{"id":35407,"date":"2026-05-17T15:08:16","date_gmt":"2026-05-17T18:08:16","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35407"},"modified":"2026-06-06T16:28:38","modified_gmt":"2026-06-06T19:28:38","slug":"jiboia-arco-iris-cerrado-reproducao-usp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/jiboia-arco-iris-cerrado-reproducao-usp\/","title":{"rendered":"A jiboia do Cerrado que desafia o que a ci\u00eancia sabia sobre reprodu\u00e7\u00e3o em serpentes"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a ci\u00eancia sabia muito pouco sobre como a jiboia arco-\u00edris do Cerrado se reproduz. A Epicrates crassus, serpente da fam\u00edlia Boidae que habita um dos biomas mais amea\u00e7ados do planeta, vivia esse v\u00e1cuo de conhecimento que acomete tantas outras esp\u00e9cies da fauna brasileira: presente nas cole\u00e7\u00f5es zool\u00f3gicas, estudada em partes, mas sem que seu ciclo reprodutivo jamais tivesse sido descrito de forma sistem\u00e1tica. Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da USP veio preencher essa lacuna, e trouxe junto uma descoberta que ningu\u00e9m havia registrado antes para a esp\u00e9cie: a possibilidade de intersexualidade em machos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo, conduzido por Rafael Anzai como parte de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em Zoologia, analisou quase 130 animais pertencentes a cole\u00e7\u00f5es cient\u00edficas dos estados de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Todos passaram por disseca\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os do trato reprodutivo, o que permitiu caracterizar o ciclo da esp\u00e9cie com um n\u00edvel de detalhe in\u00e9dito para a Epicrates crassus.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um ciclo sazonal com pico no outono<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado central da pesquisa define o ciclo reprodutivo da jiboia arco-\u00edris do Cerrado como sazonal, semi-s\u00edncrono e descont\u00ednuo. Em linguagem direta: a esp\u00e9cie tem um per\u00edodo concentrado de reprodu\u00e7\u00e3o, com atividade quase simult\u00e2nea entre os indiv\u00edduos e intervalos de pausa entre os ciclos. O pico de produ\u00e7\u00e3o de gametas, as c\u00e9lulas sexuais que se fundem na fecunda\u00e7\u00e3o, ocorre no outono, \u00e9poca em que a esp\u00e9cie est\u00e1 biologicamente preparada para se reproduzir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sazonalidade contrasta com o que se observa em mam\u00edferos, que mant\u00eam capacidade reprodutiva ao longo do ano inteiro. Para serpentes, a concentra\u00e7\u00e3o em uma janela espec\u00edfica do calend\u00e1rio implica que fatores ambientais, como temperatura e fotoper\u00edodo, exercem papel regulador sobre o ciclo, algo que o estudo ajuda a documentar com precis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A gente entende o ciclo para entender o comportamento, para entender horm\u00f4nio, para entender e ter informa\u00e7\u00f5es para conserva\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>, explica Rafael Anzai, autor do estudo e mestre em Zoologia pelo IB da USP.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O combate ritual e a disputa pelo acasalamento<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos aspectos mais reveladores do estudo envolve o comportamento dos machos durante a \u00e9poca reprodutiva. A jiboia arco-\u00edris do Cerrado apresenta o chamado combate ritual, uma disputa f\u00edsica entre machos pelo acesso \u00e0 f\u00eamea, na qual o vencedor \u00e9 quem copula. O perdedor se retira e mant\u00e9m comportamento mais reservado durante o per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse fen\u00f4meno levanta quest\u00f5es precisas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre horm\u00f4nios e sazonalidade. A pesquisa identificou uma associa\u00e7\u00e3o prov\u00e1vel entre os combates e o per\u00edodo de maior produ\u00e7\u00e3o de espermatozoides nos machos, o que sugere que a testosterona pode exercer influ\u00eancia direta sobre a competitividade \u2014 uma rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 indicada em estudos anteriores com outras esp\u00e9cies.