{"id":36329,"date":"2026-06-25T11:12:05","date_gmt":"2026-06-25T14:12:05","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36329"},"modified":"2026-06-25T11:12:06","modified_gmt":"2026-06-25T14:12:06","slug":"cacau-amazonia-vassoura-de-bruxa-clones","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/cacau-amazonia-vassoura-de-bruxa-clones\/","title":{"rendered":"32% a mais de cacau sem aumentar defensivos: a descoberta que pode mudar o cultivo na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1989, um fungo cruzou a fronteira entre o Par\u00e1 e o sul da Bahia e deu in\u00edcio a uma das maiores cat\u00e1strofes agr\u00edcolas da hist\u00f3ria recente do Brasil. A vassoura-de-bruxa, causada pelo Moniliophthora perniciosa, devastou mais de 70% das lavouras de cacau baianas ao longo da d\u00e9cada de 1990, transformou Ilh\u00e9us numa cidade em crise e inspirou at\u00e9 uma trama na televis\u00e3o. O pa\u00eds, que chegou a ser o segundo maior produtor mundial de cacau, perdeu essa posi\u00e7\u00e3o de forma abrupta e nunca a recuperou por completo. Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, o mesmo fungo ainda circula livremente pela Amaz\u00f4nia, onde encontra as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas ideais para prosperar, e a ci\u00eancia acaba de dar um passo concreto em dire\u00e7\u00e3o a uma solu\u00e7\u00e3o que dispensa o caminho mais curto, por\u00e9m mais fr\u00e1gil, dos defensivos qu\u00edmicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um estudo publicado na revista <em>Scientific Reports<\/em> identificou dois clones de cacau com desempenho superior ao dos demais cultivares avaliados justamente onde o desafio \u00e9 maior: num ambiente quente, \u00famido, com solos naturalmente pobres e sob press\u00e3o constante do fungo. O aumento de produtividade registrado chegou a 32% em compara\u00e7\u00e3o a variedades mais suscet\u00edveis, sem ampliar o uso de fungicidas ou fertilizantes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O dilema que toda planta enfrenta sob ataque<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entender o que torna essa descoberta relevante, \u00e9 preciso compreender um mecanismo biol\u00f3gico que afeta qualquer planta diante de um pat\u00f3geno. Quando um fungo ataca, a planta \u00e9 for\u00e7ada a redistribuir seus recursos internos: parte da energia que seria direcionada ao crescimento e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de frutos precisa ser desviada para os mecanismos de defesa. O resultado pr\u00e1tico \u00e9 uma planta que produz menos, defende-se mal ou faz as duas coisas de forma insuficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Diante de um ataque, a planta enfrenta um dilema biol\u00f3gico: depositar energia no crescimento ou na resist\u00eancia ao pat\u00f3geno. Quando recebe a nutri\u00e7\u00e3o adequada e tem a gen\u00e9tica certa, consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo e supera essa limita\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>, explica Renato de Mello Prado, professor da Faculdade de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias e Veterin\u00e1rias da Unesp em Jaboticabal e coordenador da pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse equil\u00edbrio, que parece simples na teoria, \u00e9 extremamente dif\u00edcil de alcan\u00e7ar na pr\u00e1tica, especialmente nos solos amaz\u00f4nicos. A floresta tropical produz solos altamente intemperizados \u2014 submetidos a processos intensos de degrada\u00e7\u00e3o f\u00edsica e qu\u00edmica pelo excesso de chuvas ao longo de mil\u00eanios. O resultado s\u00e3o solos naturalmente \u00e1cidos, com baixa disponibilidade de nutrientes essenciais como c\u00e1lcio, magn\u00e9sio e pot\u00e1ssio, exatamente os elementos que uma planta precisa para manter vigor e resist\u00eancia simult\u00e2neos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os dois clones que resolveram o problema<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa foi conduzida na Esta\u00e7\u00e3o Experimental Frederico Afonso, gerenciada pelo Centro de Pesquisa do Cacau (Ceplac) em Rond\u00f4nia, e avaliou 25 cultivares ao longo do per\u00edodo experimental. Entre todos os clones testados, dois se destacaram de forma consistente: o EEOP 63 e o EEOP 