{"id":36032,"date":"2026-06-10T10:08:20","date_gmt":"2026-06-10T13:08:20","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36032"},"modified":"2026-06-10T10:08:20","modified_gmt":"2026-06-10T13:08:20","slug":"paxiuba-palmeira-andante-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/paxiuba-palmeira-andante-amazonia\/","title":{"rendered":"A lenda da palmeira que anda: o que as ra\u00edzes gigantes da paxi\u00faba escondem de verdade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 poucas coisas na natureza capazes de gerar tanta desconfian\u00e7a nos pr\u00f3prios olhos quanto uma palmeira cujo tronco parece ter se deslocado alguns metros desde a \u00faltima vez que voc\u00ea passou por ali. Na Amaz\u00f4nia, essa experi\u00eancia \u00e9 real e recorrente para quem convive com a paxi\u00faba, uma palmeira de ra\u00edzes a\u00e9reas t\u00e3o imponentes que lembram as pernas de uma aranha gigante saindo do solo. A impress\u00e3o de movimento \u00e9 t\u00e3o convincente que a esp\u00e9cie ganhou nomes populares que sustentam a lenda h\u00e1 s\u00e9culos: palmeira-andante, palmeira-caminhante, sete-pernas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;\u00c9 um processo natural de substitui\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes de apoio. Novas ra\u00edzes crescem e as antigas se decomp\u00f5em, gerando uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de movimento&#8221;<\/em>, explica Osvanda Silva de Moura, doutora em Bot\u00e2nica e professora da Universidade Federal de Rond\u00f4nia (Unir).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que ocorre, na pr\u00e1tica, \u00e9 uma renova\u00e7\u00e3o cont\u00ednua das ra\u00edzes escora, que s\u00e3o as estruturas respons\u00e1veis por sustentar o tronco acima do solo. \u00c0 medida que novas ra\u00edzes emergem em dire\u00e7\u00f5es diferentes, as antigas se decomp\u00f5em e desaparecem. Para quem observa a planta em momentos distintos, a posi\u00e7\u00e3o aparente do tronco parece ter mudado, criando a ilus\u00e3o de deslocamento. N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia cient\u00edfica de que o tronco da paxi\u00faba se mova de fato. O que se move, ao longo do tempo, \u00e9 o conjunto de ra\u00edzes que o sustenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, o mito tem uma l\u00f3gica bot\u00e2nica por tr\u00e1s. A paxi\u00faba \u00e9 encontrada principalmente em v\u00e1rzeas, igap\u00f3s e regi\u00f5es sujeitas a alagamentos peri\u00f3dicos, ambientes onde o solo \u00e9 inst\u00e1vel e a l\u00e2mina de \u00e1gua pode cobrir as ra\u00edzes por semanas. Nesses contextos, a renova\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes escora \u00e9 ainda mais intensa e vis\u00edvel, o que alimenta a percep\u00e7\u00e3o de movimento com mais frequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ra\u00edzes que fazem o trabalho de um andaime vivo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As ra\u00edzes que deram fama \u00e0 paxi\u00faba n\u00e3o s\u00e3o apenas esteticamente impressionantes. Elas representam uma solu\u00e7\u00e3o engenhosa da evolu\u00e7\u00e3o para um dos ambientes mais desafiadores da floresta tropical.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A principal fun\u00e7\u00e3o dessas ra\u00edzes \u00e9 garantir estabilidade em solos pantanosos, inst\u00e1veis e frequentemente alagados&#8221;<\/em>, afirma Osvanda. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da sustenta\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, as ra\u00edzes a\u00e9reas contribuem para a troca de gases em solos com baixa concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio, um problema comum em \u00e1reas de inunda\u00e7\u00e3o onde a respira\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes subterr\u00e2neas fica comprometida. O sistema tamb\u00e9m permite que a planta posicione o tronco em alturas que favorecem o acesso \u00e0 luz, o que em florestas densas representa uma vantagem competitiva consider\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conjunto dessas ra\u00edzes forma um cone invertido ao redor da base do tronco, com estruturas espinhosas que podem atingir at\u00e9 dois metros de altura. Em exemplares mais desenvolvidos, o visual \u00e9 inconfund\u00edvel e, para quem nunca viu antes, genuinamente desconcertante.