{"id":35264,"date":"2026-05-08T14:39:40","date_gmt":"2026-05-08T17:39:40","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35264"},"modified":"2026-06-06T21:01:55","modified_gmt":"2026-06-07T00:01:55","slug":"cupinzeiros-nordeste-4-mil-anos-caatinga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/cupinzeiros-nordeste-4-mil-anos-caatinga\/","title":{"rendered":"Cupins constru\u00edram uma das maiores obras da natureza no Brasil e ela tem 4 mil anos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Espalhados por uma \u00e1rea equivalente ao territ\u00f3rio da Gr\u00e3-Bretanha, cerca de 200 milh\u00f5es de mont\u00edculos de terra vermelha pontuam a paisagem semi\u00e1rida do Nordeste brasileiro. \u00c0 primeira vista, parecem apenas mais um elemento da Caatinga. Data\u00e7\u00f5es realizadas por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) revelaram que muitas dessas estruturas t\u00eam entre 690 e 3.820 anos, constru\u00eddas continuamente por uma \u00fanica esp\u00e9cie de cupim: a <em>Syntermes dirus<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta, publicada na revista cient\u00edfica <em>Current Biology<\/em>, reposicionou o Brasil no mapa das grandes engenharias naturais do planeta. O volume total de terra movimentada por esses insetos ao longo de mil\u00eanios \u00e9 estimado em 10 bilh\u00f5es de metros c\u00fabicos, quantidade compar\u00e1vel \u00e0s pir\u00e2mides do Egito multiplicadas por milhares. Contudo, ao contr\u00e1rio do que se imagina, esses mont\u00edculos n\u00e3o s\u00e3o col\u00f4nias ativas. S\u00e3o, na verdade, o res\u00edduo acumulado de uma atividade constante de escava\u00e7\u00e3o que continua acontecendo sob a superf\u00edcie.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os mont\u00edculos n\u00e3o s\u00e3o ninhos \u2014 s\u00e3o descarte de uma cidade invis\u00edvel<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O equ\u00edvoco mais comum sobre os cupinzeiros do Nordeste \u00e9 trat\u00e1-los como habita\u00e7\u00f5es. Os mont\u00edculos c\u00f4nicos da <em>Syntermes dirus<\/em>, com at\u00e9 tr\u00eas metros de altura e nove metros de di\u00e2metro, s\u00e3o formados pelo material escavado durante a constru\u00e7\u00e3o de um sistema de t\u00faneis subterr\u00e2neos que se estende horizontalmente por dezenas de metros abaixo do solo. A col\u00f4nia vive e opera nessa rede invis\u00edvel, usando os mont\u00edculos apenas como dep\u00f3sito do excesso de terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para entender a longevidade das estruturas. Como os mont\u00edculos n\u00e3o abrigam a rainha nem os ovos, n\u00e3o precisam ser habitados continuamente. A col\u00f4nia pode se deslocar, dividir ou at\u00e9 desaparecer, e o mont\u00edculo permanece, compactado e resistente \u00e0 eros\u00e3o, acumulando camadas ao longo de s\u00e9culos. Por isso, uma estrutura com 3.820 anos n\u00e3o significa que a mesma col\u00f4nia est\u00e1 ativa h\u00e1 quase quatro mil\u00eanios, mas sim que aquele ponto do solo foi continuamente trabalhado por sucessivas gera\u00e7\u00f5es de cupins ao longo de toda essa extens\u00e3o temporal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A densidade dessas estruturas no Nordeste \u00e9 impressionante. Em algumas regi\u00f5es dos estados do Piau\u00ed, Cear\u00e1, Para\u00edba e Rio Grande do Norte, chegam a ocorrer at\u00e9 20 mont\u00edculos por hectare, distribu\u00eddos de forma aparentemente aleat\u00f3ria, mas com espa\u00e7amento que, visto de cima, lembra um padr\u00e3o regular, o que levou pesquisadores a investigar se h\u00e1 algum mecanismo de territorialidade envolvido na disposi\u00e7\u00e3o espacial das col\u00f4nias.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como os cupins transformam o solo da Caatinga<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atividade subterr\u00e2nea da <em>Syntermes dirus<\/em> produz efeitos diretos e mensur\u00e1veis na qualidade f\u00edsica e qu\u00edmica do solo. Os t\u00faneis horizontais funcionam como canais de infiltra\u00e7\u00e3o, permitindo que a \u00e1gua da chuva penetre com mais velocidade e profundidade, reduzindo o escoamento superficial e a eros\u00e3o. Em um bioma onde a chuva \u00e9 escassa, concentrada em poucos meses e frequentemente intensa, essa capacidade de absor\u00e7\u00e3o representa uma diferen\u00e7a significativa no balan\u00e7o h\u00eddrico do terreno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o material trazido \u00e0 superf\u00edcie durante a escava\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mistura de camadas do solo que normalmente n\u00e3o se comunicam. Ao depositar esse material nos mont\u00edculos, os cupins promovem uma forma de bioturba\u00e7\u00e3o, redistribuindo minerais, mat\u00e9ria org\u00e2nica decomposta e microrganismos entre profundidades distintas. Consequentemente, os solos ao redor dos mont\u00edculos apresentam concentra\u00e7\u00f5es maiores de nutrientes como pot\u00e1ssio, f\u00f3sforo e magn\u00e9sio em compara\u00e7\u00e3o com \u00e1reas sem a presen\u00e7a das estruturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisas de campo indicam que a vegeta\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima aos cupinzeiros tende a ser mais densa e diversificada. As plantas