65, ambos desenvolvidos pela pr\u00f3pria Ceplac a partir de germoplasma amaz\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O diferencial desses dois materiais gen\u00e9ticos est\u00e1 no perfil mineral que suas plantas conseguem manter mesmo em condi\u00e7\u00f5es adversas. Enquanto a maioria dos cultivares avaliados apresentou desequil\u00edbrios nutricionais significativos nos solos de Rond\u00f4nia, o EEOP 63 e o EEOP 65 mantiveram concentra\u00e7\u00f5es mais equilibradas de f\u00f3sforo, pot\u00e1ssio, c\u00e1lcio e magn\u00e9sio nas folhas e tecidos, o que se traduziu diretamente em maior toler\u00e2ncia ao fungo e maior produ\u00e7\u00e3o de sementes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale lembrar que um clone, no contexto do cultivo vegetal, \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o de plantas geneticamente id\u00eanticas, todas originadas de um \u00fanico indiv\u00edduo por meio de reprodu\u00e7\u00e3o vegetativa. Isso significa que os produtores que adotarem esses materiais ter\u00e3o plantas com comportamento previs\u00edvel e est\u00e1vel ao longo do tempo \u2014 uma vantagem significativa no planejamento de lavouras de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que o solo amaz\u00f4nico revela sobre a doen\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos achados mais relevantes da pesquisa diz respeito ao padr\u00e3o nutricional encontrado nos solos da Esta\u00e7\u00e3o Experimental. Ao analisar o estado mineral dos 25 cultivares, os pesquisadores identificaram dois desequil\u00edbrios recorrentes que ajudam a explicar a vulnerabilidade da maioria das plantas ao fungo: excesso de nitrog\u00eanio e defici\u00eancia de boro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Observamos uma tend\u00eancia consistente de defici\u00eancia desses elementos nos clones avaliados, especialmente de boro, que \u00e9 fundamental tanto para a integridade das paredes celulares quanto para processos reprodutivos&#8221;<\/em>, afirma Edilaine Ist\u00e9fani Franklin Traspadini, bolsista de p\u00f3s-doutorado da FAPESP e primeira autora do artigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O excesso de nitrog\u00eanio n\u00e3o metabolizado \u00e9 particularmente problem\u00e1tico porque gera compostos nitrogenados que funcionam como substrato \u2014 ou seja, como alimento \u2014 para o Moniliophthora perniciosa. Em termos simples, uma planta mal nutrida e com excesso de nitrog\u00eanio est\u00e1, involuntariamente, alimentando o fungo que a ataca. A defici\u00eancia de boro, por sua vez, compromete a estrutura das paredes celulares e reduz a capacidade da planta de criar barreiras f\u00edsicas contra a invas\u00e3o do pat\u00f3geno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse cen\u00e1rio \u00e9 especialmente comum quando os produtores adubam com nitrog\u00eanio de forma isolada, sem aten\u00e7\u00e3o aos micronutrientes, uma pr\u00e1tica que pode parecer racional do ponto de vista do custo imediato, mas que fragiliza a planta sistemicamente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nutri\u00e7\u00e3o como estrat\u00e9gia de defesa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal contribui\u00e7\u00e3o da pesquisa est\u00e1 em demonstrar que a resist\u00eancia \u00e0 vassoura-de-bruxa n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica isolada, determinada apenas pela gen\u00e9tica do cultivar. Ela pode ser modulada pelo equil\u00edbrio nutricional que a planta consegue manter, e essa modula\u00e7\u00e3o muda radicalmente o resultado em campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O estudo confirma que a toler\u00e2ncia \u00e0 vassoura-de-bruxa na Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica isolada e pode ser modulada pelo equil\u00edbrio nutricional e pela capacidade produtiva sob estresse de um cultivar&#8221;<\/em>, explica Traspadini.