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma palmeira no centro da cadeia alimentar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A paxi\u00faba, conhecida cientificamente como Socratea exorrhiza e pertencente \u00e0 fam\u00edlia Arecaceae, est\u00e1 presente desde a Am\u00e9rica Central at\u00e9 a Bacia Amaz\u00f4nica. Sua import\u00e2ncia ecol\u00f3gica, por\u00e9m, vai muito al\u00e9m das ra\u00edzes espetaculares. Os frutos da esp\u00e9cie s\u00e3o consumidos por uma variedade expressiva de animais: macacos, antas, porcos-do-mato, tucanos e diversas outras aves dependem dessa fonte alimentar em determinados per\u00edodos do ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Ela serve de base para a cadeia alimentar local. Os animais que consomem seus frutos tamb\u00e9m ajudam na dispers\u00e3o das sementes, contribuindo para a regenera\u00e7\u00e3o da floresta&#8221;<\/em>, destaca a pesquisadora.  As ra\u00edzes, por sua vez, funcionam como abrigo para pequenos mam\u00edferos, insetos e outros organismos que encontram nessas estruturas prote\u00e7\u00e3o e microclima adequado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa dupla fun\u00e7\u00e3o, de fonte de alimento e de habitat, coloca a paxi\u00faba numa posi\u00e7\u00e3o central dentro do ecossistema. Esp\u00e9cies com esse perfil s\u00e3o chamadas de esp\u00e9cies-chave: sua presen\u00e7a sustenta uma teia de rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas que dependem diretamente dela para se manter.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O uso milenar pelas comunidades da floresta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do papel ecol\u00f3gico, a paxi\u00faba faz parte da hist\u00f3ria e do cotidiano das comunidades amaz\u00f4nicas h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es. A madeira do tronco \u00e9 utilizada na constru\u00e7\u00e3o de casas e estruturas r\u00fasticas, valorizada pela durabilidade mesmo em ambientes \u00famidos. As sementes s\u00e3o aproveitadas no artesanato e na fabrica\u00e7\u00e3o de biojoias, e h\u00e1 registros consolidados de usos na medicina tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos usos mais curiosos, por\u00e9m, envolve justamente as ra\u00edzes espinhosas que definem a identidade visual da planta. <em>&#8220;As ra\u00edzes passam por um processo de prepara\u00e7\u00e3o para que os espinhos fiquem mais resistentes e possam ser utilizados nesse trabalho&#8221;<\/em>, explica Osvanda, referindo-se ao aproveitamento das ra\u00edzes como raladores de mandioca por comunidades da regi\u00e3o. A adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 um exemplo de como a floresta oferece solu\u00e7\u00f5es funcionais que as popula\u00e7\u00f5es tradicionais aprenderam a reconhecer e utilizar com precis\u00e3o ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que o desaparecimento da paxi\u00faba significaria<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como a maioria das esp\u00e9cies amaz\u00f4nicas, a paxi\u00faba enfrenta amea\u00e7as crescentes. O desmatamento, as queimadas e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas pressionam os ambientes \u00famidos onde ela prospera, reduzindo gradualmente o territ\u00f3rio dispon\u00edvel para a esp\u00e9cie. O impacto de sua eventual extin\u00e7\u00e3o local, segundo Osvanda, n\u00e3o se limitaria \u00e0 perda de uma palmeira.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Os frutos alimentam diversos animais, as ra\u00edzes servem de abrigo para a fauna e a esp\u00e9cie participa da din\u00e2mica da floresta. Sua aus\u00eancia provocaria efeitos em cascata&#8221;<\/em>, alerta a pesquisadora. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda esp\u00e9cie com papel de elo na cadeia alimentar, quando desaparece, arrasta consigo uma s\u00e9rie de rela\u00e7\u00f5es que dependiam dela para existir. Animais dispersores de sementes que dependiam dos frutos da paxi\u00faba precisariam compensar essa perda com outras fontes, e as esp\u00e9cies que usavam as ra\u00edzes como abrigo perderiam um habitat espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 poucas coisas na natureza capazes de gerar tanta desconfian\u00e7a nos pr\u00f3prios olhos quanto uma palmeira cujo tronco parece ter se deslocado alguns metros desde a \u00faltima vez que voc\u00ea passou por ali. 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