{"id":35995,"date":"2026-06-09T10:20:38","date_gmt":"2026-06-09T13:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=35995"},"modified":"2026-06-09T10:20:39","modified_gmt":"2026-06-09T13:20:39","slug":"neandertais-insetos-dieta-evolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/neandertais-insetos-dieta-evolucao\/","title":{"rendered":"T\u00e1rtaro dent\u00e1rio de 100 mil anos guardou a prova de que neandertais comiam insetos e n\u00f3s perdemos esse h\u00e1bito por raz\u00f5es gen\u00e9ticas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 algo guardado nos dentes de quem viveu h\u00e1 100 mil anos que nenhum f\u00f3ssil convencional seria capaz de revelar: os rastros gen\u00e9ticos do que essas pessoas comeram ao longo da vida. O t\u00e1rtaro dent\u00e1rio, aquela camada calcificada que os dentistas removem nas consultas de rotina, funciona como uma c\u00e1psula do tempo biol\u00f3gica, preservando fragmentos de DNA de alimentos, microrganismos e part\u00edculas ambientais ingeridas ao longo de d\u00e9cadas. \u00c9 a partir desse material improv\u00e1vel que um grupo de cientistas do Instituto de Biologia Evolutiva (IBE), na Espanha, acaba de lan\u00e7ar luz sobre uma das transi\u00e7\u00f5es alimentares mais antigas da hist\u00f3ria humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo, publicado na revista <em>Science Advances<\/em>, analisou 745 amostras de t\u00e1rtaro dent\u00e1rio de indiv\u00edduos que viveram entre 9 mil e mais de 100 mil anos atr\u00e1s, em diferentes regi\u00f5es da Eur\u00e1sia. O objetivo era rastrear a presen\u00e7a de DNA de insetos nessas amostras e entender se o consumo desses animais foi, de fato, uma pr\u00e1tica disseminada entre nossos ancestrais ou se a entomofagia, como \u00e9 chamado tecnicamente o h\u00e1bito de comer insetos, sempre teve distribui\u00e7\u00e3o desigual entre as popula\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que os dentes contam sobre o card\u00e1pio pr\u00e9-hist\u00f3rico<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os resultados surpreenderam pela clareza do padr\u00e3o encontrado. Os Homo sapiens que viveram na Europa, na \u00c1sia Central e na \u00c1sia Oriental praticamente n\u00e3o deixaram rastros de DNA de insetos em seus dentes. Quando esses fragmentos apareciam, a quantidade e o tipo de esp\u00e9cies identificadas apontavam para ingest\u00e3o acidental, provavelmente via \u00e1gua ou alimentos contaminados, e n\u00e3o para um consumo deliberado e regular.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A escassa presen\u00e7a de insetos na dieta das popula\u00e7\u00f5es do norte da Eur\u00e1sia sugere que a aus\u00eancia de entomofagia n\u00e3o se deve apenas a fatores culturais recentes, mas tamb\u00e9m reflete uma longa hist\u00f3ria ecol\u00f3gica e evolutiva&#8221;<\/em>, afirma Pablo Librado, l\u00edder do estudo e pesquisador principal do IBE.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cen\u00e1rio muda completamente quando a an\u00e1lise chega \u00e0s 18 amostras de t\u00e1rtaro dent\u00e1rio pertencentes a neandertais. A concentra\u00e7\u00e3o de DNA de insetos encontrada foi significativamente maior do que nos humanos modernos e compar\u00e1vel \u00e0 registrada em chimpanz\u00e9s selvagens, que complementam a dieta com insetos especialmente em per\u00edodos de escassez alimentar. Entre os fragmentos identificados nos dentes dos neandertais, se destacaram os d\u00edpteros: o grupo que inclui moscas e mosquitos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Carca\u00e7as, larvas e a dieta oportunista dos neandertais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a expressiva de d\u00edpteros levou os pesquisadores a uma hip\u00f3tese instigante. Larvas de moscas se desenvolvem tipicamente em tecidos em decomposi\u00e7\u00e3o, o que sugere que parte dos insetos encontrados nos dentes dos neandertais pode ter chegado ali junto com o consumo de carca\u00e7as de animais. Essa descoberta se encaixa num conjunto crescente de estudos que revisam a imagem dos neandertais como ca\u00e7adores exclusivos, apontando para uma dieta muito mais diversa e oportunista do que se imaginou por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A abund\u00e2ncia de restos de mosquitos refor\u00e7a a possibilidade de que as carca\u00e7as de suas presas permanecessem em lagoas e \u00e1reas pantanosas, ambientes ideais para a postura de ovos desses insetos&#8221;<\/em>, explica Librado.