{"id":36450,"date":"2026-07-02T22:54:58","date_gmt":"2026-07-03T01:54:58","guid":{"rendered":"https:\/\/maniadeplantas.com.br\/?p=36450"},"modified":"2026-07-02T22:55:02","modified_gmt":"2026-07-03T01:55:02","slug":"grindelia-mutabilis-pampa-gaucho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/grindelia-mutabilis-pampa-gaucho\/","title":{"rendered":"35 plantas, um \u00fanico parque, nenhuma outra no mundo: a esp\u00e9cie que o Brasil descobriu perto de desaparecer"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem esp\u00e9cies que a ci\u00eancia leva s\u00e9culos para encontrar. E existem esp\u00e9cies que a ci\u00eancia encontrou h\u00e1 mais de oitenta anos, sem saber que as havia encontrado. A Grindelia mutabilis pertence a esse segundo grupo. Coletada pela primeira vez em 1941 ao longo de uma antiga linha f\u00e9rrea entre Barra do Quara\u00ed e Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, a planta foi catalogada como uma esp\u00e9cie j\u00e1 conhecida, a Grindelia scorzonerifolia. O engano s\u00f3 foi corrigido em 2026, quando um estudo publicado na revista cient\u00edfica internacional Plants revelou que se tratava de uma esp\u00e9cie completamente distinta, nunca antes descrita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho, conduzido por pesquisadores ligados \u00e0 Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em parceria com a Embrapa Clima Temperado, nasceu de uma revis\u00e3o taxon\u00f4mica do g\u00eanero Grindelia no Brasil. Foi durante essa revis\u00e3o que o bi\u00f3logo Fernando Fernandes, ent\u00e3o em processo de mestrado em Bot\u00e2nica, percebeu que os exemplares registrados no Parque Estadual do Espinilho n\u00e3o correspondiam \u00e0 esp\u00e9cie at\u00e9 ent\u00e3o indicada. A partir da\u00ed, uma an\u00e1lise detalhada de folhas, flores e frutos confirmou a exist\u00eancia de uma planta genuinamente nova para a ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O nome que descreve a pr\u00f3pria planta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Grindelia mutabilis recebeu esse nome por um motivo visual pouco comum entre as esp\u00e9cies do g\u00eanero. Suas l\u00edgulas, pequenas estruturas florais localizadas nas margens do cap\u00edtulo, nascem em tom amarelo-claro e mudam gradualmente para um salm\u00e3o pastel conforme a flor amadurece. Esse comportamento crom\u00e1tico n\u00e3o havia sido registrado em nenhuma outra esp\u00e9cie de Grindelia estudada at\u00e9 hoje, o que tornou o nome mutabilis uma escolha quase \u00f3bvia entre os pesquisadores respons\u00e1veis pela descri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A planta pertence \u00e0 fam\u00edlia Asteraceae, o mesmo grupo bot\u00e2nico que re\u00fane margaridas, girass\u00f3is e cris\u00e2ntemos. Cresce em formato de roseta rente ao solo, com ramos espalhados e folhas lineares a estreitamente lanceoladas, uma arquitetura vegetal adaptada a condi\u00e7\u00f5es de solo bastante espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um endere\u00e7o \u00fanico no planeta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O habitat da Grindelia mutabilis \u00e9 o que transforma a descoberta em um caso de urg\u00eancia conservacionista. A esp\u00e9cie depende de solos arenosos e levemente salinos, dentro de uma forma\u00e7\u00e3o vegetal conhecida como savana de espinilho ou \u00f1andubay, associada \u00e0 \u00e1rvore nativa que d\u00e1 nome \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o e que tamb\u00e9m ocorre no Uruguai, na Argentina e no Paraguai. No territ\u00f3rio brasileiro, esse tipo de savana sobrevive de forma praticamente exclusiva dentro dos limites do Parque Estadual do Espinilho, em Barra do Quara\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A localidade onde a planta foi coletada originalmente em 1941 n\u00e3o existe mais nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. A antiga ferrovia que cruzava a regi\u00e3o foi desativada, e a \u00e1rea ao redor sofreu altera\u00e7\u00f5es profundas causadas pela ocupa\u00e7\u00e3o humana. Segundo o pr\u00f3prio estudo publicado na Plants, o local do registro hist\u00f3rico est\u00e1 hoje coberto por vegeta\u00e7\u00e3o densa, ambiente onde a esp\u00e9cie n\u00e3o \u00e9 mais encontrada. Isso significa que a Grindelia mutabilis perdeu parte do territ\u00f3rio que ocupava h\u00e1 mais de oito d\u00e9cadas, restando apenas o reduto protegido dentro do parque estadual.