{"id":36178,"date":"2026-06-16T11:05:50","date_gmt":"2026-06-16T14:05:50","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36178"},"modified":"2026-06-16T11:05:51","modified_gmt":"2026-06-16T14:05:51","slug":"alexandre-antonelli-kew-gardens-digitalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/alexandre-antonelli-kew-gardens-digitalizacao\/","title":{"rendered":"O herb\u00e1rio que guardou o mundo por 400 anos e o brasileiro que decidiu abri-lo para todos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia, guardado em arm\u00e1rios e gavetas de uma institui\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica fundada no s\u00e9culo XVIII, um acervo sem paralelo no mundo: 6,4 milh\u00f5es de amostras de plantas coletadas em todos os cantos do planeta ao longo de quatro s\u00e9culos. Flores prensadas da Amaz\u00f4nia, sementes do deserto africano, fungos dos Alpes, esp\u00e9cimes de esp\u00e9cies j\u00e1 extintas. Um patrim\u00f4nio imenso, cient\u00edfico e hist\u00f3rico ao mesmo tempo, que por d\u00e9cadas permaneceu acess\u00edvel apenas a quem pudesse viajar at\u00e9 Londres e abrir pessoalmente aquelas gavetas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi esse cen\u00e1rio que o bi\u00f3logo brasileiro Alexandre Antonelli encontrou ao assumir, em 2019, a dire\u00e7\u00e3o executiva de Ci\u00eancia do Royal Botanic Gardens, Kew, mais conhecido como Kew Gardens. E foi exatamente essa barreira que ele se prop\u00f4s a derrubar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma miss\u00e3o de quatro anos e 1.500 colaboradores<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O projeto de digitaliza\u00e7\u00e3o do acervo do Kew Gardens levou quatro anos para ser conclu\u00eddo, mobilizou cerca de 150 pessoas dentro da institui\u00e7\u00e3o e mais de 1.500 colaboradores em outros pa\u00edses, incluindo pesquisadores brasileiros. Em junho de 2025, Antonelli celebrou a digitaliza\u00e7\u00e3o da \u00faltima exsicata, que \u00e9 como os bot\u00e2nicos chamam as amostras de plantas prensadas, desidratadas e fixadas em cartolina para preserva\u00e7\u00e3o em herb\u00e1rio. A ocasi\u00e3o foi marcada pela visita da ministra da Natureza do Reino Unido, Mary Creagh, ao Kew.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Havia uma preocupa\u00e7\u00e3o com o fato de que pesquisadores e conservacionistas ao redor do mundo n\u00e3o tinham facilidade para consultar esp\u00e9cimes de suas regi\u00f5es de origem. Quer\u00edamos agilizar isso para evitar a perda de biodiversidade e aumentar os resultados cient\u00edficos, como a descri\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e a realiza\u00e7\u00e3o de estudos em evolu\u00e7\u00e3o e ecologia&#8221;<\/em>, explicou Antonelli em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP, durante visita da delega\u00e7\u00e3o brasileira da FAPESP Week Londres ao Kew.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O acervo digitalizado vai muito al\u00e9m das exsicatas. Foram inclu\u00eddos tamb\u00e9m cerca de 1 milh\u00e3o de esp\u00e9cimes do fung\u00e1rio da institui\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de materiais preservados em \u00e1lcool, como flores e frutos que perdem a forma ao serem prensados. Tudo isso est\u00e1 agora acess\u00edvel remotamente, como explica o pr\u00f3prio Antonelli: <em>&#8220;Hoje, qualquer pesquisador no Brasil ou em qualquer lugar pode acessar nossas cole\u00e7\u00f5es virtualmente com a mesma facilidade de uma compra em um e-commerce.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A inspira\u00e7\u00e3o veio do Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que poucos sabem \u00e9 que o megaprojeto brit\u00e2nico teve ra\u00edzes brasileiras. Antonelli revelou que o modelo seguido pelo Kew foi inspirado no Reflora, iniciativa lan\u00e7ada em 2010 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), com apoio da FAPESP no Estado de S\u00e3o Paulo. O Reflora foi pioneiro ao resgatar, por meio de imagens em alta resolu\u00e7\u00e3o, esp\u00e9cimes da flora brasileira depositados em herb\u00e1rios estrangeiros ao longo de s\u00e9culos de explora\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica europeia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse processo tem um nome: repatria\u00e7\u00e3o digital. O conceito se insere num debate mais amplo sobre o legado colonial das grandes institui\u00e7\u00f5es naturais europeias, que acumularam, durante s\u00e9culos, cole\u00e7\u00f5es de plantas, animais e minerais coletados em pa\u00edses do hemisf\u00e9rio Sul sob condi\u00e7\u00f5es que hoje seriam inaceit\u00e1veis. O exemplo mais citado \u00e9 o desvio de mudas de seringueira da Amaz\u00f4nia para o Sudeste Asi\u00e1tico no s\u00e9culo XIX, que destruiu o monop\u00f3lio brasileiro da borracha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antonelli reconhece esse hist\u00f3rico com clareza: existe um d\u00e9bito hist\u00f3rico. A explora\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica foi uma ferramenta imperialista. Ao mesmo tempo, posiciona a digitaliza\u00e7\u00e3o como o caminho concreto para enfrentar esse passado: o objetivo n\u00e3o \u00e9 necessariamente deslocar o objeto f\u00edsico, mas democratizar o acesso ao conhecimento que ele carrega.