{"id":36315,"date":"2026-06-24T10:12:10","date_gmt":"2026-06-24T13:12:10","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36315"},"modified":"2026-06-24T10:12:11","modified_gmt":"2026-06-24T13:12:11","slug":"propolis-azul-mandacaia-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/propolis-azul-mandacaia-pesquisa\/","title":{"rendered":"O que a abelha manda\u00e7aia produz que a ci\u00eancia demorou d\u00e9cadas para perceber"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil abriga a maior diversidade de abelhas sem ferr\u00e3o do mundo, com cerca de 300 esp\u00e9cies catalogadas distribu\u00eddas por todos os biomas. Durante d\u00e9cadas, por\u00e9m, o potencial farmacol\u00f3gico dos produtos dessas abelhas ficou \u00e0 sombra da pr\u00f3polis convencional, produzida pela Apis mellifera, esp\u00e9cie introduzida da Europa e amplamente dominante no mercado. Uma pesquisa conduzida em parceria entre o Instituto de Tecnologia do Paran\u00e1 (Tecpar) e a Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) come\u00e7a a mudar essa perspectiva com dados concretos \u2014 e o protagonista \u00e9 um produto de colora\u00e7\u00e3o incomum chamado pr\u00f3polis azul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A disserta\u00e7\u00e3o de mestrado defendida pelo pesquisador Vitor Luis Fagundes, no programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias farmac\u00eauticas da UFPR, \u00e9 a primeira a estabelecer uma compara\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica entre a pr\u00f3polis azul e as pr\u00f3polis verde e vermelha, as duas variedades mais consolidadas comercialmente. O resultado mais importante do estudo surpreendeu: al\u00e9m de apresentar composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica semelhante \u00e0s demais, a pr\u00f3polis azul demonstrou atividade antibacteriana superior \u00e0 observada nas outras variedades avaliadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que \u00e9 a pr\u00f3polis azul e por que ela ficou de fora do radar por tanto tempo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00f3polis azul \u00e9 produzida por abelhas sem ferr\u00e3o, em especial pela manda\u00e7aia, a Melipona quadrifasciata, esp\u00e9cie nativa da Mata Atl\u00e2ntica. A colora\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica resulta da combina\u00e7\u00e3o de resinas e compostos coletados pelas abelhas em esp\u00e9cies vegetais espec\u00edficas do bioma, processo diferente do que ocorre com as abelhas africanizadas, que percorrem fontes bot\u00e2nicas mais diversas e amplamente estudadas, como o alecrim-do-campo para a pr\u00f3polis verde e a aroeira-vermelha para a pr\u00f3polis vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desinteresse cient\u00edfico por esse produto at\u00e9 recentemente tem uma explica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica: o volume produzido pelas abelhas sem ferr\u00e3o \u00e9 muito menor do que o das esp\u00e9cies com ferr\u00e3o. Enquanto uma colmeia de Apis mellifera pode produzir centenas de gramas de pr\u00f3polis por ano, uma colmeia de manda\u00e7aia produz entre 20 e 80 gramas. Essa escassez tornava a mat\u00e9ria-prima cara e dificultava a padroniza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para estudos farmacol\u00f3gicos em larga escala. O que o trabalho do Tecpar e da UFPR demonstra \u00e9 que esse obst\u00e1culo n\u00e3o invalida o potencial do produto, e que o valor agregado da pr\u00f3polis azul pode compensar economicamente a menor escala de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A pesquisa e o que ela revelou<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo conduzido por Fagundes avaliou a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e as atividades antimicrobiana e citot\u00f3xica das tr\u00eas variedades de pr\u00f3polis. A an\u00e1lise qu\u00edmica identificou que a pr\u00f3polis azul compartilha com as demais grupos de compostos bioativos relevantes, o que sustenta a hip\u00f3tese de que seu mecanismo de a\u00e7\u00e3o farmacol\u00f3gica