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os pesquisadores, esse resultado refor\u00e7a uma abordagem que ainda \u00e9 subestimada em muitos sistemas de cultivo: a aten\u00e7\u00e3o aos micronutrientes. Elementos como boro, zinco e mangan\u00eas raramente recebem o mesmo cuidado que nitrog\u00eanio, f\u00f3sforo e pot\u00e1ssio nos programas de aduba\u00e7\u00e3o, mas seu papel na sa\u00fade estrutural e imunol\u00f3gica das plantas \u00e9 insubstitu\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O achado tem implica\u00e7\u00f5es diretas para o manejo em escala. Uma lavoura de cacau que combina cultivares com boa efici\u00eancia nutricional e um programa de aduba\u00e7\u00e3o equilibrado, com aten\u00e7\u00e3o real aos micronutrientes, pode produzir mais e resistir melhor ao fungo sem ampliar o uso de defensivos. Isso reduz custos, diminui o impacto ambiental e torna o sistema produtivo mais est\u00e1vel ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que ainda precisa ser feito<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar dos resultados expressivos, os pesquisadores s\u00e3o cautelosos quanto \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o imediata. A pesquisa foi conduzida em uma \u00fanica esta\u00e7\u00e3o experimental, em condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de solo e clima. Para que o EEOP 63 e o EEOP 65 possam ser recomendados com seguran\u00e7a para toda a Amaz\u00f4nia, s\u00e3o necess\u00e1rios estudos em outras regi\u00f5es e sob diferentes condi\u00e7\u00f5es edafoclim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;\u00c9 necess\u00e1rio investir em estudos semelhantes e mais amplos na regi\u00e3o amaz\u00f4nica para a obten\u00e7\u00e3o de novos clones que tenham as tr\u00eas caracter\u00edsticas: alta efici\u00eancia nutricional, alta produtividade e resist\u00eancia a doen\u00e7as. Isso \u00e9 importante, pois s\u00f3 assim o produtor rural poder\u00e1 ter diferentes op\u00e7\u00f5es de clones para cultivar em sua propriedade. E essa \u00e9 uma estrat\u00e9gia essencial para enfrentar os desafios atuais da cultura do cacau de forma sustent\u00e1vel&#8221;<\/em>, diz Prado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O cacau amaz\u00f4nico num contexto global<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil produz atualmente cerca de 270 mil toneladas de cacau por ano, volume que coloca o pa\u00eds entre os cinco maiores produtores mundiais, mas ainda distante de sua posi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A Costa do Marfim e Gana respondem juntos por mais de 60% da produ\u00e7\u00e3o global, e ambos os pa\u00edses enfrentam press\u00f5es crescentes de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, pragas e degrada\u00e7\u00e3o do solo. A janela de oportunidade para que o Brasil retome relev\u00e2ncia na cadeia global do cacau, especialmente com um produto amaz\u00f4nico de origem sustent\u00e1vel, \u00e9 real e est\u00e1 se abrindo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisas como a conduzida pela Unesp em parceria com Embrapa, Unir e Ufam s\u00e3o o alicerce t\u00e9cnico necess\u00e1rio para que essa janela seja aproveitada com consist\u00eancia. A combina\u00e7\u00e3o de melhoramento gen\u00e9tico adaptado ao ambiente local com manejo nutricional de precis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma solu\u00e7\u00e3o para a vassoura-de-bruxa: \u00e9 o modelo pelo qual o cacau amaz\u00f4nico pode se tornar refer\u00eancia mundial em qualidade, rastreabilidade e produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel, numa floresta que, paradoxalmente, \u00e9 tanto o lar do fungo quanto o \u00fanico lugar onde esse cacau cresce com as caracter\u00edsticas que o mercado internacional cada vez mais valoriza.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1989, um fungo cruzou a fronteira entre o Par\u00e1 e o sul da Bahia e deu in\u00edcio a uma das maiores cat\u00e1strofes agr\u00edcolas da hist\u00f3ria recente do Brasil. 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Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36329","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36329"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36329\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36330,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36329\/revisions\/36330"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35443"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36329"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36329"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36329"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36329"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}