{"id":36425,"date":"2026-07-01T11:55:27","date_gmt":"2026-07-01T14:55:27","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36425"},"modified":"2026-07-01T11:55:31","modified_gmt":"2026-07-01T14:55:31","slug":"parana-reducao-desmatamento-mata-atlantica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/parana-reducao-desmatamento-mata-atlantica\/","title":{"rendered":"De 3.298 para 411 hectares: a queda de desmatamento que coloca o Paran\u00e1 no topo da conserva\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Mata Atl\u00e2ntica j\u00e1 perdeu cerca de 88% de sua cobertura original e hoje sobrevive em fragmentos que somam pouco mais de 12% da \u00e1rea que um dia cobriu o litoral e o interior brasileiro. Diante desse cen\u00e1rio de devasta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, qualquer sinal de revers\u00e3o ganha peso desproporcional, e \u00e9 exatamente isso que os dados mais recentes do Paran\u00e1 revelam. Entre 2020 e 2025, o Estado reduziu em 87,5% a \u00e1rea de desmatamento do bioma, saindo de 3.298 hectares suprimidos para apenas 411 hectares no per\u00edodo mais recente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O levantamento \u00e9 do Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) Mata Atl\u00e2ntica, ferramenta desenvolvida pela Funda\u00e7\u00e3o SOS Mata Atl\u00e2ntica em parceria com o MapBiomas e a Arcplan, que monitora mensalmente qualquer supress\u00e3o vegetal a partir de 0,3 hectare em toda a \u00e1rea de aplica\u00e7\u00e3o da Lei da Mata Atl\u00e2ntica. O desempenho paranaense fica atr\u00e1s apenas do Rio Grande do Sul, que reduziu o desmatamento em 92,6% no mesmo intervalo, e de S\u00e3o Paulo, com queda de 88,7%. Para efeito de compara\u00e7\u00e3o, a m\u00e9dia nacional de redu\u00e7\u00e3o no per\u00edodo foi de 59,6%, com o pa\u00eds passando de 21.474 hectares desmatados para 8.658 hectares.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um bioma que n\u00e3o pode se dar ao luxo de recuar mais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entender a relev\u00e2ncia desse n\u00famero exige olhar para o que restou da Mata Atl\u00e2ntica. O bioma abriga cerca de 20 mil esp\u00e9cies de plantas vasculares, das quais 8 mil s\u00e3o end\u00eamicas, o que significa que n\u00e3o existem em nenhum outro lugar do planeta. Entre os animais, a floresta \u00e9 lar de esp\u00e9cies simb\u00f3licas como a on\u00e7a-pintada, o mico-le\u00e3o-dourado e o bicho-pregui\u00e7a, al\u00e9m de mais de 260 esp\u00e9cies de mam\u00edferos e centenas de aves, r\u00e9pteis e anf\u00edbios que dependem diretamente da vegeta\u00e7\u00e3o nativa para sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa combina\u00e7\u00e3o de alt\u00edssima biodiversidade com um grau de destrui\u00e7\u00e3o que j\u00e1 supera os 75% da cobertura original \u00e9 justamente o que torna a Mata Atl\u00e2ntica um dos cinco hotspots de biodiversidade reconhecidos mundialmente pela Conserva\u00e7\u00e3o Internacional. Cada hectare recuperado ou preservado carrega, portanto, um peso ecol\u00f3gico muito maior do que sugere o n\u00famero isolado, porque cada fragmento remanescente concentra uma densidade de vida que poucos outros ambientes no planeta conseguem igualar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que est\u00e1 por tr\u00e1s da queda no Paran\u00e1<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O secret\u00e1rio estadual do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, Everton Souza, atribui o resultado a uma combina\u00e7\u00e3o de monitoramento intensivo e a\u00e7\u00e3o coordenada no territ\u00f3rio. <em>&#8220;Reduzir o desmatamento ilegal \u00e9 uma obsess\u00e3o no Paran\u00e1, h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os, liderada pelo governador Ratinho Junior, para que isso aconte\u00e7a. Estamos monitorando, fiscalizando e multando, e assim conseguimos salvar muitas florestas, garantir um Paran\u00e1 sustent\u00e1vel para as futuras gera\u00e7\u00f5es&#8221;<\/em>, destaca o secret\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A engrenagem por tr\u00e1s desse resultado come\u00e7ou a ganhar forma em 2019, quando o Instituto \u00c1gua e Terra (IAT) implementou o N\u00facleo de Intelig\u00eancia Geogr\u00e1fica e da Informa\u00e7\u00e3o (NGI), respons\u00e1vel por identificar e delimitar \u00e1reas de dano ambiental e direcionar as equipes de fiscaliza\u00e7\u00e3o com precis\u00e3o. A partir da\u00ed, o Estado passou a operar com tr\u00eas plataformas de monitoramento por sat\u00e9lite simult\u00e2neas, entre elas a Rede MAIS, criada em parceria com a Pol\u00edcia Federal em 2023, que funciona como uma rede colaborativa de imagens em alta resolu\u00e7\u00e3o capaz de gerar alertas quase em tempo real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ganho de sensibilidade dessas ferramentas \u00e9 um dado que costuma passar despercebido, mas que ajuda a explicar boa parte do avan\u00e7o. At\u00e9 2020, os sistemas de monitoramento s\u00f3 conseguiam identificar desmatamentos acima de 1 hectare. Hoje, a tecnologia j\u00e1 detecta supress\u00f5es a partir de 0,3 hectare, o que amplia enormemente a capacidade de flagrar irregularidades antes que se espalhem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A engenheira florestal do IAT, Aline Canetti, resume o impacto dessa moderniza\u00e7\u00e3o. <em>&#8220;A tecnologia permitiu uma grande otimiza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o, reduzindo custos, a necessidade de recursos humanos e o tempo de resposta para a tomada de provid\u00eancias. Ela tamb\u00e9m trouxe mais seguran\u00e7a t\u00e9cnica aos agentes fiscais, que agora disp\u00f5em de informa\u00e7\u00f5es precisas geradas a partir do geoprocessamento e da an\u00e1lise de imagens do sat\u00e9lite e de bancos de dados como o CAR&#8221;<\/em>, ressalta a engenheira.