percorre caminhos semelhantes. O ponto de destaque, por\u00e9m, foi a performance nos testes antibacterianos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A parceria com o Tecpar foi fundamental, uma vez que o pesquisador Renato Rau identificou a lacuna de conhecimento existente sobre a pr\u00f3polis azul, e disponibilizou as amostras necess\u00e1rias para o desenvolvimento da pesquisa e esteve sempre disposto a colaborar ao longo do processo&#8221;<\/em>, afirma Vitor Luis Fagundes. O pesquisador ressalta que os resultados demonstraram atividade biol\u00f3gica robusta, com a pr\u00f3polis azul superando as demais variedades nos testes de atividade antibacteriana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Renato Rau, pesquisador do Tecpar e coordenador do projeto de meliponicultura em Morretes, no Litoral do Paran\u00e1, detalha o perfil terap\u00eautico identificado: <em>&#8220;A pr\u00f3polis azul tem caracter\u00edsticas medicinais que podem contribuir em a\u00e7\u00f5es antimicrobiana, anti-inflamat\u00f3ria, antiparasit\u00e1ria, antiviral e antitumoral. \u00c9 ainda um importante fortalecedor do sistema imunol\u00f3gico, equilibrando o organismo, e apresenta atividade antibi\u00f3tica, efeitos esses muito superiores quando comparado ao uso das outras pr\u00f3polis.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O pr\u00f3ximo passo: encontrar a assinatura qu\u00edmica da pr\u00f3polis azul<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todo produto natural com potencial farmacol\u00f3gico consolidado possui o que os pesquisadores chamam de mol\u00e9cula tipificadora, um marcador qu\u00edmico que funciona como identidade do produto e serve de refer\u00eancia para controle de qualidade, padroniza\u00e7\u00e3o industrial e registro regulat\u00f3rio. Para a pr\u00f3polis verde, esse papel \u00e9 exercido pelo Artepillin C, composto isolado nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000 e respons\u00e1vel por consolidar o Brasil como refer\u00eancia mundial nessa variedade. A pr\u00f3polis azul ainda n\u00e3o tem sua mol\u00e9cula tipificadora identificada, e esse \u00e9 exatamente o pr\u00f3ximo objetivo da parceria Tecpar-UFPR.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A import\u00e2ncia desse passo n\u00e3o pode ser subestimada. Sem um marcador qu\u00edmico definido, a pr\u00f3polis azul n\u00e3o pode ser padronizada para uso farmac\u00eautico nem registrada junto \u00e0 ANVISA como insumo medicinal. A identifica\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula tipificadora abre as portas para que o produto percorra o mesmo caminho j\u00e1 trilhado pela pr\u00f3polis verde brasileira, que hoje \u00e9 exportada para Jap\u00e3o, Estados Unidos e pa\u00edses europeus como mat\u00e9ria-prima de alto valor.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O mercado global e o que o Brasil tem a ganhar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado mundial de pr\u00f3polis movimenta cifras expressivas. Estimativas do setor indicam que o segmento global de produtos \u00e0 base de pr\u00f3polis ultrapassou US$ 500 milh\u00f5es em valor de mercado nos \u00faltimos anos, com crescimento impulsionado pela demanda asi\u00e1tica, especialmente japonesa e coreana, onde o produto \u00e9 amplamente utilizado em suplementos e cosm\u00e9ticos. O Brasil j\u00e1 \u00e9 reconhecido internacionalmente pela qualidade da pr\u00f3polis verde do cerrado, mas a pr\u00f3polis azul ainda \u00e9 praticamente desconhecida fora do Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a pesquisa avan\u00e7ar e a mol\u00e9cula tipificadora for identificada, o Brasil pode ter em m\u00e3os um produto exclusivo, origin\u00e1rio de uma abelha nativa, com a\u00e7\u00e3o farmacol\u00f3gica documentada e produ\u00e7\u00e3o concentrada em biomas que o pa\u00eds det\u00e9m com exclusividade. Esse conjunto de fatores cria uma janela de oportunidade dif\u00edcil de replicar por outros pa\u00edses produtores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Morretes como laborat\u00f3rio vivo da