{"id":36327,"date":"2026-06-25T11:02:52","date_gmt":"2026-06-25T14:02:52","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36327"},"modified":"2026-06-25T11:02:53","modified_gmt":"2026-06-25T14:02:53","slug":"lista-fauna-ameacada-icmbio-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/lista-fauna-ameacada-icmbio-2025\/","title":{"rendered":"A arara-azul entrou, nove esp\u00e9cies sumiram para sempre: o que mudou na nova lista de animais amea\u00e7ados do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 animais que desaparecem antes mesmo de serem bem estudados. Outros carregam d\u00e9cadas de esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o nas costas e ainda assim n\u00e3o escapam da lista. A nova atualiza\u00e7\u00e3o da Lista Nacional Oficial de Esp\u00e9cies da Fauna Amea\u00e7adas de Extin\u00e7\u00e3o, publicada pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), re\u00fane os dois extremos em um \u00fanico documento: 790 esp\u00e9cies ou subesp\u00e9cies que ainda existem, mas sob diferentes graus de amea\u00e7a, e nove que o Brasil perdeu de vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atualiza\u00e7\u00e3o substitui a vers\u00e3o anterior, de 2022, e resulta de um processo que envolveu a comunidade cient\u00edfica e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil ao longo de v\u00e1rios anos de avalia\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas do estado de conserva\u00e7\u00e3o de cada grupo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que entrou, o que saiu e o que isso significa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O novo levantamento incluiu 180 esp\u00e9cies ou subesp\u00e9cies que n\u00e3o constavam da vers\u00e3o anterior, ao mesmo tempo em que retirou 150. Esse movimento duplo merece interpreta\u00e7\u00e3o cuidadosa: a sa\u00edda de uma esp\u00e9cie da lista pode significar recupera\u00e7\u00e3o populacional real, mas tamb\u00e9m pode refletir reclassifica\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica ou aus\u00eancia de dados suficientes para manter o status. Nos dois casos, o monitoramento cont\u00ednuo \u00e9 o que define se a not\u00edcia \u00e9 boa ou apenas provis\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as inclus\u00f5es mais emblem\u00e1ticas est\u00e1 a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), classificada como Vulner\u00e1vel (VU). A esp\u00e9cie, s\u00edmbolo do Pantanal e alvo de programas de conserva\u00e7\u00e3o desde os anos 1990, havia sa\u00eddo das listas anteriores ap\u00f3s a recupera\u00e7\u00e3o parcial de suas popula\u00e7\u00f5es. O retorno indica que os avan\u00e7os conquistados enfrentam press\u00f5es renovadas, especialmente a degrada\u00e7\u00e3o do Pantanal por queimadas e altera\u00e7\u00f5es nos ciclos h\u00eddricos da bacia. Tamb\u00e9m foram inclu\u00eddos o bugio-preto (Alouatta caraya) e o tamandua\u00ed (Cyclopes rufus), primata e mam\u00edfero cujos habitats est\u00e3o entre os mais pressionados pelo desmatamento no Brasil central.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os n\u00fameros por grupo e o que revelam<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A distribui\u00e7\u00e3o das 790 esp\u00e9cies amea\u00e7adas por grupo taxon\u00f4mico oferece um retrato preciso de onde a crise de biodiversidade est\u00e1 mais concentrada. Os invertebrados terrestres lideram com 264 esp\u00e9cies ou subesp\u00e9cies amea\u00e7adas, um n\u00famero que frequentemente surpreende quem associa a lista exclusivamente a mam\u00edferos carism\u00e1ticos. Insetos, aracn\u00eddeos e outros invertebrados s\u00e3o componentes essenciais das cadeias ecol\u00f3gicas, respons\u00e1veis pela poliniza\u00e7\u00e3o, decomposi\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio dos ecossistemas, e sua perda raramente gera a como\u00e7\u00e3o p\u00fablica que acompanha o desaparecimento de grandes vertebrados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As aves v\u00eam em segundo lugar, com 242 esp\u00e9cies classificadas \u2014 um dado especialmente grave porque o Brasil abriga cerca de 20% de todas as esp\u00e9cies de aves do planeta, e qualquer deteriora\u00e7\u00e3o nesse grupo tem repercuss\u00e3o global. Os r\u00e9pteis somam 123 esp\u00e9cies amea\u00e7adas, os mam\u00edferos 102 e os anf\u00edbios 59. Vale notar que os peixes e invertebrados aqu\u00e1ticos integram uma lista separada, tamb\u00e9m atualizada em 2025, o que significa que o n\u00famero total de esp\u00e9cies em risco no pa\u00eds \u00e9 consideravelmente maior do que os 790 contabilizados neste documento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A lista reconhece, perante a nossa sociedade e o mundo, a situa\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies brasileiras e tamb\u00e9m abre caminho para a constru\u00e7\u00e3o de planos de recupera\u00e7\u00e3o e de conserva\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>, afirma Jo\u00e3o Paulo Capobianco, ministro do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nove extin\u00e7\u00f5es e um roedor