{"id":35369,"date":"2026-05-15T10:24:52","date_gmt":"2026-05-15T13:24:52","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35369"},"modified":"2026-06-07T09:32:17","modified_gmt":"2026-06-07T12:32:17","slug":"cafe-na-sombra-da-mata-o-projeto-que-une-reflorestamento-e-producao-sustentavel-no-interior-fluminense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/cafe-na-sombra-da-mata-o-projeto-que-une-reflorestamento-e-producao-sustentavel-no-interior-fluminense\/","title":{"rendered":"Caf\u00e9 na sombra da mata: o projeto que une reflorestamento e produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel no interior fluminense"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Valen\u00e7a, munic\u00edpio do sul fluminense, carrega uma contradi\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda: abriga fragmentos expressivos da Mata Atl\u00e2ntica e, ao mesmo tempo, figura entre os territ\u00f3rios com maior taxa de desmatamento no estado. Entre 2020 e 2021, foram 65 hectares derrubados \u2014 dado que coloca o munic\u00edpio entre os dez mais afetados no per\u00edodo, segundo o Atlas dos Munic\u00edpios da Mata Atl\u00e2ntica, produzido pela Funda\u00e7\u00e3o SOS Mata Atl\u00e2ntica em parceria com o INPE.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi justamente nesse cen\u00e1rio que a ju\u00edza M\u00e1rcia Quaresma e o tamb\u00e9m magistrado Andr\u00e9 Tredinnick decidiram agir. O que come\u00e7ou como um projeto de aposentadoria \u2014 a busca por uma propriedade rural fora do ritmo da cidade \u2014 tornou-se o embri\u00e3o da Reserva Comuna da Serra, a ReCoSer. Em 2018, ap\u00f3s dez anos procurando o lugar certo, eles adquiriram uma \u00e1rea no distrito de Santa Isabel do Rio Preto. &#8220;Demoramos muito porque a realidade rural do interior do Rio de Janeiro \u00e9 bastante espec\u00edfica. H\u00e1 muitas propriedades n\u00e3o regularizadas, frequentemente divididas em diversas glebas e sem legaliza\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Quaresma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A propriedade que encontraram reunia o que procuravam: mata nativa preservada e espa\u00e7o para cultivo. A Reserva Particular do Patrim\u00f4nio Natural (RPPN) hoje soma 34,7 hectares \u2014 equivalente a cerca de 49 campos de futebol \u2014 e abriga um fragmento da Mata Atl\u00e2ntica de interior, classifica\u00e7\u00e3o do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio) para florestas estacionais com clima tropical sazonal.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma floresta que surpreende<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A riqueza ecol\u00f3gica da \u00e1rea foi se revelando conforme o projeto avan\u00e7ava. Com o plano de manejo em fase de conclus\u00e3o, bi\u00f3logos identificaram exemplares de \u00e1rvores centen\u00e1rias ainda em processo de cataloga\u00e7\u00e3o. <em>&#8220;Os ind\u00edcios apontam para esp\u00e9cies como bra\u00fana e pau-brasil. A riqueza da flora realmente chama a aten\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>, conta Tredinnick. Trilhas de migra\u00e7\u00e3o de fauna, antes interrompidas pelo desmatamento, tamb\u00e9m foram recuperadas ao longo do processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A c\u00e2mera de monitoramento instalada na reserva registra com frequ\u00eancia a vida noturna da regi\u00e3o \u2014 um indicativo concreto de que a biodiversidade responde ao manejo cuidadoso do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O caf\u00e9 como resposta \u00e0 l\u00f3gica do desmatamento<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha pelo caf\u00e9 n\u00e3o foi aleat\u00f3ria. Ela nasceu da observa\u00e7\u00e3o da paisagem local: p\u00e9s abandonados encontrados na pr\u00f3pria propriedade e uma cultura cafeicultora ainda presente na mem\u00f3ria das comunidades da regi\u00e3o. Mais do que uma op\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, o gr\u00e3o representou uma pergunta central para o projeto. <em>&#8220;Passamos a nos perguntar se a mata n\u00e3o poderia coexistir com o caf\u00e9, j\u00e1 que a narrativa mais comum \u00e9 a da destrui\u00e7\u00e3o da floresta para o plantio do gr\u00e3o&#8221;<\/em>, diz Tredinnick.