{"id":36305,"date":"2026-06-23T16:05:37","date_gmt":"2026-06-23T19:05:37","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36305"},"modified":"2026-06-23T16:05:38","modified_gmt":"2026-06-23T19:05:38","slug":"diana-carneiro-jill-smythies-award","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/diana-carneiro-jill-smythies-award\/","title":{"rendered":"A professora aposentada de Pinhais que conquistou o pr\u00eamio mais importante da ilustra\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica no mundo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num ateli\u00ea instalado dentro de uma casa no Centro de Pinhais, na Regi\u00e3o Metropolitana de Curitiba, chegam envelopes vindos de laborat\u00f3rios e herb\u00e1rios de diferentes pa\u00edses. Dentro deles, plantas prensadas e desidratadas, conhecidas como exsicatas, que a maioria das pessoas jamais viu e cujos nomes cient\u00edficos poucos reconheceriam. Para Diana Carneiro, esses fragmentos ressecados s\u00e3o o ponto de partida para ilustra\u00e7\u00f5es bot\u00e2nicas que j\u00e1 circulam em publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas de v\u00e1rios continentes. Em maio de 2026, esse trabalho de d\u00e9cadas recebeu o reconhecimento mais alto que um ilustrador bot\u00e2nico pode alcan\u00e7ar: o Jill Smythies Award, concedido pela Linnean Society of London.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Linnean Society, fundada em 1788, \u00e9 considerada a mais antiga sociedade cient\u00edfica dedicada \u00e0 hist\u00f3ria natural ainda em funcionamento no mundo. \u00c9 a mesma institui\u00e7\u00e3o onde, em julho de 1858, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace apresentaram conjuntamente os fundamentos da teoria da evolu\u00e7\u00e3o por sele\u00e7\u00e3o natural, antes mesmo da publica\u00e7\u00e3o de &#8220;A Origem das Esp\u00e9cies&#8221;. Ter o nome associado a esse endere\u00e7o, para qualquer profissional da ci\u00eancia natural, significa entrar num seleto c\u00edrculo de reconhecimento que atravessa s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O pr\u00eamio que leva o nome de uma artista de Kew<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Jill Smythies Award foi criado em homenagem \u00e0 ilustradora bot\u00e2nica brit\u00e2nica Jill Smythies (1927\u20132008), que dedicou boa parte de sua carreira ao Royal Botanic Gardens de Kew, em Londres, um dos centros de pesquisa em bot\u00e2nica mais importantes do planeta. O pr\u00eamio \u00e9 concedido anualmente pela Linnean Society a ilustradores que tenham produzido trabalhos publicados de alta relev\u00e2ncia cient\u00edfica, com foco especial na precis\u00e3o morfol\u00f3gica e na contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e documenta\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies. Diferentemente de premia\u00e7\u00f5es voltadas ao apelo est\u00e9tico, o Jill Smythies Award avalia, antes de tudo, o rigor cient\u00edfico da obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente por isso que ele \u00e9 comparado ao Oscar da \u00e1rea: ser reconhecido aqui significa que cientistas e especialistas de todo o mundo validaram a qualidade do seu trabalho como instrumento da ci\u00eancia, e n\u00e3o apenas como express\u00e3o art\u00edstica. Para o Brasil, que abriga a segunda maior flora do planeta em n\u00famero de esp\u00e9cies, com cerca de 46 mil plantas catalogadas, ter uma ilustradora nacional entre os premiados tem um peso que vai al\u00e9m da trajet\u00f3ria individual.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Vinte e cinco anos ensinando antes de ilustrar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diana Carneiro n\u00e3o chegou \u00e0 ilustra\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica pelo caminho convencional. Durante 25 anos, ela atuou como professora de Ci\u00eancias e Biologia na rede p\u00fablica do Paran\u00e1, boa parte desse tempo no Col\u00e9gio Estadual Arnaldo Busato, onde tamb\u00e9m ajudou a fundar um clube de ci\u00eancias e artes nos anos 1980. A forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica j\u00e1 indicava a fronteira entre os dois mundos que ela habitaria depois: gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e bacharelado em Pintura pela Escola de M\u00fasica e Belas Artes do Paran\u00e1 (EMBAP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao se aposentar da doc\u00eancia, a escolha n\u00e3o foi pelo descanso, mas pela dedica\u00e7\u00e3o integral a um campo que exige tanto do olhar cient\u00edfico quanto do dom\u00ednio t\u00e9cnico das artes visuais. A decis\u00e3o revelou, com o tempo, que os 25 anos em sala de aula haviam sido tamb\u00e9m uma escola de observa\u00e7\u00e3o meticulosa, da mesma qualidade de aten\u00e7\u00e3o que a ilustra\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica exige de quem a pratica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A arte que a fotografia n\u00e3o substituiu<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma pergunta recorrente sobre a ilustra\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica no s\u00e9culo da fotografia de alta resolu\u00e7\u00e3o e dos microsc\u00f3pios digitais: por que ainda desenhar \u00e0 m\u00e3o? A resposta est\u00e1 no que o ilustrador pode fazer e a c\u00e2mera, sozinha, n\u00e3o consegue.