{"id":35785,"date":"2026-06-01T13:28:27","date_gmt":"2026-06-01T16:28:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agronamidia.com.br\/?p=35785"},"modified":"2026-06-06T14:42:05","modified_gmt":"2026-06-06T17:42:05","slug":"araucaria-neblina-clima-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/araucaria-neblina-clima-sul\/","title":{"rendered":"O Brasil derrubou 97% das arauc\u00e1rias e s\u00f3 agora entende o que perdeu junto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia um tempo em que o Planalto Serrano de Santa Catarina acordava envolto em neblina quase todos os dias do inverno. Nas serras ga\u00fachas, a n\u00e9voa densa era presen\u00e7a t\u00e3o constante que moldou modos de vida, arquitetura e at\u00e9 os calend\u00e1rios agr\u00edcolas da regi\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse fen\u00f4meno n\u00e3o era apenas paisagem: era resultado direto da presen\u00e7a dos pinheirais de arauc\u00e1ria, que funcionavam como uma infraestrutura h\u00eddrica viva, capturando umidade da atmosfera e devolvendo-a ao solo e aos cursos d&#8217;\u00e1gua locais. Com a derrubada de mais de 97% da cobertura original dessas florestas ao longo do s\u00e9culo XX, esse mecanismo foi desativado, e o Sul do Brasil colhe as consequ\u00eancias at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como uma \u00e1rvore capturava \u00e1gua das nuvens<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <em>Araucaria angustifolia<\/em>, o <a href=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/araucaria-conheca-a-fascinante-trajetoria-da-arvore-que-e-simbolo-de-resistencia-e-cultura-no-sul-brasileiro\/\" data-type=\"post\" data-id=\"27252\">pinheiro-do-paran\u00e1<\/a>, n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rvore comum dentro do ecossistema em que evoluiu. Sua copa caracter\u00edstica, horizontal e aberta, posicionada acima do dossel das demais esp\u00e9cies, funciona como uma superf\u00edcie coletora. Quando a neblina passa por entre os galhos, as got\u00edculas de \u00e1gua que comp\u00f5em as nuvens baixas se depositam nas ac\u00edculas e nos galhos e, por gravidade, escorrem at\u00e9 o solo, num processo chamado intercepta\u00e7\u00e3o de neblina ou precipita\u00e7\u00e3o oculta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse mecanismo \u00e9 diferente da chuva convencional. Enquanto a chuva depende de condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas espec\u00edficas para se formar, a intercepta\u00e7\u00e3o de neblina ocorre mesmo em dias sem precipita\u00e7\u00e3o registrada pelos pluvi\u00f4metros, o que faz com que os pinheirais acrescentassem ao balan\u00e7o h\u00eddrico regional uma quantidade de \u00e1gua que simplesmente n\u00e3o aparece nas estat\u00edsticas clim\u00e1ticas tradicionais. Pesquisadores da UFPR e da UFSM que investigam os remanescentes da Floresta Ombr\u00f3fila Mista identificaram que essa contribui\u00e7\u00e3o era significativa o suficiente para influenciar a recarga dos aqu\u00edferos regionais, especialmente nas \u00e1reas de altitude onde a neblina se concentra com mais frequ\u00eancia e intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A evapotranspira\u00e7\u00e3o espec\u00edfica da arauc\u00e1ria completa esse ciclo. Por ser uma esp\u00e9cie perene, com metabolismo ativo ao longo de todo o ano inclusive durante os meses secos, ela devolve continuamente vapor d&#8217;\u00e1gua para a atmosfera local, contribuindo para a manuten\u00e7\u00e3o da umidade relativa do ar em n\u00edveis que favorecem a forma\u00e7\u00e3o de nevoeiros. Em outras palavras, os pinheirais n\u00e3o apenas capturavam \u00e1gua: tamb\u00e9m ajudavam a produzir as condi\u00e7\u00f5es para que ela continuasse chegando.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que os n\u00fameros escondem sobre a devasta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Floresta Ombr\u00f3fila Mista, o ecossistema dominado pela arauc\u00e1ria no Sul do Brasil, j\u00e1 cobriu aproximadamente 200 mil quil\u00f4metros quadrados, distribu\u00eddos principalmente pelo Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com extens\u00f5es menores em S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Dessa \u00e1rea, menos de 3% permanece com cobertura original preservada. O restante foi convertido em lavouras, pastagens e \u00e1reas urbanas ao longo de um processo que se intensificou entre 1940 e 1970, impulsionado pela explora\u00e7\u00e3o madeireira e pela pol\u00edtica de coloniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola do Sul do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00famero em si j\u00e1 \u00e9 grave, mas o impacto real vai al\u00e9m do que a porcentagem sugere. O problema n\u00e3o est\u00e1 apenas na quantidade de floresta perdida, mas na fragmenta\u00e7\u00e3o do que restou. Os remanescentes existentes, em sua maioria, s\u00e3o pequenos, isolados entre si e incapazes de reproduzir os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos que a cobertura cont\u00ednua proporcionava. A intercepta\u00e7\u00e3o de neblina, em particular, depende de extens\u00e3o e conectividade: fragmentos isolados de arauc\u00e1ria capturam proporcionalmente menos \u00e1gua do que florestas cont\u00ednuas, porque o efeito de borda reduz a efici\u00eancia do mecanismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Munic\u00edpios serranos de Santa Catarina que registravam historicamente entre 80 e 100 dias de neblina por ano t\u00eam observado redu\u00e7\u00e3o consistente nesse indicador ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica global contribui para esse processo, mas as pesquisas regionais apontam que a perda da cobertura vegetal nativa tem papel relevante e independente nessa transforma\u00e7\u00e3o, porque altera vari\u00e1veis locais que os modelos clim\u00e1ticos globais n\u00e3o capturam com precis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A \u00e1gua que some antes de chegar ao aqu\u00edfero<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A consequ\u00eancia mais direta e menos vis\u00edvel dessa cadeia de perdas est\u00e1 nos aqu\u00edferos. As regi\u00f5es serranas do Sul abrigam importantes sistemas de recarga h\u00eddrica subterr\u00e2nea, que abastecem n\u00e3o apenas as comunidades locais, mas tamb\u00e9m os cursos d&#8217;\u00e1gua que irrigam vales produtivos mais abaixo. A recarga desses sistemas depende da infiltra\u00e7\u00e3o lenta e cont\u00ednua de \u00e1gua no solo, processo que a cobertura florestal facilita de diversas formas: reduz o escoamento superficial, aumenta a capacidade de absor\u00e7\u00e3o do solo com a mat\u00e9ria org\u00e2nica gerada pela serapilheira e, no caso espec\u00edfico da arauc\u00e1ria, acrescenta ao sistema a \u00e1gua captada diretamente da neblina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a substitui\u00e7\u00e3o da floresta por pastagens e lavouras, a l\u00f3gica se inverte. A \u00e1gua que chove passa a escorrer pela superf\u00edcie com mais velocidade, chegando aos rios com maior turbul\u00eancia e carreando solo, em vez de infiltrar gradualmente e alimentar o len\u00e7ol fre\u00e1tico. O resultado pr\u00e1tico \u00e9 que os aqu\u00edferos recarregam menos, os rios apresentam oscila\u00e7\u00f5es mais bruscas entre cheias e secas, e a disponibilidade h\u00eddrica nas esta\u00e7\u00f5es secas diminui progressivamente. Para os agricultores da regi\u00e3o, isso se traduz em maior depend\u00eancia de irriga\u00e7\u00e3o artificial, aumento dos custos de produ\u00e7\u00e3o e vulnerabilidade crescente a per\u00edodos de estiagem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Restaurar ou conviver com a escassez<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o que se coloca a partir dessas descobertas n\u00e3o \u00e9 apenas cient\u00edfica: \u00e9 econ\u00f4mica e territorial. Restaurar os pinheirais em escala suficiente para recuperar os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos perdidos exige d\u00e9cadas, porque a arauc\u00e1ria \u00e9 uma esp\u00e9cie de crescimento lento e porque a reconex\u00e3o dos fragmentos florestais existentes demanda planejamento paisag\u00edstico em n\u00edvel regional. A arauc\u00e1ria leva entre 15 e 20 anos para atingir maturidade produtiva e d\u00e9cadas adicionais para reconstituir a estrutura de dossel que torna a intercepta\u00e7\u00e3o de neblina eficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, iniciativas de restaura\u00e7\u00e3o em andamento no Paran\u00e1 e em Santa Catarina mostram que o processo \u00e9 vi\u00e1vel quando h\u00e1 articula\u00e7\u00e3o entre produtores rurais, poder p\u00fablico e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa. Sistemas agroflorestais que integram arauc\u00e1rias a cultivos de erva-mate, por exemplo, t\u00eam ganhado espa\u00e7o como modelo capaz de conciliar produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e recupera\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, oferecendo aos agricultores uma alternativa ao monocultivo que degrada progressivamente o capital natural do qual dependem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que a ci\u00eancia tornou claro \u00e9 que a derrubada das arauc\u00e1rias n\u00e3o foi apenas uma perda de biodiversidade. Foi a desativa\u00e7\u00e3o de um sistema de regula\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e h\u00eddrica que o Sul do Brasil levou mil\u00eanios para construir e menos de um s\u00e9culo para destruir. Reconstru\u00ed-lo parcialmente, mesmo que em prazo longo e com esfor\u00e7o consider\u00e1vel, \u00e9 mais barato do que lidar indefinidamente com as consequ\u00eancias de sua aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias para consulta<\/h3>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>MapBiomas Brasil<\/strong> \u2014 Plataforma de mapeamento anual da cobertura e uso do solo no Brasil, com dados hist\u00f3ricos sobre Floresta Ombr\u00f3fila Mista: <a href=\"https:\/\/mapbiomas.org\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/mapbiomas.org<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><strong>UFSM \u2014 Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia Florestal<\/strong> \u2014 Pesquisas sobre Floresta Ombr\u00f3fila Mista e servi\u00e7os ecossist\u00eamicos: <a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/ppgef\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/ppgef<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><strong>IBGE \u2014 Biomas e Sistema Costeiro-Marinho do Brasil<\/strong> \u2014 Base de dados geogr\u00e1ficos sobre cobertura vegetal original e atual: <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/geociencias\/informacoes-ambientais\/vegetacao\/15842-biomas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ibge.gov.br\/geociencias\/informacoes-ambientais\/vegetacao\/15842-biomas.html<\/a><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia um tempo em que o Planalto Serrano de Santa Catarina acordava envolto em neblina quase todos os dias do inverno. 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