{"id":35659,"date":"2026-05-27T15:02:44","date_gmt":"2026-05-27T18:02:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35659"},"modified":"2026-06-06T15:48:41","modified_gmt":"2026-06-06T18:48:41","slug":"bioinfood-proteina-babacu-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/bioinfood-proteina-babacu-amazonia\/","title":{"rendered":"Das quebradeiras de coco ao mercado global: como uma startup brasileira transformou res\u00edduo do baba\u00e7u em prote\u00edna do futuro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda manh\u00e3, no interior do Maranh\u00e3o, mulheres acordam antes do sol para colher e beneficiar o baba\u00e7u. O trabalho \u00e9 passado de m\u00e3e para filha h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, num ritual que se repete tamb\u00e9m no Piau\u00ed, no Par\u00e1 e no Tocantins, onde cerca de 62 mil pessoas vivem do extrativismo do fruto. Por d\u00e9cadas, por\u00e9m, grande parte do que essas comunidades produziam acabava no lixo: o \u00f3leo extra\u00eddo da am\u00eandoa tinha mercado, mas a farinha do mesocarpo, subproduto direto do processo, era descartada sem aproveitamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa l\u00f3gica est\u00e1 sendo revertida por uma startup brasileira que enxergou no res\u00edduo uma oportunidade bilion\u00e1ria. A BIOINFOOD desenvolveu uma biotecnologia capaz de transformar essa farinha descartada em ingrediente proteico de alto valor, com aplica\u00e7\u00e3o direta na ind\u00fastria de alimentos e potencial de gerar uma nova frente de renda para as comunidades da floresta. O mercado que a empresa mira vale US$ 88 bilh\u00f5es globalmente e cresce a 14,3% ao ano.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">De res\u00edduo a ingrediente industrial<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo criado pela startup parte de um insumo que antes n\u00e3o valia nada. A farinha do mesocarpo do baba\u00e7u, com teor proteico original de apenas 1,5%, passa por hidr\u00f3lise enzim\u00e1tica e fermenta\u00e7\u00e3o em biorreatores automatizados com cepas selecionadas de levedura. As leveduras convertem os a\u00e7\u00facares da farinha em biomassa proteica, sem necessidade de novos cultivos ou qualquer expans\u00e3o de \u00e1rea. O resultado eleva o teor proteico para cerca de 7%, multiplicando em mais de quatro vezes o valor nutricional do ingrediente, com textura fibrosa e sabor equilibrado adequados para uso industrial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tecnologia j\u00e1 foi validada em escala laboratorial. Um prot\u00f3tipo de hamb\u00farguer plant-based foi produzido e avaliado, e um momento simb\u00f3lico marcou a trajet\u00f3ria do projeto: a degusta\u00e7\u00e3o do produto por Cornelia Rodrigues, a &#8220;Nelinha do Baba\u00e7u&#8221;, empreendedora maranhense e uma das vozes mais representativas das quebradeiras de coco no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A tecnologia estimula o uso sustent\u00e1vel de esp\u00e9cies nativas, sem necessidade de desmatamento ou cultivo intensivo&#8221;<\/em>, afirma Osmar Netto, PhD, co-fundador da BIOINFOOD e l\u00edder do projeto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ci\u00eancia que come\u00e7a na floresta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O projeto n\u00e3o nasceu isolado em um laborat\u00f3rio. A BIOINFOOD contou com o apoio da Rede Terra do Meio do Alto Xingu, no Par\u00e1, que forneceu amostras e recebeu a equipe em visitas \u00e0s comunidades. A rede re\u00fane 35 organiza\u00e7\u00f5es de povos ind\u00edgenas, ribeirinhos e agricultores familiares, somando 9 milh\u00f5es de hectares protegidos, o que coloca as comunidades no centro da cadeia desde o in\u00edcio, n\u00e3o como benefici\u00e1rias passivas de um processo externo, mas como parte estruturante da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O potencial t\u00e9cnico da \u00e1rea dispon\u00edvel para coleta de baba\u00e7u \u00e9 de 1,5 milh\u00e3o de toneladas por ano. A produ\u00e7\u00e3o atual