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma fotografia registra o que est\u00e1 diante da lente num determinado \u00e2ngulo, com determinada luz, naquele instante. Um ilustrador bot\u00e2nico treinado, ao contr\u00e1rio, pode combinar informa\u00e7\u00f5es de m\u00faltiplas amostras, destacar estruturas diagn\u00f3sticas que identificam a esp\u00e9cie, suprimir elementos que n\u00e3o t\u00eam relev\u00e2ncia taxon\u00f4mica e criar uma imagem que representa a planta de forma mais completa e \u00fatil para a ci\u00eancia do que qualquer fotografia isolada conseguiria. Em esp\u00e9cies novas para a ci\u00eancia, esse tipo de ilustra\u00e7\u00e3o integra obrigatoriamente as publica\u00e7\u00f5es de descri\u00e7\u00e3o formal da esp\u00e9cie, e \u00e9 a partir dela que outros pesquisadores do mundo inteiro passam a reconhecer aquele organismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse territ\u00f3rio que Diana Carneiro trabalha. As t\u00e9cnicas que utiliza, bico de pena e aquarela, s\u00e3o as mesmas empregadas por ilustradores que documentaram a flora brasileira nos s\u00e9culos XVIII e XIX, durante as grandes expedi\u00e7\u00f5es naturalistas. A diferen\u00e7a \u00e9 que hoje o ateli\u00ea de Pinhais recebe amostras digitalizadas e materiais enviados por pesquisadores de outros pa\u00edses, expandindo o alcance do trabalho muito al\u00e9m das fronteiras do Paran\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Mata Atl\u00e2ntica como mat\u00e9ria-prima<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grande parte das esp\u00e9cies retratadas por Diana vem da Mata Atl\u00e2ntica, um dos biomas com maior concentra\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies end\u00eamicas do planeta e, ao mesmo tempo, um dos mais amea\u00e7ados. Restam hoje menos de 12% da cobertura original do bioma, e a ci\u00eancia corre contra o tempo para catalogar e descrever esp\u00e9cies que podem desaparecer antes mesmo de serem formalmente nomeadas. Nesse contexto, o trabalho de ilustradores bot\u00e2nicos com a precis\u00e3o de Diana tem valor documental concreto: suas imagens ficam registradas em publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas permanentes, garantindo que a morfologia daquelas plantas exista como refer\u00eancia mesmo que os esp\u00e9cimes originais um dia se percam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As obras de Diana j\u00e1 ilustram livros e publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas em v\u00e1rios pa\u00edses, produzidas a partir das exsicatas que chegam ao ateli\u00ea com vegetais prensados e desidratados. O processo de transformar um fragmento ressecado numa ilustra\u00e7\u00e3o precisa exige horas de observa\u00e7\u00e3o, consulta bibliogr\u00e1fica e execu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica cuidadosa, com foco total na morfologia da planta, nas propor\u00e7\u00f5es corretas, nos detalhes das nervuras, p\u00e9talas, estames e frutos que permitem a identifica\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Forma\u00e7\u00e3o de novos ilustradores e legado editorial<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O reconhecimento internacional n\u00e3o esgota a contribui\u00e7\u00e3o de Diana ao campo. Paralelamente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, ela atua na forma\u00e7\u00e3o de novos ilustradores por meio de cursos e da publica\u00e7\u00e3o do livro &#8220;Ilustra\u00e7\u00e3o Bot\u00e2nica: Princ\u00edpios e M\u00e9todos&#8221;, lan\u00e7ado pela Editora UFPR, que se tornou refer\u00eancia did\u00e1tica na \u00e1rea. Seu trabalho tamb\u00e9m aparece em materiais did\u00e1ticos, livros infantis e guias de campo voltados \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ampliando o alcance da bot\u00e2nica para al\u00e9m dos laborat\u00f3rios e das revistas especializadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa atua\u00e7\u00e3o coloca Diana numa posi\u00e7\u00e3o rara: ela \u00e9 simultaneamente produtora de ci\u00eancia, artista reconhecida internacionalmente e educadora com d\u00e9cadas de experi\u00eancia. O Jill Smythies Award 2026 n\u00e3o \u00e9 apenas um pr\u00eamio por uma obra espec\u00edfica. \u00c9 o reconhecimento de uma trajet\u00f3ria constru\u00edda com consist\u00eancia, rigor e a convic\u00e7\u00e3o de que a arte pode ser, ela mesma, um instrumento indispens\u00e1vel para a ci\u00eancia entender e preservar o mundo vivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num ateli\u00ea instalado dentro de uma casa no Centro de Pinhais, na Regi\u00e3o Metropolitana de Curitiba, chegam envelopes vindos de laborat\u00f3rios e herb\u00e1rios de diferentes pa\u00edses. Dentro deles, plantas prensadas e desidratadas, conhecidas como exsicatas, que a maioria das pessoas jamais viu e cujos nomes cient\u00edficos poucos reconheceriam. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36305","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36305"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36305\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36307,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36305\/revisions\/36307"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36305"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36305"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36305"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36305"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}