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Trinta e cinco motivos para se preocupar<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00famero que resume a fragilidade da esp\u00e9cie \u00e9 direto: os pesquisadores estimam a exist\u00eancia de apenas 35 indiv\u00edduos adultos conhecidos, todos concentrados em uma \u00e1rea reduzida dentro do Espinilho. Esse volume populacional colocou a planta imediatamente na categoria de criticamente amea\u00e7ada, o n\u00edvel mais alto de risco de extin\u00e7\u00e3o reconhecido pelos crit\u00e9rios internacionais de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para dimensionar o que esse n\u00famero representa, vale a compara\u00e7\u00e3o com esp\u00e9cies mais conhecidas do p\u00fablico. Popula\u00e7\u00f5es de grandes felinos como a on\u00e7a-pintada em \u00e1reas fragmentadas do Cerrado, por exemplo, costumam ser consideradas criticamente baixas quando caem abaixo de algumas dezenas de indiv\u00edduos em uma mesma regi\u00e3o. A Grindelia mutabilis j\u00e1 nasce nesse patamar, sem ter tido a chance de existir, em registros cient\u00edficos, com uma popula\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um fator adicional aumenta a press\u00e3o sobre a esp\u00e9cie. Observa\u00e7\u00f5es de campo relatadas junto ao estudo apontam a presen\u00e7a crescente do capim-annoni (Eragrostis plana), gram\u00ednea ex\u00f3tica origin\u00e1ria da \u00c1frica e considerada uma das invasoras biol\u00f3gicas mais agressivas do bioma Pampa. Introduzida no Brasil na d\u00e9cada de 1970, a esp\u00e9cie se espalhou por milh\u00f5es de hectares de campos nativos no Rio Grande do Sul, competindo por espa\u00e7o, luz e nutrientes com a vegeta\u00e7\u00e3o original. Sua presen\u00e7a nas proximidades do habitat da Grindelia mutabilis representa um risco direto \u00e0 sobreviv\u00eancia da planta rec\u00e9m-descrita, j\u00e1 que a gram\u00ednea tende a formar densas coberturas que impedem a regenera\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies nativas de menor porte.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma revis\u00e3o que tamb\u00e9m reorganiza a \u00e1rvore geneal\u00f3gica das plantas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descri\u00e7\u00e3o da Grindelia mutabilis trouxe um desdobramento t\u00e9cnico que vai al\u00e9m da simples identifica\u00e7\u00e3o de uma nova esp\u00e9cie. O estudo demonstrou que caracter\u00edsticas at\u00e9 ent\u00e3o usadas para justificar a exist\u00eancia de um g\u00eanero separado, chamado Notopappus, na verdade se enquadram dentro da varia\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica natural do pr\u00f3prio g\u00eanero Grindelia. Com isso, os pesquisadores propuseram a sinonimiza\u00e7\u00e3o do Notopappus, ou seja, sua incorpora\u00e7\u00e3o definitiva ao g\u00eanero Grindelia, o que reorganiza parte da classifica\u00e7\u00e3o bot\u00e2nica de esp\u00e9cies sul-americanas do grupo Machaerantherinae.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tipo de corre\u00e7\u00e3o taxon\u00f4mica tem impacto que ultrapassa o meio acad\u00eamico. Bancos de dados de biodiversidade, pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o e listas de esp\u00e9cies amea\u00e7adas dependem diretamente da precis\u00e3o desses registros. Uma esp\u00e9cie mal classificada pode passar despercebida por decis\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o ambiental simplesmente porque consta sob um nome que n\u00e3o reflete sua real singularidade gen\u00e9tica e morfol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Pampa que poucos enxergam<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Parque Estadual do Espinilho, administrado pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul, protege um recorte