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de analisar o conte\u00fado do t\u00e1rtaro, os cientistas investigaram os genes envolvidos na digest\u00e3o da quitina, a subst\u00e2ncia r\u00edgida que forma o exoesqueleto de insetos, crust\u00e1ceos e outros artr\u00f3podes. O foco recaiu sobre os genes respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o das quitinases, enzimas que atuam como uma esp\u00e9cie de tesoura molecular capaz de quebrar esse material no sistema digestivo. O que os dados gen\u00f4micos revelaram completou o quadro de forma coerente: as popula\u00e7\u00f5es humanas do norte da Eur\u00e1sia acumularam muta\u00e7\u00f5es que reduziram progressivamente a capacidade de processar a quitina, e esse padr\u00e3o est\u00e1 presente h\u00e1 pelo menos 9 mil anos, desde as primeiras fases da agricultura na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Gen\u00e9tica moldada pela geografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os neandertais e o \u00fanico indiv\u00edduo denisovano inclu\u00eddo na an\u00e1lise apresentaram um perfil gen\u00e9tico oposto, com variantes que favoreciam a digest\u00e3o de insetos. Esse mesmo perfil aparece ainda hoje em popula\u00e7\u00f5es que vivem pr\u00f3ximas aos tr\u00f3picos, onde insetos s\u00e3o abundantes, diversificados e acess\u00edveis ao longo do ano inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica por tr\u00e1s dessa distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 direta. Nos ambientes tropicais, insetos sociais como cupins e formigas formam col\u00f4nias densas e localiz\u00e1veis, o que torna a coleta vi\u00e1vel e energeticamente compensadora. Nas latitudes mais altas, essa abund\u00e2ncia simplesmente n\u00e3o existe na mesma escala, e o esfor\u00e7o de coletar insetos em quantidade suficiente para representar ganho cal\u00f3rico real deixou de valer a pena ao longo das gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Grandes quantidades de insetos precisam ser consumidas para compensar o alto custo cal\u00f3rico envolvido em sua coleta. Nos tr\u00f3picos, insetos sociais como cupins e formigas s\u00e3o mais facilmente encontrados: sua biomassa e diversidade permitem a explora\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel ao longo do ano&#8221;<\/em>, detalha Manuel Pi\u00f1ero, primeiro autor do estudo e pesquisador de doutorado do IBE.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que grupos humanos migraram para regi\u00f5es mais frias e distantes dos tr\u00f3picos, a press\u00e3o evolutiva para manter uma digest\u00e3o eficiente de quitina foi diminuindo. O resultado, acumulado ao longo de mil\u00eanios, foi uma redu\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica gradual nessa capacidade, que hoje se reflete tanto nos dados gen\u00f4micos das popula\u00e7\u00f5es quanto na resist\u00eancia cultural ao consumo de insetos em grande parte do mundo ocidental.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O paradoxo do futuro alimentar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ironia de tudo isso \u00e9 que, justamente quando a ci\u00eancia comprova que humanos do norte do planeta perderam a capacidade ancestral de comer insetos com efici\u00eancia, organismos internacionais como a FAO defendem com crescente veem\u00eancia que esses animais representam uma das alternativas mais sustent\u00e1veis para alimentar uma popula\u00e7\u00e3o global em expans\u00e3o. Hoje, mais de 1.600 esp\u00e9cies s\u00e3o consideradas comest\u00edveis e integram a dieta de centenas de milh\u00f5es de pessoas em diferentes regi\u00f5es do mundo, especialmente no continente africano, na \u00c1sia e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A limita\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica identificada pelo estudo, por\u00e9m, pode ter solu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Os autores apontam que m\u00e9todos modernos de processamento alimentar s\u00e3o capazes de extrair prote\u00ednas e nutrientes dos insetos sem exigir que o organismo humano digira grandes volumes de quitina. Farinhas, extratos e concentrados proteicos derivados de insetos contornam exatamente esse gargalo evolutivo, abrindo espa\u00e7o para que esses animais se tornem uma fonte proteica vi\u00e1vel tanto para consumo humano quanto para a produ\u00e7\u00e3o de ra\u00e7\u00e3o animal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que os dentes de neandertais guardaram durante centenas de milhares de anos, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas um registro do passado: \u00e9 tamb\u00e9m um mapa das adapta\u00e7\u00f5es que a humanidade precisar\u00e1 renegociar para enfrentar os desafios alimentares que est\u00e3o por vir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algo guardado nos dentes de quem viveu h\u00e1 100 mil anos que nenhum f\u00f3ssil convencional seria capaz de revelar: os rastros gen\u00e9ticos do que essas pessoas comeram ao longo da vida. 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