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que torna o dado ainda mais interessante \u00e9 o padr\u00e3o de dimorfismo sexual encontrado. As f\u00eameas da Epicrates crassus s\u00e3o maiores que os machos, seguindo a tend\u00eancia geral das serpentes. A particularidade est\u00e1 no fato de que, em esp\u00e9cies que praticam combate ritual, o esperado seria o inverso, com machos maiores, j\u00e1 que o tamanho corporal tende a oferecer vantagem nas disputas f\u00edsicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Selma Santos, orientadora da pesquisa e vice-diretora do Laborat\u00f3rio de Ecologia e Evolu\u00e7\u00e3o (LEEv) do Instituto Butantan, destaca a riqueza comportamental da esp\u00e9cie: <em>&#8220;ser\u00e1 que os machos combatem na \u00e9poca em que est\u00e3o produzindo muitos espermatozoides? Ser\u00e1 que os machos combatem porque naquela \u00e9poca a f\u00eamea est\u00e1 com fol\u00edculo ovariano pronto para a reprodu\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A descoberta que ningu\u00e9m esperava: poss\u00edvel intersexualidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A parte mais in\u00e9dita do estudo diz respeito a uma caracter\u00edstica encontrada em um n\u00famero significativo de machos avaliados: a presen\u00e7a de partes de oviduto, estrutura que funcionalmente corresponde ao \u00fatero nas f\u00eameas, onde ocorre a fertiliza\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o dos ovos. Trata-se de uma caracter\u00edstica do aparato reprodutivo feminino em animais geneticamente machos \u2014 o que configura, segundo os pesquisadores, um poss\u00edvel caso de intersexualidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intersexualidade se diferencia do hermafroditismo de forma importante. No hermafroditismo, os dois sistemas reprodutivos funcionam e produzem gametas. Na intersexualidade, o que se observa \u00e9 a presen\u00e7a de alguma estrutura pertencente ao sexo oposto, que pode ser completa ou vestigial, ou seja, algo que come\u00e7ou a se formar durante o desenvolvimento do animal mas foi interrompido antes de se completar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi exatamente o caso vestigial que Anzai identificou nos machos da Epicrates crassus. <em>&#8220;Falamos que \u00e9 vestigial porque era uma coisinha delimitada; o \u00fatero das f\u00eameas \u00e9 um cord\u00e3o grande, tipo um tubo, que vai do ov\u00e1rio at\u00e9 a sa\u00edda. Nesses machos eu vi uma coisa delimitada&#8221;<\/em>, descreve o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fen\u00f4meno nunca havia sido documentado antes para a esp\u00e9cie. O estudo prop\u00f5e uma semelhan\u00e7a com a s\u00edndrome da persist\u00eancia dos ductos de M\u00fcller, condi\u00e7\u00e3o rara em que machos apresentam estruturas que normalmente originam o sistema reprodutor feminino. At\u00e9 o momento, os dados indicam que a produ\u00e7\u00e3o de gametas nesses machos ocorre normalmente, mas o pesquisador \u00e9 cauteloso: ainda s\u00e3o necess\u00e1rias investiga\u00e7\u00f5es adicionais para compreender se e como essa caracter\u00edstica afeta o ciclo reprodutivo desses indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que isso importa para a conserva\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa se enquadra no que a ci\u00eancia chama de ci\u00eancia b\u00e1sica, aquela sem aplica\u00e7\u00e3o imediata direta, mas que cria a base sem a qual nenhuma estrat\u00e9gia aplicada consegue funcionar. No caso da fauna brasileira, essa base est\u00e1 longe de ser completa: o ciclo reprodutivo de muitas esp\u00e9cies segue desconhecido, o que inviabiliza a cria\u00e7\u00e3o de programas de conserva\u00e7\u00e3o efetivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00f3pria jiboia comum (Boa constrictor), parente pr\u00f3xima da esp\u00e9cie estudada e alvo frequente do mercado de ca\u00e7a ilegal, nunca teve seu ciclo reprodutivo descrito. Sem esse dado, as estrat\u00e9gias de preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie operam sem uma das informa\u00e7\u00f5es mais elementares sobre sua biologia. O trabalho com a Epicrates crassus demonstra que preencher essas lacunas \u00e9 poss\u00edvel, vi\u00e1vel e necess\u00e1rio, especialmente para uma fam\u00edlia de serpentes, a Boidae, que inclui sucuris e outras jiboias igualmente pouco estudadas em aspectos reprodutivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha da jiboia arco-\u00edris do Cerrado para o estudo n\u00e3o foi aleat\u00f3ria. Al\u00e9m da afinidade do pesquisador com a fam\u00edlia Boidae, a esp\u00e9cie tem uma vantagem pr\u00e1tica: atinge a maturidade sexual com cerca de um metro de comprimento, tamanho bem menor do que os tr\u00eas metros das jiboias comuns, o que aumenta a chance de encontr\u00e1-la em cole\u00e7\u00f5es zool\u00f3gicas. Foi exatamente esse acervo, espalhado por institui\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que tornou poss\u00edvel o volume de an\u00e1lises necess\u00e1rio para as conclus\u00f5es do estudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a ci\u00eancia sabia muito pouco sobre como a jiboia arco-\u00edris do Cerrado se reproduz. 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