meliponicultura<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto a ci\u00eancia avan\u00e7a no laborat\u00f3rio, o Tecpar j\u00e1 construiu uma estrutura produtiva concreta no Litoral do Paran\u00e1. Em parceria com a prefeitura de Morretes, o instituto capacitou mais de 50 agricultores familiares para o manejo de abelhas sem ferr\u00e3o e distribuiu mais de 100 caixas racionais para o desenvolvimento da cadeia produtiva de pr\u00f3polis azul na regi\u00e3o. O projeto une gera\u00e7\u00e3o de renda, preserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies nativas e produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria-prima para pesquisa, criando um modelo de desenvolvimento que pode ser replicado em outros munic\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A expans\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 planejada. Celso Kloss, diretor de Novos Neg\u00f3cios e Rela\u00e7\u00f5es Institucionais do Tecpar, confirma que o pr\u00f3ximo passo \u00e9 selecionar fam\u00edlias rurais nos sete munic\u00edpios do Litoral do Paran\u00e1 para ingressar no projeto com colmeias de abelha manda\u00e7aia. <em>&#8220;Esse \u00e9 o resultado social do projeto, que vai ainda estudar novos produtos \u00e0 base de mel e de pr\u00f3polis. Essa a\u00e7\u00e3o demonstra o impacto do Tecpar, instituto de ci\u00eancia e tecnologia do Governo do Estado: usar a pesquisa cient\u00edfica como indutor de desenvolvimento&#8221;<\/em>, afirma Kloss.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha de Morretes n\u00e3o \u00e9 casual. O munic\u00edpio integra a \u00e1rea de Mata Atl\u00e2ntica do Litoral paranaense, bioma onde a manda\u00e7aia encontra as condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas ideais para seu desenvolvimento e onde a diversidade bot\u00e2nica contribui para a riqueza qu\u00edmica da pr\u00f3polis produzida. Manter abelhas nativas nesse contexto tamb\u00e9m tem fun\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica direta: as melipon\u00edneas s\u00e3o polinizadoras essenciais de esp\u00e9cies vegetais nativas, e a meliponicultura bem manejada contribui para a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade local.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma abelha pequena, um composto raro, uma ci\u00eancia em constru\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pr\u00f3polis azul chega ao radar cient\u00edfico com um hist\u00f3rico de uso tradicional por comunidades que convivem com abelhas sem ferr\u00e3o h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, mas sem a documenta\u00e7\u00e3o farmacol\u00f3gica que permitia seu reconhecimento formal. A pesquisa do Tecpar e da UFPR n\u00e3o resolve tudo de uma vez, mas estabelece a base sobre a qual os pr\u00f3ximos estudos ser\u00e3o constru\u00eddos, incluindo os testes de a\u00e7\u00e3o farmacol\u00f3gica em modelos mais complexos e a busca pelo registro regulat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para um pa\u00eds que ainda explora uma fra\u00e7\u00e3o do potencial de sua biodiversidade, a trajet\u00f3ria da pr\u00f3polis azul \u00e9 um exemplo de como a ci\u00eancia aplicada a esp\u00e9cies nativas pode gerar valor econ\u00f4mico, preserva\u00e7\u00e3o ambiental e benef\u00edcio social ao mesmo tempo. A manda\u00e7aia sempre soube o que produzia. O que faltava era algu\u00e9m disposto a prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil abriga a maior diversidade de abelhas sem ferr\u00e3o do mundo, com cerca de 300 esp\u00e9cies catalogadas distribu\u00eddas por todos os biomas. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36315","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36315"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36315\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36317,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36315\/revisions\/36317"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36316"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36315"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}