{"id":36046,"date":"2026-06-10T15:00:53","date_gmt":"2026-06-10T18:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36046"},"modified":"2026-06-10T15:00:54","modified_gmt":"2026-06-10T18:00:54","slug":"dna-bicho-preguica-metabolismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/dna-bicho-preguica-metabolismo\/","title":{"rendered":"A lentid\u00e3o da pregui\u00e7a est\u00e1 escrita no DNA e a ci\u00eancia levou 30 milh\u00f5es de anos para chegar a essa resposta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos animais despertam tanta curiosidade quanto o bicho-pregui\u00e7a. A lentid\u00e3o extrema, a postura quase est\u00e1tica nas copas das \u00e1rvores e o ritmo de vida que parece desafiar qualquer urg\u00eancia biol\u00f3gica sempre intrigaram pesquisadores. Durante d\u00e9cadas, a explica\u00e7\u00e3o mais aceita era simples: uma dieta pobre em calorias, baseada em folhas de baixo valor nutritivo, impunha um metabolismo reduzido como estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia. Mas um novo estudo publicado na revista cient\u00edfica BMC Biology mostra que a hist\u00f3ria \u00e9 bem mais complexa e que a lentid\u00e3o da pregui\u00e7a est\u00e1 codificada diretamente em seu DNA, resultado de um processo evolutivo com mais de 30 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional com participa\u00e7\u00e3o de cientistas brasileiros, envolveu o sequenciamento e a an\u00e1lise completa do genoma de um bicho-pregui\u00e7a-de-dois-dedos da esp\u00e9cie <em>Choloepus didactylus<\/em>. O objetivo era identificar as bases gen\u00e9ticas do metabolismo excepcionalmente reduzido desses animais e entender como essa caracter\u00edstica se consolidou ao longo da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os &#8220;genes saltadores&#8221; que reescreveram o metabolismo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descoberta central do estudo gira em torno de um tipo de sequ\u00eancia de DNA chamada transposon, mais conhecido pelo apelido de &#8220;gene saltador&#8221;. Esses elementos t\u00eam uma capacidade peculiar: conseguem copiar a si mesmos e se inserir em diferentes regi\u00f5es do genoma, potencialmente alterando o funcionamento de genes pr\u00f3ximos. Em humanos e na maior parte dos mam\u00edferos, esses elementos existem mas permanecem inativos, como fragmentos gen\u00e9ticos silenciosos acumulados ao longo da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas pregui\u00e7as, o cen\u00e1rio \u00e9 radicalmente diferente. Os pesquisadores identificaram uma explos\u00e3o de atividade desses &#8220;genes saltadores&#8221; no ancestral comum de todas as esp\u00e9cies modernas de pregui\u00e7a, ocorrida h\u00e1 aproximadamente 30 milh\u00f5es de anos. Desde ent\u00e3o, muitas dessas sequ\u00eancias n\u00e3o apenas se multiplicaram como foram incorporadas ao funcionamento normal do organismo \u2014 um fen\u00f4meno que os geneticistas chamam de &#8220;domestica\u00e7\u00e3o&#8221; gen\u00e9tica, em que elementos originalmente parasit\u00e1rios do DNA passam a desempenhar fun\u00e7\u00f5es essenciais para o organismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dado que mais surpreendeu os pesquisadores foi o destino dessas sequ\u00eancias: uma propor\u00e7\u00e3o significativa delas est\u00e1 diretamente ligada \u00e0s mitoc\u00f4ndrias, as estruturas celulares respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de energia, e \u00e0s vias metab\u00f3licas que controlam como essa energia \u00e9 consumida. Em outras palavras, os &#8220;genes saltadores&#8221; das pregui\u00e7as acabaram por influenciar justamente o sistema que determina o quanto de energia o animal gasta para existir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como uma pregui\u00e7a sobrevive com t\u00e3o pouca energia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O metabolismo dos bichos-pregui\u00e7a pode ser menos da metade do esperado para mam\u00edferos de porte equivalente. Para sustentar esse n\u00edvel de funcionamento, eles desenvolveram adapta\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m do simples sedentarismo. Ao contr\u00e1rio da maioria dos mam\u00edferos, que mant\u00eam a temperatura corporal rigidamente constante, as pregui\u00e7as conseguem variar parcialmente sua temperatura de acordo com o ambiente ao redor \u2014 uma estrat\u00e9gia que reduz ainda mais o gasto energ\u00e9tico e aproxima seu funcionamento do de alguns r\u00e9pteis.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"900\" src=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/preguica-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-36049\" srcset=\"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/preguica-2.jpg 1000w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/preguica-2-300x270.jpg 300w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/preguica-2-768x691.jpg 768w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/preguica-2-150x135.jpg 150w, https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/preguica-2-750x675.