aproveitam tanto os nutrientes redistribu\u00eddos quanto a maior disponibilidade de \u00e1gua, criando pequenos n\u00facleos de maior fertilidade dentro de uma paisagem que, de modo geral, \u00e9 conhecida pela pobreza dos solos. Dessa forma, os cupins atuam como engenheiros ecossist\u00eamicos, modificando o ambiente f\u00edsico ao seu redor de maneira que beneficia outras esp\u00e9cies, inclusive plantas de interesse agr\u00edcola e forrageiro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Caatinga mais velha do que parece<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que as data\u00e7\u00f5es dos cupinzeiros revelam vai al\u00e9m da biologia dos insetos. Elas indicam que a Caatinga, frequentemente descrita como um bioma degradado ou secund\u00e1rio, possui uma hist\u00f3ria ecol\u00f3gica muito mais longa e est\u00e1vel do que os registros superficiais sugeriam. Para que estruturas como essas se acumulem e se preservem por quase quatro mil\u00eanios, \u00e9 necess\u00e1rio que o ambiente ao redor permane\u00e7a relativamente constante, sem grandes perturba\u00e7\u00f5es que destru\u00edssem os mont\u00edculos ou suprimissem as popula\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por constru\u00ed-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso significa que vastas extens\u00f5es do semi\u00e1rido nordestino passaram por mil\u00eanios de ocupa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua por esses insetos, moldando lentamente as caracter\u00edsticas do solo que os agricultores e pecuaristas encontram hoje. A fertilidade localizada ao redor dos mont\u00edculos, a estrutura porosa do subsolo, a distribui\u00e7\u00e3o de certas esp\u00e9cies vegetais nativas, tudo isso carrega a marca de um processo que come\u00e7ou muito antes da chegada dos primeiros colonizadores europeus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, a presen\u00e7a dos cupinzeiros em uma propriedade rural n\u00e3o \u00e9, como muitos produtores ainda acreditam, sinal exclusivo de problema. Em solos de Caatinga, ela \u00e9, antes de tudo, um registro de continuidade ecol\u00f3gica, indicando que aquela \u00e1rea manteve condi\u00e7\u00f5es ambientais est\u00e1veis o suficiente para sustentar col\u00f4nias ativas ao longo de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que o produtor rural precisa saber sobre cupins e solo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A distin\u00e7\u00e3o entre cupins que atacam estruturas de madeira e culturas \u2014 problema real e economicamente relevante \u2014 e cupins construtores de mont\u00edculos como a <em>Syntermes dirus<\/em> \u00e9 pouco conhecida fora do meio cient\u00edfico. Enquanto esp\u00e9cies como <em>Nasutitermes<\/em> e <em>Heterotermes<\/em> s\u00e3o de fato pragas em lavouras e benfeitorias, a <em>Syntermes dirus<\/em> se alimenta exclusivamente de mat\u00e9ria org\u00e2nica seca em decomposi\u00e7\u00e3o, como folhas e galhos ca\u00eddos, sem atacar plantas vivas ou madeira de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, a presen\u00e7a dos mont\u00edculos caracter\u00edsticos dessa esp\u00e9cie em pastagens e \u00e1reas de Caatinga nativa indica atividade biol\u00f3gica saud\u00e1vel no solo, n\u00e3o infesta\u00e7\u00e3o. Eliminar essas estruturas com m\u00e1quinas pesadas, pr\u00e1tica comum em processos de preparo do terreno, destr\u00f3i os canais de infiltra\u00e7\u00e3o constru\u00eddos ao longo de d\u00e9cadas e compacta o subsolo, reduzindo exatamente a permeabilidade que tornava aquele solo mais produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A recomenda\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que emerge dos estudos sobre essas estruturas aponta para a manuten\u00e7\u00e3o dos mont\u00edculos em \u00e1reas de pastagem extensiva e em sistemas agroflorestais. Integrar os cupinzeiros \u00e0 paisagem produtiva, ao inv\u00e9s de remov\u00ea-los, preserva os benef\u00edcios da bioturba\u00e7\u00e3o e da infiltra\u00e7\u00e3o h\u00eddrica, servi\u00e7os ecossist\u00eamicos que nenhum insumo agr\u00edcola consegue replicar ao custo zero que a natureza oferece, especialmente em um bioma onde \u00e1gua e fertilidade do solo s\u00e3o os recursos mais escassos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Espalhados por uma \u00e1rea equivalente ao territ\u00f3rio da Gr\u00e3-Bretanha, cerca de 200 milh\u00f5es de mont\u00edculos de terra vermelha pontuam a paisagem semi\u00e1rida do Nordeste brasileiro. \u00c0 primeira vista, parecem apenas mais um elemento da Caatinga. 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No Ellas Magazine, Suzana transforma sua viv\u00eancia em sala de aula e sua sensibilidade de tutora em textos acolhedores sobre comportamento, maternidade, moda, pets, jardinagem, natureza e dicas de beleza."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990033"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35264"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35264\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35267,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35264\/revisions\/35267"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35264"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=35264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}