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta foi o sistema agroflorestal. O caf\u00e9 \u00e9 plantado entre as \u00e1rvores nativas, preservando a din\u00e2mica ecol\u00f3gica da RPPN e eliminando a necessidade do modelo extensivo, que historicamente avan\u00e7a sobre a vegeta\u00e7\u00e3o. As primeiras safras foram colhidas recentemente, tr\u00eas anos ap\u00f3s o in\u00edcio do plantio, iniciado em 2020. <em>&#8220;Plantamos o caf\u00e9 junto \u00e0s \u00e1rvores nativas, justamente para manter a RPPN integrada ao ambiente&#8221;<\/em>, explica Quaresma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A divis\u00e3o da propriedade reflete essa filosofia: cerca de seis alqueires s\u00e3o destinados \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o integral, enquanto dois concentram o cultivo e as estruturas de apoio ao projeto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Construir sem destruir: a arquitetura que completa a proposta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sede da reserva segue os mesmos princ\u00edpios que orientam o cultivo. A constru\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada em bioconstru\u00e7\u00e3o, com t\u00e9cnicas como a taipa de pil\u00e3o e o adobe \u2014 tijolos feitos de terra crua, palha e \u00e1gua. A estrutura dialoga com o entorno sem impor materiais industrializados ao ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra aposta tecnol\u00f3gica \u00e9 o biodigestor, atualmente em fase de testes. O equipamento utiliza dejetos dos porcos criados na propriedade para gerar energia limpa e produzir biofertilizante, que retorna ao ciclo como insumo para o cultivo do caf\u00e9. Empresas especializadas em sustentabilidade \u2014 como Gera Brasil, Mat\u00e9ria Base e Fluxo \u2014 atuam junto a agr\u00f4nomos no suporte t\u00e9cnico ao projeto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Qualidade acima de volume, diversifica\u00e7\u00e3o como estrat\u00e9gia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ReCoSer n\u00e3o pretende competir em escala com grandes produtores. <em>&#8220;Nossa proposta n\u00e3o \u00e9 focar em quantidade, mas em qualidade. Queremos produzir um caf\u00e9 especial n\u00e3o apenas pelo aroma, mas tamb\u00e9m pela forma como \u00e9 cultivado, de maneira n\u00e3o agressiva ao meio ambiente&#8221;<\/em>, afirma Quaresma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diversifica\u00e7\u00e3o das atividades aparece como pilar estrat\u00e9gico diante das incertezas clim\u00e1ticas. <em>&#8220;Uma safra pode ser comprometida pelas mudan\u00e7as no clima que temos visto. Por isso, diversificar as atividades \u00e9 uma forma de prote\u00e7\u00e3o e sustentabilidade para o neg\u00f3cio&#8221;<\/em>, avalia Tredinnick. O turismo rural e ecol\u00f3gico est\u00e1 no centro dessa expans\u00e3o, aproveitando a infraestrutura da reserva e a singularidade do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reconhecimento institucional e ICMS ecol\u00f3gico<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O avan\u00e7o mais recente do projeto veio pelo caminho institucional. A Secretaria de Meio Ambiente de Valen\u00e7a entrou em contato com a ReCoSer para viabilizar a inclus\u00e3o da RPPN como Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio ainda em 2026. O reconhecimento abre caminho para que Valen\u00e7a acesse o ICMS ecol\u00f3gico \u2014 mecanismo previsto em lei estadual que distribui recursos com base em crit\u00e9rios ambientais, gerando pontua\u00e7\u00e3o que eleva a parcela do munic\u00edpio na arrecada\u00e7\u00e3o do Estado. Parte desses recursos pode ser direcionada diretamente ao fortalecimento da gest\u00e3o da pr\u00f3pria reserva, criando um ciclo de financiamento sustent\u00e1vel para o projeto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Valen\u00e7a, munic\u00edpio do sul fluminense, carrega uma contradi\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda: abriga fragmentos expressivos da Mata Atl\u00e2ntica e, ao mesmo tempo, figura entre os territ\u00f3rios com maior taxa de desmatamento no estado. 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