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que torna o Kew \u00fanico no mundo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com 6,4 milh\u00f5es de exsicatas, o herb\u00e1rio do Kew n\u00e3o \u00e9 o maior do mundo em n\u00famero de amostras, mas carrega um diferencial que o coloca numa categoria pr\u00f3pria: possui o maior n\u00famero de esp\u00e9cimes-tipo do planeta, cerca de 300 mil. Esp\u00e9cimes-tipo s\u00e3o as amostras de refer\u00eancia usadas na descri\u00e7\u00e3o original de cada esp\u00e9cie, o padr\u00e3o a partir do qual todos os demais exemplares s\u00e3o comparados e classificados. Ter 300 mil desses esp\u00e9cimes significa, na pr\u00e1tica, guardar as &#8220;certid\u00f5es de nascimento&#8221; de 300 mil esp\u00e9cies conhecidas pela ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do herb\u00e1rio, o Kew mant\u00e9m no sul da Inglaterra o Millennium Seed Bank, o maior banco de sementes silvestres do mundo: cerca de 2,5 bilh\u00f5es de sementes de mais de 40 mil esp\u00e9cies. A distribui\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de duplicatas entre diferentes institui\u00e7\u00f5es \u00e9 uma das pol\u00edticas centrais da institui\u00e7\u00e3o, justamente para evitar perdas catastr\u00f3ficas como as que ocorreram com os inc\u00eandios no Museu Nacional, em 2018, e no Instituto Butantan, em 2010.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Brasil como parceiro central<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o do Kew com o Brasil vai al\u00e9m da digitaliza\u00e7\u00e3o do Reflora. Antonelli identificou quatro frentes ativas de colabora\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 a expans\u00e3o dos dados do Reflora, conectando registros bot\u00e2nicos a usos sustent\u00e1veis das plantas, como o medicinal, e integrando essas informa\u00e7\u00f5es a bancos de dados internacionais. A segunda \u00e9 a etnobot\u00e2nica, com trabalhos junto a comunidades ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia para documentar esp\u00e9cies utilizadas por elas e repatriar o conhecimento sobre objetos derivados de plantas que fazem parte dos 100 mil artefatos vegetais guardados pelo Kew, cujas t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o foram, em muitos casos, perdidas ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira frente \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o. O Kew atua na Mata Atl\u00e2ntica em parceria com pesquisadores como Pedro Brancalion, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de S\u00e3o Paulo, e Bernardo Strassburg, do Instituto Internacional para Sustentabilidade, usando sensoriamento remoto e intelig\u00eancia artificial para priorizar \u00e1reas de restaura\u00e7\u00e3o. Antonelli lidera pessoalmente um projeto-piloto de corredor ecol\u00f3gico no Rio de Janeiro, ainda em fase experimental, desenvolvendo metodologias em 500 hectares com perspectiva de amplia\u00e7\u00e3o de escala. A quarta frente \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o da diversidade de fungos brasileiros, suas mol\u00e9culas e propriedades, com potencial direto para fortalecer a bioeconomia do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma funda\u00e7\u00e3o pessoal na Mata Atl\u00e2ntica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente ao Kew, Antonelli mant\u00e9m uma funda\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos criada por ele mesmo, com sede em Maca\u00e9 de Cima, no Rio de Janeiro. A Funda\u00e7\u00e3o Antonelli para a Pesquisa e Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade coordena a iniciativa ARA\u00c7\u00c1 (Atlantic Forest Research And Conservation Alliance) e opera uma esta\u00e7\u00e3o de pesquisa aberta a pesquisadores e estudantes, com foco em monitoramento ecol\u00f3gico, estudos de campo e descri\u00e7\u00e3o de novas esp\u00e9cies da Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma trajet\u00f3ria pouco comum no meio cient\u00edfico: um brasileiro que saiu do pa\u00eds, chegou ao posto mais alto de uma das institui\u00e7\u00f5es naturais mais influentes do mundo e voltou parte de sua aten\u00e7\u00e3o, e de seus recursos pessoais, para a biodiversidade que ficou para tr\u00e1s. Para Antonelli, a conserva\u00e7\u00e3o da natureza tem uma vantagem comunicativa que o debate clim\u00e1tico raramente consegue explorar: ela permite resultados vis\u00edveis e r\u00e1pidos na escala do indiv\u00edduo. Cultivar plantas que atraem polinizadores no pr\u00f3prio quintal, por exemplo, j\u00e1 \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o concreta. O mundo digital abriu o herb\u00e1rio. O desafio agora \u00e9 convencer mais pessoas de que vale a pena cuidar do que ele guarda.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><a href=\"https:\/\/agencia.fapesp.br\/o-cientista-brasileiro-que-digitalizou-400-anos-de-historia-da-flora-do-planeta\/58410\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Entrevista concedida por Alexandre Antonelli \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP durante a FAPESP Week Londres<\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia, guardado em arm\u00e1rios e gavetas de uma institui\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica fundada no s\u00e9culo XVIII, um acervo sem paralelo no mundo: 6,4 milh\u00f5es de amostras de plantas coletadas em todos os cantos do planeta ao longo de quatro s\u00e9culos. Flores prensadas da Amaz\u00f4nia, sementes do deserto africano, fungos dos Alpes, esp\u00e9cimes de esp\u00e9cies j\u00e1 extintas. 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