raro do bioma Pampa, historicamente ofuscado por biomas mais conhecidos como a Amaz\u00f4nia e a Mata Atl\u00e2ntica quando o assunto \u00e9 biodiversidade brasileira. A savana de espinilho que cobre parte do parque \u00e9 um ecossistema que n\u00e3o se repete em nenhuma outra regi\u00e3o do pa\u00eds, o que torna a unidade de conserva\u00e7\u00e3o um ponto insubstitu\u00edvel no mapa da preserva\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso da Grindelia mutabilis refor\u00e7a um argumento que pesquisadores de conserva\u00e7\u00e3o repetem h\u00e1 anos: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel proteger aquilo que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o sabe que existe. A formaliza\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie como criticamente amea\u00e7ada abre caminho para que ela seja inclu\u00edda em listas vermelhas oficiais e em planos de manejo espec\u00edficos, algo que s\u00f3 se torna poss\u00edvel depois que a planta ganha um nome, uma descri\u00e7\u00e3o e um lugar reconhecido na literatura cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem a prote\u00e7\u00e3o do parque, \u00e9 bastante prov\u00e1vel que a Grindelia mutabilis j\u00e1 tivesse desaparecido sem que ningu\u00e9m chegasse a documentar sua exist\u00eancia. O fato de ter sido encontrada agora, ainda que com uma popula\u00e7\u00e3o m\u00ednima, representa uma segunda chance rara: a de proteger uma esp\u00e9cie no momento exato em que ela \u00e9 descoberta, antes que se torne apenas mais um registro perdido na hist\u00f3ria natural do Pampa.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem esp\u00e9cies que a ci\u00eancia leva s\u00e9culos para encontrar. E existem esp\u00e9cies que a ci\u00eancia encontrou h\u00e1 mais de oitenta anos, sem saber que as havia encontrado. A Grindelia mutabilis pertence a esse segundo grupo. Coletada pela primeira vez em 1941 ao longo de uma antiga linha f\u00e9rrea entre Barra do Quara\u00ed e Uruguaiana, no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":990012,"featured_media":36451,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[705],"tags":[],"ppma_author":[395],"class_list":["post-36450","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo-botanico-ciencia","author-mel-maria"],"authors":[{"term_id":395,"user_id":990012,"is_guest":0,"slug":"mel-maria","display_name":"Mel Maria","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/50961e0508195fe342670c9ee218e6ab1b2463b7a360c03c14a381ba6a4ca049?s=96&d=mm&r=g","author_category":"2","first_name":"","last_name":"","user_url":"","job_title":"","description":"<b>Mel Maria<\/b> \u00e9 uma <b>jardineira e empreendedora<\/b> com mais de <b>10 anos de experi\u00eancia<\/b> no cultivo e com\u00e9rcio de plantas em <b>Curitiba<\/b>. Como propriet\u00e1ria da renomada <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/floriculturamelgarden\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>Mel Garden<\/b><\/a>, ela transformou sua paix\u00e3o em uma autoridade local, especializando-se em <b>flores, suculentas e projetos de paisagismo<\/b>, \u00e1rea na qual atua diariamente.\r\nSua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orienta\u00e7\u00f5es detalhadas e <b>altamente confi\u00e1veis<\/b> para o cultivo e o paisagismo."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36450","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/990012"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36450"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36450\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36452,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36450\/revisions\/36452"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36451"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36450"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36450"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36450"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/ellasmagazine.com.br\/natureza-eco\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=36450"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}