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dinheiro p\u00fablico como ferramenta de conserva\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fiscaliza\u00e7\u00e3o e tecnologia explicam parte da equa\u00e7\u00e3o, mas o Paran\u00e1 tamb\u00e9m investiu em um mecanismo financeiro que muda o incentivo econ\u00f4mico dos munic\u00edpios: o ICMS Ecol\u00f3gico por Biodiversidade. O programa destina 5% do total do ICMS estadual para prefeituras que abrigam Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o, Terras Ind\u00edgenas, \u00c1reas Especiais de Uso Regulamentado ou mananciais de abastecimento para cidades vizinhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somente em 2025, o governo estadual repassou R$ 659,6 milh\u00f5es aos munic\u00edpios paranaenses por meio desse mecanismo, uma m\u00e9dia de R$ 54,9 milh\u00f5es mensais e um crescimento de 3,7% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Na pr\u00e1tica, isso transforma a preserva\u00e7\u00e3o ambiental em fonte de receita municipal, criando um incentivo direto para que prefeituras protejam e ampliem suas \u00e1reas verdes em vez de v\u00ea-las como obst\u00e1culo ao desenvolvimento local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda o Pagamento por Servi\u00e7os Ambientais Municipal, que concede incentivo financeiro a propriet\u00e1rios de Reservas Particulares do Patrim\u00f4nio Natural, refor\u00e7ando a l\u00f3gica de que conservar tamb\u00e9m pode ser economicamente vantajoso para quem cuida da terra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O contraste que revela o tamanho do desafio nacional<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Colocar o resultado paranaense em perspectiva nacional ajuda a entender por que ele chama tanto a aten\u00e7\u00e3o. Levantamentos anteriores do pr\u00f3prio Atlas dos Remanescentes Florestais, que monitora fragmentos acima de tr\u00eas hectares desde 1990, mostram que a m\u00e9dia de redu\u00e7\u00e3o de desmatamento no pa\u00eds como um todo tem sido t\u00edmida. Entre 2023 e 2024, por exemplo, a queda m\u00e9dia nacional na perda de florestas maduras foi de apenas 2%, o que especialistas classificam como insuficiente diante da urg\u00eancia de recupera\u00e7\u00e3o do bioma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o padr\u00e3o de uso da terra desmatada varia bastante entre regi\u00f5es. Em estados como Bahia e Minas Gerais, predominam grandes propriedades avan\u00e7ando sobre a floresta. J\u00e1 no Sul do pa\u00eds, onde se concentra uma agricultura familiar mais antiga, o desmatamento costuma ocorrer em pequenas e m\u00e9dias propriedades, corroendo principalmente as bordas dos fragmentos remanescentes. Esse dado ajuda a explicar por que o resultado do Paran\u00e1 \u00e9 particularmente significativo: reduzir o desmatamento numa regi\u00e3o de propriedades pulverizadas exige capilaridade de fiscaliza\u00e7\u00e3o que sistemas de monitoramento concentrados em grandes \u00e1reas n\u00e3o conseguem oferecer com a mesma efic\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que ainda falta para a floresta respirar de verdade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do avan\u00e7o expressivo, pesquisadores que acompanham a recupera\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica no pa\u00eds fazem quest\u00e3o de lembrar que reduzir o desmatamento n\u00e3o \u00e9 o mesmo que elimin\u00e1-lo. Mesmo em regi\u00f5es que registraram quedas acentuadas, o ideal ecol\u00f3gico seria a desmatamento zero, j\u00e1 que qualquer supress\u00e3o em fragmentos florestais j\u00e1 reduzidos a menos de 13% de sua extens\u00e3o original tem impacto desproporcional sobre esp\u00e9cies que dependem de grandes \u00e1reas cont\u00ednuas para se manter geneticamente vi\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado paranaense mostra, ainda assim, que investimento coordenado em tecnologia de monitoramento, presen\u00e7a de campo e incentivo financeiro aos munic\u00edpios consegue produzir uma curva de queda consistente ano ap\u00f3s ano. \u00c9 esse tipo de pol\u00edtica sustentada no tempo, e n\u00e3o apenas uma a\u00e7\u00e3o isolada, que tende a fazer a diferen\u00e7a real na tentativa de conter o avan\u00e7o sobre um dos biomas mais amea\u00e7ados e mais biodiversos do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Mata Atl\u00e2ntica j\u00e1 perdeu cerca de 88% de sua cobertura original e hoje sobrevive em fragmentos que somam pouco mais de 12% da \u00e1rea que um dia cobriu o litoral e o interior brasileiro. 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