que s\u00f3 existia numa ilha<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lista Nacional Oficial de Esp\u00e9cies da Fauna Extintas registra nove esp\u00e9cies que o Brasil n\u00e3o tem mais. Seis s\u00e3o aves, duas s\u00e3o anf\u00edbios e uma \u00e9 um mam\u00edfero: o roedor de Vespucci (Noronhomys vespuccii), esp\u00e9cie end\u00eamica de Fernando de Noronha que n\u00e3o \u00e9 avistada desde o s\u00e9culo XIX e cuja extin\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada \u00e0 chegada de esp\u00e9cies invasoras ao arquip\u00e9lago, especialmente ratos e gatos dom\u00e9sticos. A esp\u00e9cie sequer chegou a ser estudada em vida por cientistas modernos \u2014 seu registro se baseia em fragmentos fossilizados e relatos hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies end\u00eamicas insulares segue um padr\u00e3o global bem documentado: ilhas concentram biodiversidade \u00fanica e ao mesmo tempo s\u00e3o os ambientes mais vulner\u00e1veis a perturba\u00e7\u00f5es. No caso de Fernando de Noronha, a press\u00e3o humana sobre o ecossistema insular \u00e9 anterior \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de qualquer mecanismo de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As categorias de amea\u00e7a adotadas pelo ICMBio seguem os crit\u00e9rios da Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN), o padr\u00e3o global de refer\u00eancia. Esp\u00e9cies Vulner\u00e1veis (VU) enfrentam risco consider\u00e1vel em condi\u00e7\u00f5es adversas; as classificadas Em Perigo (EN) t\u00eam popula\u00e7\u00f5es significativamente reduzidas; as Criticamente em Perigo (CR) est\u00e3o \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o; as Possivelmente Extintas (CR-PE) n\u00e3o s\u00e3o registradas h\u00e1 anos e podem j\u00e1 ter desaparecido; e as Extintas na Natureza (EW) sobrevivem apenas em cativeiro ou em cultivo controlado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A escala do esfor\u00e7o e o que coloca o Brasil em posi\u00e7\u00e3o rara<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elaborar uma lista dessa magnitude exige infraestrutura cient\u00edfica, redes de pesquisadores distribu\u00eddas por biomas distintos e capacidade institucional para processar dados de grupos t\u00e3o heterog\u00eaneos quanto borboletas, anf\u00edbios, primatas e aves marinhas. Poucos pa\u00edses no mundo re\u00fanem essas condi\u00e7\u00f5es para avaliar sua biodiversidade com essa regularidade e abrang\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Poucos pa\u00edses no mundo t\u00eam a capacidade de avaliar sua biodiversidade na escala que o Brasil faz hoje&#8221;<\/em>, destaca Mauro Pires, presidente do ICMBio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa capacidade \u00e9 relevante al\u00e9m das fronteiras nacionais. O Brasil \u00e9 signat\u00e1rio do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, acordo firmado em 2022 que estabelece a meta de proteger 30% das terras e oceanos do planeta at\u00e9 2030. Ter uma lista nacional atualizada e tecnicamente s\u00f3lida \u00e9 requisito para monitorar o progresso em rela\u00e7\u00e3o a essas metas e para acessar mecanismos internacionais de financiamento para a conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que a lista ativa \u2014 e o que depende de muito mais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A publica\u00e7\u00e3o da lista no Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o tem efeito jur\u00eddico imediato: esp\u00e9cies listadas passam a contar com prote\u00e7\u00e3o legal espec\u00edfica, e sua ca\u00e7a, captura ou comercializa\u00e7\u00e3o configura crime ambiental. Mais do que isso, a inclus\u00e3o numa lista oficial abre caminho para a elabora\u00e7\u00e3o de Planos de A\u00e7\u00e3o Nacional (PANs), instrumentos que coordenam esfor\u00e7os de diferentes \u00f3rg\u00e3os, institutos de pesquisa e organiza\u00e7\u00f5es para recuperar popula\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O hist\u00f3rico dos PANs brasileiros mostra resultados concretos em casos como o mico-le\u00e3o-dourado (Leontopithecus rosalia), esp\u00e9cie que saiu da categoria Criticamente em Perigo ap\u00f3s d\u00e9cadas de a\u00e7\u00e3o coordenada, e a pr\u00f3pria arara-azul-grande, que havia sido retirada de listas anteriores justamente gra\u00e7as ao programa de conserva\u00e7\u00e3o estabelecido nos anos 1990. O retorno da arara \u00e0 lista atual reacende a urg\u00eancia de renovar esses esfor\u00e7os diante de um Pantanal que atravessa ciclos de degrada\u00e7\u00e3o mais intensos do que em qualquer per\u00edodo documentado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lista n\u00e3o \u00e9 o fim do trabalho. \u00c9 o ponto de partida para tudo que precisa ser feito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 animais que desaparecem antes mesmo de serem bem estudados. Outros carregam d\u00e9cadas de esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o nas costas e ainda assim n\u00e3o escapam da lista. 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