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa combina\u00e7\u00e3o de mobilidade reduzida, metabolismo lento e termorregula\u00e7\u00e3o flex\u00edvel coloca as pregui\u00e7as em uma categoria singular entre os mam\u00edferos. E o estudo ajuda a explicar como essa combina\u00e7\u00e3o \u00e9 sustentada biologicamente sem comprometer a sa\u00fade dos animais, que vivem d\u00e9cadas em bom estado f\u00edsico apesar de operar permanentemente no limite m\u00ednimo de consumo energ\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores identificaram dezenas de genes com sinais claros de que adquiriram fun\u00e7\u00f5es adaptativas ao longo da evolu\u00e7\u00e3o, muitos deles derivados de genes ancestrais envolvidos na produ\u00e7\u00e3o e no gerenciamento de energia celular. A hip\u00f3tese levantada pelo estudo \u00e9 que as pregui\u00e7as podem ter desenvolvido mecanismos gen\u00e9ticos de compensa\u00e7\u00e3o, capazes de manter as fun\u00e7\u00f5es celulares essenciais mesmo quando as mitoc\u00f4ndrias operam em ritmo reduzido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que a pregui\u00e7a tem a dizer para a medicina humana<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A parte da pesquisa que extrapola a biologia dos pregui\u00e7as e entra no campo da medicina humana \u00e9 tamb\u00e9m a mais promissora. Problemas na produ\u00e7\u00e3o de energia celular e no funcionamento mitocondrial est\u00e3o presentes em uma lista extensa de condi\u00e7\u00f5es: diabetes tipo 2, doen\u00e7as neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, sarcopenia (perda muscular associada ao envelhecimento) e uma s\u00e9rie de dist\u00farbios metab\u00f3licos que afetam centenas de milh\u00f5es de pessoas no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O racioc\u00ednio dos pesquisadores \u00e9 direto: se as pregui\u00e7as desenvolveram mecanismos gen\u00e9ticos para manter a sa\u00fade celular em condi\u00e7\u00f5es de baix\u00edssima disponibilidade de energia, estudar esses mecanismos pode revelar caminhos biol\u00f3gicos que a medicina humana ainda n\u00e3o mapeou. C\u00e9lulas derivadas de pregui\u00e7as podem funcionar como modelos naturais para investigar como organismos sobrevivem e se mant\u00eam funcionais em estados de priva\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As aplica\u00e7\u00f5es potenciais alcan\u00e7am at\u00e9 cen\u00e1rios que parecem distantes da biologia animal cotidiana. Pesquisas sobre preserva\u00e7\u00e3o de tecidos para transplantes, medicina intensiva e at\u00e9 as demandas fisiol\u00f3gicas de viagens espaciais de longa dura\u00e7\u00e3o \u2014 nas quais o corpo humano precisa manter fun\u00e7\u00f5es vitais com o m\u00ednimo poss\u00edvel de recursos \u2014 s\u00e3o \u00e1reas que podem se beneficiar das descobertas sobre o genoma das pregui\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os pr\u00f3ximos passos da pesquisa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com as bases gen\u00e9ticas identificadas, a equipe planeja agora aprofundar a investiga\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio, usando culturas celulares e t\u00e9cnicas de sequenciamento de c\u00e9lulas individuais para determinar com precis\u00e3o como cada uma das altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas encontradas influencia o metabolismo dos animais. O objetivo \u00e9 sair do mapeamento gen\u00e9tico e chegar ao mecanismo funcional: entender n\u00e3o apenas quais genes est\u00e3o presentes, mas exatamente o que eles fazem e como ativam ou regulam a produ\u00e7\u00e3o de energia nas c\u00e9lulas das pregui\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a ci\u00eancia, o bicho-pregui\u00e7a deixa de ser apenas o s\u00edmbolo da lentid\u00e3o e passa a ser um laborat\u00f3rio natural de solu\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas desenvolvidas ao longo de dezenas de milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o. A natureza, como frequentemente demonstra, j\u00e1 testou caminhos que a medicina humana ainda est\u00e1 aprendendo a enxergar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos animais despertam tanta curiosidade quanto o bicho-pregui\u00e7a. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36046"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36046\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36050,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36046\/revisions\/36050"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36046"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}