa reprodutiva, com maturidade sexual entre 6 e 10 anos e uma cria por gesta\u00e7\u00e3o, a esp\u00e9cie ainda n\u00e3o se recuperou completamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (INPA), em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Amigos do Peixe-boi (AMPA), mant\u00e9m desde 2018 um programa de reabilita\u00e7\u00e3o e reintrodu\u00e7\u00e3o de animais resgatados do tr\u00e1fico ilegal e de situa\u00e7\u00f5es de risco. Desde ent\u00e3o, 49 animais j\u00e1 foram devolvidos \u00e0 Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel Piaga\u00e7u-Purus, no Amazonas. Em 2019, uma soltura simult\u00e2nea de 12 exemplares foi considerada a maior da hist\u00f3ria do programa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O processo de reabilita\u00e7\u00e3o de um peixe-boi \u00e9 longo e envolve diversas etapas. Inicialmente, o animal passa por exames cl\u00ednicos e f\u00edsicos, incluindo an\u00e1lises laboratoriais, para avaliar seu estado de sa\u00fade&#8221;<\/em>, explica Eduardo Marques, m\u00e9dico-veterin\u00e1rio da Ger\u00eancia de Fauna Silvestre do Instituto de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental do Amazonas (IPAAM), que acompanha resgates de filhotes v\u00edtimas de ca\u00e7a ilegal na regi\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, qualquer discuss\u00e3o sobre o uso do peixe-boi em sistemas produtivos passa, obrigatoriamente, pelo cumprimento da legisla\u00e7\u00e3o ambiental brasileira, que pro\u00edbe a captura e o cativeiro da esp\u00e9cie sem autoriza\u00e7\u00e3o expressa do ICMBio. O caminho vi\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 o uso direto do animal em viveiros comerciais, mas a compreens\u00e3o do seu funcionamento como modelo biol\u00f3gico para o desenvolvimento de estrat\u00e9gias de controle mais eficientes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que os viveiros podem aprender com o Trichechus<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica ecol\u00f3gica do peixe-boi oferece um roteiro claro para o manejo de macr\u00f3fitas em sistemas produtivos. O primeiro princ\u00edpio \u00e9 a regula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua: o animal n\u00e3o elimina as plantas de uma s\u00f3 vez, mas mant\u00e9m um consumo constante que impede a superpopula\u00e7\u00e3o. Nos viveiros, essa l\u00f3gica pode ser replicada com a introdu\u00e7\u00e3o controlada de esp\u00e9cies herb\u00edvoras nativas, como o pacu e a pirapitinga, que compartilham h\u00e1bitos alimentares parcialmente similares e s\u00e3o adaptadas ao clima tropical da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo princ\u00edpio \u00e9 a seletividade. O Trichechus inunguis n\u00e3o consome todas as esp\u00e9cies de forma indiscriminada, sua prefer\u00eancia varia conforme a disponibilidade sazonal e o valor nutricional das plantas. Isso sugere que o controle biol\u00f3gico mais eficiente n\u00e3o busca erradicar as macr\u00f3fitas, mas manter sua cobertura abaixo de 25% da superf\u00edcie do viveiro, limiar acima do qual os impactos negativos sobre a qualidade da \u00e1gua se tornam significativos, segundo estudos publicados pela Universidade Federal de Rond\u00f4nia sobre cultivo de pirarucu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro princ\u00edpio \u00e9 a ciclagem de nutrientes. Ao consumir e excretar material vegetal parcialmente digerido, o peixe-boi redistribui f\u00f3sforo e nitrog\u00eanio ao longo do sistema aqu\u00e1tico, evitando o ac\u00famulo localizado que alimenta novos surtos de crescimento vegetal. Nos viveiros, esse ciclo pode ser parcialmente mimetizado com o uso de macr\u00f3fitas como Eichhornia crassipes e Salvinia sp. em \u00e1reas de tratamento de efluentes antes do descarte, reduzindo a carga de nutrientes que retorna ao ambiente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Esp\u00e9cie-chave e sentinela dos rios produtivos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a ou aus\u00eancia do peixe-boi da Amaz\u00f4nia em um trecho de rio funciona como indicador da sa\u00fade do ecossistema aqu\u00e1tico naquela regi\u00e3o. A esp\u00e9cie evita \u00e1guas com temperatura abaixo de 23\u00b0C, alta turbidez por argila em suspens\u00e3o, presen\u00e7a de corredeiras e proximidade de assentamentos humanos com alto tr\u00e1fego de embarca\u00e7\u00f5es. Consequentemente, sua ocorr\u00eancia sinaliza um ambiente com boa produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria de plantas aqu\u00e1ticas, \u00e1guas calmas e baixa contamina\u00e7\u00e3o por poluentes organoclorados e metais pesados provenientes de res\u00edduos agr\u00edcolas, garimpo e vazamentos de petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para produtores que operam sistemas aqu\u00edcolas pr\u00f3ximos a rios onde a esp\u00e9cie ainda ocorre, essa condi\u00e7\u00e3o representa um ativo ambiental: a presen\u00e7a do animal indica que a qualidade da \u00e1gua na capta\u00e7\u00e3o \u00e9 adequada e que o entorno est\u00e1 relativamente preservado. Por outro lado, sua aus\u00eancia em rios historicamente habitados pode sinalizar degrada\u00e7\u00e3o do habitat e comprometimento das fontes h\u00eddricas utilizadas na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A piscicultura na Amaz\u00f4nia cresce de forma acelerada. Segundo dados do IBGE, a regi\u00e3o Norte j\u00e1 responde por parcela crescente da produ\u00e7\u00e3o nacional de tambaqui, pirarucu e matrinx\u00e3. Manter canais, igarap\u00e9s e reservat\u00f3rios saud\u00e1veis n\u00e3o \u00e9 apenas uma obriga\u00e7\u00e3o ambiental, mas uma condi\u00e7\u00e3o produtiva. O peixe-boi da Amaz\u00f4nia cumpre essa fun\u00e7\u00e3o h\u00e1 mil\u00eanios. Entender como ele opera \u00e9 o primeiro passo para construir sistemas aqu\u00edcolas mais inteligentes, eficientes e alinhados com a l\u00f3gica da floresta que os sustenta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um viveiro de piscicultura tomado por aguap\u00e9, salv\u00ednia ou alface-d&#8217;\u00e1gua n\u00e3o \u00e9 apenas um problema est\u00e9tico. \u00c9 uma amea\u00e7a direta \u00e0 produtividade, ao oxig\u00eanio dissolvido na \u00e1gua e \u00e0 sa\u00fade dos peixes. 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