mal alcan\u00e7a 4% desse total, o que revela a dimens\u00e3o da subexplora\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da cadeia. Para a BIOINFOOD, esse v\u00e1cuo \u00e9 a oportunidade: escalar a tecnologia sem desmatar um \u00fanico hectare, apenas aproveitando o que j\u00e1 existe e \u00e9 descartado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desenvolvimento aconteceu em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), com aporte de R$ 2,7 milh\u00f5es do Fundo JBS pela Amaz\u00f4nia, que classificou o projeto como o maior j\u00e1 apoiado no eixo de pesquisa e desenvolvimento desde sua cria\u00e7\u00e3o, em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A Amaz\u00f4nia tem oportunidades que ainda n\u00e3o foram aproveitadas e o projeto \u00e9 um belo exemplo disso: ci\u00eancia aplicada, ingrediente nacional e impacto real para quem vive da floresta&#8221;<\/em>, destaca Lucas de Oliveira Scarassia, Gerente Executivo de Projetos do Fundo JBS pela Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O mercado que espera pelo baba\u00e7u<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O timing do projeto coincide com uma janela favor\u00e1vel raramente vista no setor. O mercado brasileiro de prote\u00ednas alternativas movimentou R$ 1,13 bilh\u00e3o em 2024, com crescimento de 14% sobre o ano anterior, e a proje\u00e7\u00e3o global aponta para expans\u00e3o de 14,3% ao ano na pr\u00f3xima d\u00e9cada. Ao mesmo tempo, a demanda europeia e americana por ingredientes de origem sustent\u00e1vel, rastre\u00e1vel e com impacto socioambiental positivo cria um canal de entrada real para produtos com o perfil que a BIOINFOOD entrega.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contexto macroecon\u00f4mico refor\u00e7a o argumento. A bioeconomia amaz\u00f4nica, uma das grandes apostas estrat\u00e9gicas do Brasil, pode movimentar entre US$ 100 e US$ 140 bilh\u00f5es por ano at\u00e9 2032, segundo estudo divulgado antes da COP30. O baba\u00e7u, nesse cen\u00e1rio, deixa de ser um produto regional de subsist\u00eancia e passa a ser um ativo estrat\u00e9gico com proje\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O baba\u00e7u \u00e9 um exemplo de como a parceria entre institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica de pesquisa e empresa inovadora pode encurtar o caminho entre o coproduto e o ingrediente industrial&#8221;<\/em>, afirma Roseli Ferrari, Pesquisadora Cient\u00edfica e Diretora T\u00e9cnica de Divis\u00e3o do ITAL.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O pr\u00f3ximo passo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A startup agora busca parceiros comerciais para a fase de escala piloto. A plataforma de fermenta\u00e7\u00e3o desenvolvida para o baba\u00e7u tem aplica\u00e7\u00e3o direta em outros coprodutos agroindustriais, como farelo de trigo, milho e arroz, al\u00e9m de cascas de oleaginosas nativas como castanha-do-Brasil, maca\u00faba e cupua\u00e7u. A l\u00f3gica se repete: transformar o que sobra da cadeia prim\u00e1ria em insumo de alto valor para ind\u00fastrias de maior complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que come\u00e7ou nas m\u00e3os das quebradeiras de coco do Maranh\u00e3o pode chegar \u00e0s prateleiras de supermercados europeus como prote\u00edna plant-based com origem rastre\u00e1vel e impacto social comprovado. A Amaz\u00f4nia, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 apenas cen\u00e1rio. \u00c9 a mat\u00e9ria-prima de uma cadeia que o Brasil ainda est\u00e1 aprendendo a valorizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda manh\u00e3, no interior do Maranh\u00e3o, mulheres acordam antes do sol para colher e beneficiar o baba\u00e7u. O trabalho \u00e9 passado de m\u00e3e para filha h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, num ritual que se repete tamb\u00e9m no Piau\u00ed, no Par\u00e1 e no Tocantins, onde cerca de 62 mil pessoas vivem do extrativismo do fruto. 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